Listão,

O que vem de bom por aí

De Machado de Assis a Eliana Alves Cruz, W. E. B. Dubois a Marilena Chauí, passando por prêmio Nobel, Goncourt, Pulitzer e novos nomes na ficção e poesia, editoras programam lançamentos para esquentar o segundo semestre

08ago2025 • Atualizado em: 02set2025

Passada a sequência de eventos literários de junho e julho, é hora de pensar no segundo semestre. A Quatro Cinco Um entrou em contato com editoras para saber suas apostas e previsões de lançamentos até o final do ano e preparou um pequeno compilado de títulos — que, como toda programação, pode sofrer mudanças e acréscimos. 

As atualizações podem ser acompanhadas na newsletter Listão da Semana, com os lançamentos que chegam às livrarias, no Listão mensal da edição impressa da revista dos livros ou na sua versão digital. Por ora, já dá para ter uma ideia do que vem de bom por aí.

Literatura brasileira

Em 2025, estão previstos lançamentos de nomes importantes da literatura brasileira, não necessariamente no gênero ficção. Luiz Ruffato, por exemplo, chega com ensaios sobre a história de nossa literatura, reunidos no volume A mão no fogo, e a trajetória de Silviano Santiago surge na biografia escrita por João Barile, em lançamentos da Autêntica. 

Já Mário de Andrade é analisado como intérprete do Brasil (mais especificamente, das populações e culturas negras no país) em O losango negro, de Angela Grillo, que vai sair pela Cobogó. A ironia de Machado de Assis é também analisada, pela chave filosófica, assim como Aluísio Azevedo, pela da crítica contemporânea, nos lançamentos da Alameda: Percursos machadianos, de José Raimundo, e Quem me comeu a carne tem de roer-me os ossos, organizado por Cláudia Barbieri, Haroldo Ceravolo Sereza e Leonardo Mendes.

Na ficção, a Companhia das Letras promete novos romances de Milton Hatoum (Dança de enganos) e de Eliana Alves Cruz (Meridiana, um romance em seis vozes sobre o processo de ascensão social de uma família negra). Já a Todavia lança Coração sem medo, de Itamar Vieira Junior, volume que encerra a trilogia iniciada com Torto arado. Também estão programados Visita ao pai, primeiro livro de Cristóvão Tezza na editora, e Nego tudo, de Andréa del Fuego, além do relançamento da Trilogia obscena dos anos 90 de Hilda Hilst.

Saindo do forno, o primeiro romance de Bianca Santana, Apolinária, pela Fósforo; O hipopótamo, de Chico Mattoso, pela Todavia; Brincadeiras à parte, contos de Letrux, pela Planeta; Acho que eu não te amo mais, romance de Milly Lacombe, pela Seja Breve; O último Van Gogh, de Edney Silvestre, pela Globo Livros; a edição comemorativa de Pente de Vênus, de Heloisa Seixas, pela Mapa Lab; e Uma diversidade de silêncios, romance autobiográfico de Sergio Keuchgerian sobre a homossexualidade na terceira idade, pela Folhas de Relva. E, em formato audiolivro, a Supersônica deve lançar São Bernardo, de Graciliano Ramos, narrado por Erom Cordeiro, com direção de Daniela Thomas.

Literatura estrangeira

Neste segundo semestre, também desembarcam no Brasil grandes nomes da cena literária internacional. O vencedor do Booker Prize 2023, A canção do profeta, do irlandês Paul Lynch, e o polêmico prêmio Goncourt 2024, Língua interior, do franco-argelino Kamel Daoud, são apostas da DBA neste semestre. O também premiado Colson Whitehead, duas vezes vencedor do Pulitzer, chega dos Estados Unidos com Nas ruas de Sag Harbor, pela HarperCollins. 

Os pêssegos e outros contos, do galês Dylan Thomas, está chegando pela WMF Martins Fontes; Maurice, do inglês E. M. Foster, referência na literatura LGBTQIA+, pela Ercolano; e o autor de Fahrenheit 451, Ray Bradbury, terá seu Recordações lançado pela Biblioteca Azul. A Intrínseca lança Vejam como dançamos, sequência da saga familiar da franco-marroquina Leïla Slimani. E da autora de Apanhadora de pássaros, a norte-americana Gayl Jones, a Instante lança Corregidora, descoberto e editado por Toni Morrison.

Também estão previstos lançamentos de autores de nacionalidades menos publicadas no Brasil, como Tash Aw, nascido em Taiwan, com Estranhos no cais: retratos de uma família, pela Todavia; o tcheco Bohumil Hrabal, com Trens estreitamente vigiados, pela Editora 34; e o nigeriano Chukwuebuka Ibeh, com Blessings, pela Tusquets. 

O romance enciclopédico Central Europa, do escritor e jornalista William T. Vollmann; o novíssimo romance do Prêmio Nobel sul-africano J. M. Coetzee, O polonês; e A fraude, de Zadie Smith, e Raízes loiras, de Bernardine Evaristo, ambas inglesas, são alguns dos destaques da Companhia das Letras para os próximos meses, que também lança pelo selo Penguin-Companhia uma nova tradução de Os irmãos Karamázov.

Ainda chegam ao país um livro do Nobel norueguês Jon Fosse, Heptalogia, pela Fósforo, e o novo romance do americano-vietnamita Ocean Vuong, O imperador de felicidade, pela Rocco. Da húngara Ágota Kristóf, recém-descoberta no Brasil por A analfabeta (Nós) e a Trilogia dos Gêmeos (Dublinense), a Nós lança agora o romance Ontem. E a Relicário vem com Ruínas bem comportadas, romance da francesa Hélène Cixous, e Bella mia, da italiana Donatela di Pietrantonio, vencedora do prêmio Strega.

Do Japão, O mistério das onze plantas, segundo volume do best-seller Casas estranhas, de Uketsu, chega pela Intrínseca, e Os gritos, horror clássico japonês de Tokuro Nukui, pela Rocco. 

Da literatura lusófona, a Dublinense programa o lançamento de Terrinha, de Catarina Gomes, vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, e Quantas madrugadas tem a noite, do moçambicano Ondjaki, colunista da Quatro Cinco Um; já pela Biblioteca Azul chega O morro da pena ventosa, de Rui Couceiro.

E da América Latina, o guatemalteco Eduardo Halfon, com Tarântula (Autêntica); a uruguaia Armonía Somers, com A mulher nua (Relicário); as chilenas Maria José Navia, com Kintsugi (Rocco) e Paulina Flores, com Que vergonha (Nós); e a colombiana Laura Ortiz Gómez, com Indócil (Arquipélago).

Poesia

Para comemorar os quarenta anos da trajetória poética de Edimilson de Almeida Pereira, a Mazza lança o box Poesia & Agora, reunindo 28 livros do poeta mineiro.

O selo Círculo de Poemas traz a poesia dos brasileiros Ana Costa dos Santos, Rafael Zacca e Davi de Jesus do Nascimento. Em uma parceria, a Lote 42 e a Impressões de Minas comemoram os dez anos de A coragem do primeiro pássaro, de André Dahmer, com uma edição com novo projeto gráfico e prefácio inédito do poeta Fabio Weintraub.

A Nauta prepara para o semestre o lançamento de dois estadunidenses: Canções de sol e sombra, de Paul Laurence Dunbar, e a Poesia completa de Stephen Crane, pela primeira vez traduzida no Brasil. A Relicário promete Anne Carson, com Vidro, ironia e Deus, mescla de poesia e ensaio. E Fazer círculos com mãos de ave, de Ana Estaregui, é o título da Editora 34.

Novas coleções de plaquetes são anunciadas pela Janela + Mapa Lab, como a terceira temporada da Aqui+Agora, que inclui a antologia Paraíso trans, com a poesia de oito trans masculinas, e a coletânea Incendiárias, com poemas inéditos de autoras como Prisca Agustoni, Adriana Lisboa e Stephanie Borges. Uma outra série com plaquetes dedicadas ao futebol é a Domingo eu vou para o Maracanã, com textos dedicados aos times de coração de Ruy Castro, Pedro Bial, Helio de La Peña e João Carlos Eboli.

Não ficção

O sociólogo pan-africanista W. E. B. Du Bois marca presença com dois lançamentos: Água escura, pela Fósforo, e Black Reconstruction in America (ainda sem título em português), pela Boitempo, que também deve lançar Capitalismo racial, de Ruy Braga. E, pela Instante, sai Imaginários emergentes e mulheres negras, de Rosane Borges.

Da brasileira Marilena Chaui, que completa 84 anos em setembro, estão previstos dois lançamentos: Filosofia: um modo de vida, pela Planeta, e uma coletânea de textos da filósofa, ainda sem título, pela Autêntica.

A história e as histórias do Brasil descobertas em manuscritos estão nos lançamentos da Chão até o fim do ano: O cancioneiro das Baldaias, organizado por Sheila Hue, com os provavelmente primeiros poemas profanos escritos no Brasil, por Bartolomeu Fragoso, no século 16, e O Amazonas: fragmentos de viagem, diário de viagem do artista hispano-americano Nicolau Huascar de Vergara escrito em 1860-61, organizado por Heloisa Barbuy e Leticia Squeff.

Em outubro, a Companhia das Letras lança No meu caminho: memórias, a autobiografia da Nobel da Paz paquistanesa Malala Yousafzai. A Ubu deve trazer, ainda este ano, um novo livro do italiano especialista em neurobiologia vegetal Stefano Mancuso, Fitopolis, la città vivente, ainda sem título em português.

Teatro, música e cinema

As histórias de vida de Ruth de Souza, contadas a Lázaro Ramos pouco antes da morte da atriz, são o tema de A rainha da rua Paissandu, no lançamento da Intrínseca. A Temporal, especializada em teatro, prepara os lançamentos de E os cães se calaram, de Aimé Césaire. E os ensaios da professora e dramaturga Leda Maria Martins foram reunidos em A fina lâmina da palavra, previsão de lançamento da Cobogó.

Marisa Monte: notas além da música, de Emerson Rossetti, com prefácio de Marcia Tiburi, está previsto pela Contracorrente. A Rocco vem com Love, Freddie, biografia de Freddie Mercury escrita por Leslie Ann Jones. E a Belas-Letras promete lançamentos sobre a música de Iron Maiden, Paul McCartney e Chuck Berry, além de livros de cinema — com livros detalhando os bastidores de Blade Runner e de 2001, de Kubrick.

Nota: A Quatro Cinco Um entrou em contato com 78 editoras perguntando sobre os lançamentos previstos para 2025. Todo mês, a revista dos livros busca informações de editoras de todos os portes e regiões do país sobre títulos, que podem entrar no Listão, com mais de cem lançamentos por mês, ou em resenhas, entrevistas e outros textos. Editoras podem enviar sua programação e notícias sobre publicações para [email protected] ou se cadastrar no Guia de Editoras da Bagagem Literária.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).

Clara Balbi

Jornalista, foi editora-assistente da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo

Jaqueline Silva

É jornalista em formação pela ECA-USP e assistente editorial na Quatro Cinco Um.

Maria Fernanda Barros

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e assistente de arte na Quatro Cinco Um.