Mulher em frente à cerca que separa San Ysidro, na California (EUA), de Tijuana, no México, em 2017 (Justin Sullivan/Getty Images)

Jornalismo,

Um jornalista entre os deportados

Em crônicas duras e emotivas, o argentino Leonardo Tarifeño descreve a vida na fronteira entre Estados Unidos e México

22jun2026

Em 2015, quando o jornalista e escritor Leonardo Tarifeño aceitou o convite do governo mexicano para participar do projeto Migração e Memória, não suspeitava que sua vida ficaria de ponta-cabeça durante anos. O projeto visava a publicação de um livro com relatos dos deportados dos Estados Unidos residentes na cidade de Tijuana. Depois de três meses, quando as viagens programadas finalizaram, os outro cinco escritores do projeto voltaram para casa. Ele não. Começou a pagar de seu bolso novas idas a Tijuana, uma urbe caótica encurralada contra o oceano Pacífico e o muro que separa o México da Califórnia. Decidiu continuar escutando histórias de deportados. 

As histórias que escutou eram tão fortes que, quando ele as compartilhava com sua companheira, já em casa, na Cidade do México, ela chorava e lhe pedia que parasse. “Se minha parceira não quer saber dessas histórias, pensava eu, como vou fazer para convencer pessoas que não me conhecem para que as leiam? Na real, nunca tive a certeza de que conseguiria escrever um livro”, disse Tarifeño em entrevista à Quatro Cinco Um

O jornalista e escritor Leonardo Tarifeño (Divulgação)

Em 2015, chegavam a Tijuana cerca de 60 mil expulsos por ano (160 pessoas por dia, uma a cada dez minutos). Em 2014, 68.541 crianças foram presas na fronteira com o México tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Tijuana, associada à música de Manu Chao (“Welcome to Tijuana/ tequila, sexo y marihuana”), sempre foi sinônimo de terra sem lei. Terra de cassinos, farra sem fim, prostituição, coiotes (pessoas que levam migrantes através do deserto até os Estados Unidos), espaldas mojadas (migrantes que atravessam ilegalmente a fronteira) e traficantes de drogas. Porém, os “deportados” quase não aparecem no relato oficial de Tijuana como urbe empreendedora, divertida e cosmopolita. 

Tarifeño se jogou na Tijuana real para enfrentar a insondável tristeza daqueles que foram despojados de tudo, como ele conta no prefácio da edição brasileira de Não volte: um jornalista entre os deportados mexicanos em Tijuana. “Como costuma acontecer no jornalismo, entrei nessa história para contá-la, sem saber que, para isso, teria de me transformar”, escreve. 

Tarifeño não podia imaginar, no começo da escrita de No vuelvas (publicado no México em 2018), que Donald Trump ganharia as eleições presidenciais estadunidenses com uma retórica xenofóbica. Menos ainda que, em 2025, no seu segundo mandato, Trump daria carta branca ao ICE (United States Immigration and Customs Enforcement) para transformar a deportação no novo esporte nacional. “Quando escrevi Não volte, minha principal intenção era deixar um testemunho do que acontecia ao meu redor. Eu não imaginava que os migrantes passariam a encarnar a ‘fronteirização’ em seus próprios corpos”, escreve Tarifeño no prefácio.  

Vínculo afetivo

Aparentemente, a primeira missão de Tarifeño para o projeto Migração e Memória era simples: viajar, na última semana de cada mês, até Tijuana, ir ao Desayunador Salesiano Padre Chava (o principal lugar da cidade onde os deportados podem comer de graça) e colher depoimentos. Logo no começo, a realidade truncou os planos: quase ninguém queria contar sua história. Desconfiavam de tudo. Desconfiavam de Tarifeño e dos bacanas escritores de fora. 

O medo imposto pelo narcotráfico na sociedade mexicana e pelos agentes da migra (policia fronteiriça estadunidense) estabeleceu a desconfiança como princípio de convivência. “No desayunador, muitos sentem, por um lado, uma necessidade muito grande de falar e, por outro, uma desconfiança enorme, sobretudo depois de terem sido traídos tantas vezes”, escreve Tarifeño. 

As histórias iam aparecendo aos poucos, aos trancos e barrancos, depois de semanas de convivência

As histórias iam aparecendo aos poucos, aos trancos e barrancos, depois de horas, dias, semanas de convivência. Quando o repórter abria mão do profissionalismo jornalístico e deixava aflorar sua humanidade, os deportados confiavam nele. O livro começa com uma surpresa. Maria de la Luz Guajardo Castillo, uma mulher de 57 anos que morava desde 1999 em San Diego e foi deportada, pede ao repórter uma pequena ajuda: encontrar sua filha, Maria Elena Martínez, que vive na cidade de Tampa. Não acha o contato. Precisa muito dela. O outro filho — autista, de onze anos — ficou internado no Hospital Psiquiátrico de San Diego. O repórter promete ajudá-la. 

Tarifeño escreve no livro que desde o começo teve a tentação de ajudar aqueles que pediam umas moedas ou qualquer tipo de favor. O dilema o persegue até hoje. “O livro ainda me machuca. Dói muito. Desde então, muitas vezes me perguntei, como é possível que eu não tenha conseguido ajudar todas essas pessoas que me ajudaram?”, assegura. Nas páginas de Não volte, ele mergulha em seu sentimento de culpa: 

Toda vez que saio do desayunador, sou tomado por um enorme alívio, como se voltasse a respirar depois de muito tempo debaixo d’água; […] devo admitir que […] mergulho nessa onda de comiseração e pavor que me provoca raiva de mim mesmo.

Na parte final do livro, Tarifeño confessa que “desde a manhã em que o guatemalteco Alex me pediu uma camisa emprestada, levo uma preta, de manga comprida, dobrada na mochila”. 

Eis um detalhe que transforma Não volte em um livro capital: o autor escreve com o corpo, com a pele, com o coração. Tarifeño usa rigorosamente a objetividade jornalística quando precisa dela. Por exemplo, para desmentir a mitologia discriminatória de Donald Trump contra a migração: “que a maioria dos imigrantes mexicanos são criminosos, que os Estados Unidos recebem imigrantes demais e que eles roubam o trabalho dos desempregados locais”. 

Ele cita eficientemente dados, relatórios e bibliografia. E sente orgulho da profissão. “Para uma reportagem, um jornalista há de fazer a mesma pesquisa que exige escrever um ensaio”, afirma. Contra os stories das mídias sociais, o autor reivindica o papel dos formatos narrativos longos: “A audiência está acostumada às histórias que desaparecem, ao scrolling, à superficialidade do conteúdo, àsfake news, mas ao mesmo tempo surge a reação, pessoas que falam: ‘quero que alguém me conte uma verdade’”. 

‘Estou falando da dignidade humana; do fato de sonhar, de fracassar. O que a gente faz com um fracasso?’

As melhores páginas de Não volte não são fruto da objetividade e dos dados. Brotam da sensibilidade do jornalista, que ele mesmo descreve como “mais próxima da literatura e da música do que das crueldades da política”. O viés de cronista literário de Tarifeño fica evidente em muitas das descrições que faz do muro que oprime Tijuana: 

Pareceu-me, dessa vez, ideologia em estado puro, materializada. E o retrato metafórico de toda ideologia: em última instância, uma prisão do pensamento, a matrix que constrói uma visão em preto e branco da realidade para evitar o incômodo de ver o mesmo com todas as suas cores.

Não volte é uma mistura de ternura e crueldade, de histórias de violência e episódios de amor e fraternidade. Em suas páginas, lemos casos de “crianças marcadas”, meninos abandonados nos EUA pelos coiotes, “com dados de seus familiares residentes nos Estados Unidos anotados na camiseta ou em um pedaço de papelão pendurado no pescoço, como um colar”. Mas também sobre o casamento entre o estadunidense Brian Houston e a mexicana Evelia Reyes, no Parque da Amizade, um pedacinho do muro da fronteira que às vezes é aberto para que pessoas de ambos os lados se falem. 

“Me dei conta que estou falando dos temas que nos transformam a todos em seres humanos, da dignidade humana, do que dá sentido à vida, o fato de sonhar, de ter ilusões, de fracassar. O que a gente faz com um fracasso?”, pergunta-se. No livro, o fracasso adquire uma dimensão central. “Muitos deportados preferem que, em seu lugar de origem, pensem que estão mortos a serem vistos como fracassados que perderam suas casas, suas famílias.”

Estrangeiro, sempre

O leitmotiv do primeiro livro de crônicas de Tarifeño, Extranjero siempre (2013), sentir-se estrangeiro em toda parte, vira um dos grandes trunfos narrativos de Não volte. O autor, nascido em Mar del Plata, Argentina, confessa no livro sua falta de identificação com seu país de origem: “Tenho dificuldade de me identificar com os gostos, modos e ilusões do lugar onde nasci; [] era isso que eu buscava quando, em 1992, parti sem nenhuma intenção de voltar”. Talvez por isso tenha escrito:

No espelho dos deportados habitava a minha própria imagem de migrante — na Espanha, na Hungria, no México e no Brasil —, uma condição que eu precisaria explorar a fundo se realmente quisesse captar as ambivalências daqueles que se deixam cair no abismo da perda, mais dispostos a desaparecer e a esquecer-se de si mesmos do que seguir adiante, resistir ou reinventar-se.

Tarifeño se emociona quando lembra dos seus anos cariocas (morou no Rio de Janeiro entre 2006 e 2007). Era repórter freelancer, mas tinha que complementar sua renda fazendo discotecagem em bares e inferninhos da Lapa. O argentino de coração mexicano — um país que o “comove como nenhuma outra coisa neste mundo” — lembra daqueles tempos, da vitória do Lula na eleição de 2006, como os “últimos momentos de uma esperança possível de igualdade, de solidariedade, de fraternidade”. Depois, confessa, tudo esvaeceu, “com processos globais de gentrificação e direitização”. “Nunca imaginei que ia ter alguém como Milei na Argentina ou como Bolsonaro no Brasil”, diz. 

O autor, que nunca imaginou que o livro seria publicado em português, considera que Não volte pode ser bem interpretado no Brasil atual. Não só porque o ICE também está deportando brasileiros dos Estados Unidos, mas por pensar que o Brasil tem uma tradição narrativa cheia de anti-heróis. Na nossa conversa, falamos dos personagens de Jorge Amado, do funk carioca (que ele adora) e de MV Bill (que ele entrevistou na Cidade de Deus). “É uma questão de sensibilidade, sobretudo, do lado humano. No fundo, é uma sensibilidade latino-americana. Não é que os latino-americanos sejamos perdedores, mas estamos sempre mais atentos ou mais sensíveis a esse tipo de histórias.” 

Quem escreveu esse texto

Bernardo Gutiérrez

Jornalista, escritor, curador e pesquisador, coordenou o livro Regiones imaginarias (Ediciones Menguantes).

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