Ilustração de Marilia Goldschimidt (Divulgação)

Literatura infantojuvenil,

Estar presente no presente

Em O mistério do tempo, Silvana Tavano filosofa sobre a imensidão da fronteira entre o passado e o futuro

19dez2025

Por que o tempo voa nos momentos felizes, mas passa bem devagarinho quando estamos descontentes? No infantil O mistério do tempo, com nova edição da editora PeraBook, a escritora e jornalista Silvana Tavano — recentemente laureada com o prêmio Oceanos — convida os pequenos leitores a refletir sobre a passagem do “relógio invisível” da vida.

Nesta entrevista à Quatro Cinco Um, a vencedora do prêmio Oceanos com o romance Ressuscitar mamutes (Autêntica Contemporânea) e do Jabuti de 2022 com o infantil Sonhozzz (Salamandra) fala sobre a recorrência do tempo como temática na sua literatura e a importância de saborear o agora. 

Silvana Tavano(Luiza Sigulem/Divulgação)

Em O mistério do tempo, você aborda uma questão bem filosófica: a passagem do tempo. De onde veio a ideia de trazer esse assunto para a literatura infantojuvenil?
Esse assunto sempre me interessou e, não por acaso, vários dos meus livros para crianças e jovens falam sobre o tempo — ora investigando o espaço do Ainda no relógio, ora observando os ciclos em Como começa? e E no fim… tudo recomeça de outro jeito. O tempo também está presente nos meus dois romances adultos, especialmente em Ressuscitar mamutes, que entrelaça ciência, memória e ficção em uma viagem emocional pelo passado e pelo futuro.

Escrever esse livro te trouxe dilemas existenciais?
Pensar, ler e escrever sobre o tempo, seja para crianças, seja para adultos, nunca trouxe nenhum tipo de dilema ou conflito. E o fato de não conseguir chegar a uma conclusão só me instiga a pesquisar mais. Acho que não tem como escapar do tema — é sobre o tempo que estou pensando quando escrevo sobre a saudade, o prazer, sobre sonhos e expectativas, sobre a vida e sobre a morte.

É possível desvendar o mistério do tempo ou esse será sempre um grande mistério?
Talvez a única forma de se aproximar desse mistério seja experimentar o tempo, o que não equivale a desvendar nada, até porque a experiência muda a cada momento e certamente não será igual para todas as pessoas. 

No livro, você reflete sobre como o tempo aparenta passar mais rápido ou devagar a depender do contexto. Sendo o tempo complexo e relativo, perdemos tentando fazer tudo caber em horas?
Acho que existem coisas que cabem em horas e é para isso que serve o relógio — para delimitar o tempo de uma aula, de uma consulta médica, de uma sessão de cinema. Mas o que acontece em uma hora de aula, no período de uma consulta ou durante as duas horas de um filme é uma experiência individual — quero dizer, o que cada um sente, pensa ou vivencia nessas situações não precisa caber em horas.

Em um mundo onde tudo é correria, como conseguir trazer a nossa atenção para o tempo presente?
Estar presente no presente deveria ser natural, mas, na vida como ela é hoje, isso não acontece sem uma intenção. Para sair do modo automático, a gente tem que convocar a atenção, encontrar formas de não se deixar levar para outros tempos por preocupações, ansiedade, devaneios. 

É preciso aprender a lidar com o tédio para viver o presente?
Tédio me faz pensar em monotonia, em desinteresse por tudo, e, nesse estado meio apático, fica difícil se conectar com o presente. Melhor do que aprender a lidar é não se entregar a essa sensação. E cada um vai descobrir o que motiva, o que faz vibrar, o que pode trazer sentido ao presente.

Acredita que a leitura do seu livro pode incentivar as crianças (e os adultos) a experimentar “o tempo de agora” de uma forma mais sensível?
Tomara! Espero que o livro inspire, provoque e leve os pequenos e os grandes a parar, um instante que seja, para pensar no agora.

Quem escreveu esse texto

Maria Fernanda Barros

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e assistente de arte na Quatro Cinco Um.