O escritor franco-ruandês Gaël Faye (JF Paga/Divulgação)

Literatura,

‘A escrita foi uma porta num mundo de silêncio’ 

Escritor e rapper, o franco-ruandês que se tornou um fenômeno editorial fala de seu país e de Jacarandá, seu segundo romance

01nov2025 • Atualizado em: 31out2025 | Edição #99

Filho de pai francês branco e mãe ruandesa, Gaël Faye (Bujumbura, Burundi, 1982) confessa que ao longo da vida já teve três raças. É branco entre os pretos africanos, preto para os brancos franceses e mestiço quando convive com outros mestiços. 

Durante sua infância nos anos 80, em Burundi, era chamado por outras crianças de mzungu (palavra usada historicamente para os europeus brancos). Quando chegou em Paris com treze anos de idade, fugindo da guerra civil que estava despedaçando seu país, os colegas na escola diziam: “um black acabou de entrar” na sala. Em casa, o silêncio da mãe sobre suas origens ruandesas (e sobre o genocídio de 1994) foi criando um profundo desconforto em Faye. Na escola, se reconheceu em outras pessoas que não se sentiam aceitas pela sociedade. O hip-hop veio ao resgate. 

“Foi uma permissão para me expressar com minha própria identidade. Porque eu sentia que mentia o tempo todo sobre minha posição social e sobre minhas raízes. O hip-hop é uma cultura inclusiva. Nele encontrei pessoas como eu, tentando encontrar seu lugar no mundo”, afirmou à revista Quatro Cinco Um em entrevista realizada na Pousada do Ouro de Paraty, onde se hospedou durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), realizada no fim de julho. 

Surfar nos slams de hip-hop de Paris reforçou a confiança do jovem Gaël, que acabou se formando em finanças e obtendo um mestrado na École nationale d’assurances (Enass). Em 2008, depois de trabalhar no mercado financeiro em Londres, Gaël fundou o grupo de rap Milk Coffee & Sugar. Seu primeiro álbum solo, Pili Pili sur un croissant au beurre (2013), incluía a faixa que mudaria sua vida: “Petit pays”. 

‘Eu sentia que mentia o tempo todo sobre minha posição social e sobre minhas raízes’

“Uma folha e uma caneta acalmam meus delírios insones/ longe do meu pequeno país na África dos grandes lagos”, dizem uns versos. A editora Catherine Nabokov, impressionada com a qualidade das letras, incitou Faye a escrever literatura. “Tinha um grande senso de narrativa e enorme potencial. Mas, como a maioria dos rappers, tinha uma relação de inferioridade com a literatura, muito erroneamente”, disse Nabokov ao jornal El País em 2019.

“Estava estagnado com o formato musical, porque é difícil contar tudo em três ou cinco minutos. Meus romances são como um prolongamento das minhas canções.” Faye não cogitava ser artista: “No começo, ser artista não era uma opção. Antes da música, escrevia poemas. Escrever para mim mesmo e para meus amigos era minha paixão, meu dna”. 

O romance Petit pays, publicado na França em 2016, teve sucesso estrondoso: Prêmio Goncourt des Lycéens, 700 mil cópias vendidas na França, tradução para 36 línguas, adaptação para o cinema em 2020. A edição mais recente de Pequeno país no Brasil saiu em 2023, pela Carambaia, com tradução de Marília Garcia.

Jacarandá

Outro disco de Gaël Faye, Mauve Jacaranda (2022), desabrochou em seu novo romance, Jacarandá (Editora 34). A canção “Butare”, nome da cidade ruandesa onde morou sua avó materna, fala de um “jacarandá florido” que espalhava sua sombra “na casa da vovó”.

Jacarandá conta a história de Milan, rapaz criado em um subúrbio de Paris. Em 1994, ano do genocídio de Ruanda, perpetrado pelos hútus contra os tútsis, Milan se choca com imagens do conflito nos jornais franceses. Anos depois, embarca numa viagem a Ruanda para buscar as origens de sua família e entender os silêncios profundos de Venância, sua mãe. 

O livro foi escrito integralmente em Kigali, capital de Ruanda, onde Faye se estabeleceu em 2015. “Precisava estar na África para escrever o romance e entender melhor a sociedade. Cresci em Burundi, e Ruanda era para mim um país de férias. Quando você está de férias, as pessoas sorriem para você e te mostram o lado agradável das coisas. Morar em um país te permite entrar na rotina local de forma mais profunda”, explica.

O silêncio da mãe de Milan é inspirado na vida do autor: “Eu cresci com esse silêncio. Aos poucos, reparei que nas famílias francesas era normal falar entre adultos e crianças. Então, comecei a pensar que tinha alguma coisa errada na minha família. A escrita foi uma forma de criar uma porta nesse mundo de silêncio”, diz Faye.

Faye tem esperança. Vive em família numa Ruanda que renasce vigorosamente das cinzas

Itamar Vieira Junior explica, na orelha do livro, que durante o genocídio havia um comando para cortar as árvores altas, o que remetia à estatura dos tútsis e ao desejo de exterminá-los. “À sombra de um jacarandá crescendo no jardim da casa da família, Milan organiza relatos e a experiência cotidiana de reconstrução de Ruanda em sua busca por justiça e reparação nas últimas três décadas”, escreve Vieira Junior. 

Para a sobrinha de Milan, o jacarandá é mais que uma árvore. Stella, que às vezes mata aulas para se esconder no seu tronco, diz se comunicar com a bisavó por meio da árvore. 

Stella cresceu junto àquela árvore mística, sua amiga e confidente, uma presença que a acalmava numa época conturbada, um farol seguro nas turbulências do tempo que passa.

Um dia, Stella descobre que um irmão e duas irmãs que nunca conheceu, assassinados durante o genocídio, ficaram três meses enterrados embaixo do jacarandá. As raízes da árvore, que atravessam gerações da família, viram metáfora de um país destruído que renasce das cinzas de um genocídio inexplicável. 

Semente do mal

Anos depois de sua primeira visita a Ruanda, Milan volta para realizar um trabalho de fim de curso sobre os júris gacaca, nos quais cidadãos comuns julgavam pessoas envolvidas no genocídio. Durante essa visita, escuta sua tia Eusébie narrando aos prantos, em um estádio de futebol lotado, como seus filhos foram assassinados. No seu primeiro romance, Pequeno país, Faye escreve que o motivo da guerra entre os tútsis e os hútus não era serem de países diferentes, falarem línguas diferentes ou terem um deus diferente, mas o fato de não terem o mesmo nariz. 

Em Jacarandá, Milan descobre aos poucos como os colonizadores — alemães primeiro, belgas depois — dividiram a região artificialmente em etnias. Diante das reivindicações independentistas dos tútsis, os belgas e a Igreja se aproximaram dos hútus. Jacarandá conta como, em 1957, os belgas publicaram o Manifesto dos Bahutu, que designava os tútsis como invasores e exploradores e que continha o “veneno da divisão e do etnicismo habilmente destilado pelos colonos”. 

Faye eleva o tom quando fala do passado colonial da África. “O negócio do nariz parece uma historinha para crianças, algo pouco sério. Parece absurdo. Mas o verdadeiro absurdo é o racismo. Os europeus criaram essa oposição fake entre as etnias, criaram os tútsis e os hútus. Nossas famílias foram assassinadas porque tinham o nariz pequeno”, afirma. No romance, um personagem (Claude) explica ao júri gacaca que, quando começou o genocídio em 1994, “não sabia que éramos tútsis”. 

Faye diz que pensa no genocídio de Ruanda todos os dias porque, para ele, “é maior que qualquer coisa” — e se mostra perplexo perante o genocídio que está acontecendo em Gaza. “O que me desespera é ver os mesmos mecanismos se repetindo. Desumanização, impunidade, se habituar à morte… As mesmas causas criam as mesmas consequências. Como Gaza hoje, Ruanda em 1994 se sentiu abandonada pelo mundo. Esse sentimento é um abismo de que nunca nos livramos”, afirma. 

Ao mesmo tempo, o autor tem esperança. Vive em família numa Ruanda que renasce vigorosamente das cinzas . No final de Jacarandá, apesar de criticar um progresso feito de engarramentos e arranha-céus, o narrador descreve com fascínio a nova Kigali: 

O centro está moderno e bem cuidado, uma sucessão de parques e calçadões, bairros comerciais. [] Tudo aconteceu tão rápido e tenho a impressão de estar deslocado do presente, de morar nas lembranças de um mundo que nunca existiu, de já ser velho nesse país onde a grande maioria dos moradores nasceu depois do genocídio. 

O ser humano, diz Faye, tem uma grande capacidade de se reconstruir: “Parece insignificante dizer isso no momento em que pessoas estão morrendo sob bombas, mas também é essencial dizer que outra história é possível. Nada está absolutamente perdido, nunca”. 

Ser africano na França

Faye descreve a França como um país contraditório onde a extrema direita “cresce e cresce”, mas onde, ao mesmo tempo, a sociedade “aceita melhor as diferenças dos franceses com origens estrangeiras”. Para ele, a mídia francesa está cheia de estereótipos sobre a África: “Não falam sobre política africana, apenas que as pessoas se matam pelos minerais ou por conflitos tribais”. O autor ainda critica os franceses que “consideram que ser francês é sinônimo de ser branco”, porque “o país é já uma mistura”.

As coisas mudam, na sua opinião, quando uma pessoa com origem africana se destaca. “Eu sou considerado um autor francês porque vendo muitos livros. Aí você deixa de ser pitoresco. É hipócrita. Na França, você só é aceito se você é perfeito. Se não, falam para você de suas origens. Por exemplo, na França, um negro africano é considerado francês se for perfeito e ganhar a Copa do Mundo. Caso contrário, eles sempre lembram: ‘Você é francês, mas de origem africana’. Não existe uma aceitação real”, assevera. 

Ele reconhece que o prestígio adquirido na Europa ajuda na circulação de seus trabalhos na África. E confia no crescente diálogo entre os países do chamado Sul Global: “Espero que as novas gerações possam discutir, nos próximos anos, do Sul para o Sul, e que não precisemos ir para a Europa, porque eu ainda tenho de ir para a Europa para depois fazer promoção dos meus livros na África. Se eu encontrar uma forma de promover meus livros na África e permanecer lá, vou ter maior capacidade de expandir minha arte”.

Especial Atlântico Negro Francófono

Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.

Quem escreveu esse texto

Bernardo Gutiérrez

Jornalista, escritor, curador e pesquisador, coordenou o livro Regiones imaginarias (Ediciones Menguantes).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025.