Fichamento,

Ana Paula Pacheco

Escritora e professora de literatura lança romance realista-delirante sobre o confinamento e o caos social e político durante a pandemia

30jan2023 - 11h10 | Edição #66

Três casamentos — dois com animais — e um Batman dos Bálcãs soltam os demônios de uma acadêmica em Pandora (Fósforo), de Ana Paula Pacheco.

Quando você abriu a caixa de Pandora?
Comecei a pensar no livro no início da pandemia, sob o impacto daquela notícia que parecia surreal. Um detalhe curioso é que, um pouco antes, eu tinha terminado um casamento longuíssimo e, quando fui para a pista, a pista fechou. Então comecei a imaginar eu me casando com os bichos da pandemia.

Como é o casamento com esses bichos?
Tem relações de poder se revezando, ambivalência. O livro começa com o pangolim [segundo casamento], que foi o primeiro vetor da transmissão da Covid-19. Mas ele só transmitiu a doença porque estava à venda no mercado, como comida. Os bichos são vilões e também são vítimas. O sexo com eles é um tanto repugnante e, ao mesmo tempo, é um tanto atraente a maneira como a narradora fala disso. Ela conta como era [o terceiro casamento] com o morcego, um novo paradigma na cama, mas o tempo todo uma transa com a morte.

E como surge o “Batman dos Bálcãs”?
O Batman dá uma virada na narrativa. Quando o morcego não quer mais morder a narradora e só faz joguinhos, prometendo mordidas que nunca vêm, ela fica louca da vida e faz uma analogia do morcego com os vampiros. O Batman dos Bálcãs tem fundo verídico: há de fato um político búlgaro com esse apelido. Ele foi premiê da Bulgária, protagonizou um escândalo financeiro e depois foi reeleito. Foi a oportunidade de sair do mergulho subjetivo da narradora e abrir para um horizonte mais amplo, que tem a ver com o neofascismo, com viver a pandemia em um cenário de horror político e com como nossas experiências mais íntimas também estão relacionadas com a organização política.

O que é mais surreal: casar com um morcego ou discursos como os de ódio ou dos negacionistas?
Esse é o coração do livro. As pessoas me perguntam se é um livro fantástico, mas é o contrário: um livro realista que mostra essa estranheza como parte de nosso cotidiano. Penso em um realismo kafkiano, uma espécie de Kafka destroçado. Não por acaso chamei a narradora de Ana, meu nome, e fiz dela professora de literatura, minha profissão. Foi uma maneira de ancorar o texto, dizer: “Olha, esse absurdo é real, eu estou aqui”. Ao mesmo tempo, não é autoficção — claro que nunca me casei com um pangolim ou um morcego. Quis sair um pouco dessa dicotomia verdade-mentira.

A narradora é uma professora universitária pirando para entregar o programa do curso da pós-graduação. O que é mais castrador, a pandemia ou a academia?
Para a narradora é a academia. Porque ela vivia em uma realidade muito restrita à classe média, à universidade, e na pandemia ela conhece Alice, a líder de uma ocupação, e se apaixona por ela. As duas começam a montar um negócio de sexo on-line para ajudar as prostitutas que estão sem trabalho. No começo, Ana, a narradora, estranha usar seu conhecimento de literatura para isso, mas passa a se divertir mais nas reuniões para fazer o site de sexo do que nas reuniões de departamento na universidade.

O casamento com Alice é menos ambivalente do que os relacionamentos com os animais?
Com Alice é algo mais amoroso, mas há a ferida da diferença de classes. Ana se abre para o convívio com o que até então era desconhecido e vive uma realidade mais concreta com Alice [primeiro casamento]. Surge a ambivalência das condições materiais: as duas pegam Covid, a professora vai para o hospital particular, a moça da ocupação, para o hospital público e… não vou contar a história aqui, mas dá para imaginar.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.