Desigualdades, Literatura infantojuvenil,
Futuros inegociáveis
Livro-manifesto derivado dos sonhos e reivindicações de crianças e jovens das favelas da Maré espelha os desejos para todo o país
22ago2025 • Atualizado em: 08set2025Como falar com crianças e adolescentes sobre a morte é tema recorrente na literatura infantojuvenil. No mundo pós-pandemia, de guerras em curso e ecossistema em colapso, surge uma dúvida, mais específica: como falar sobre crianças que morrem?
As próprias crianças formularam respostas em Eu devia estar na escola (Caixote, 2024). Organizado por Ananda Luz e Isabel Malzoni em parceria com a ong Redes da Maré, o livro reúne relatos e ilustrações de crianças moradoras das favelas da Maré, no Rio de Janeiro, documentando suas experiências cotidianas em territórios marcados por operações policiais e violência estrutural.
O livro-manifesto poético Para crescer e ser feliz…, é uma espécie de sequência do primeiro, em que as respostas estão em tudo aquilo que assegura formas de existir (e não somente sobreviver), como Luz e Malzoni comentam nesta entrevista para a Quatro Cinco Um.
Como nasceu o Para crescer e ser feliz…?
Isabel Malzoni: Junto ao Eu devia estar na escola, depois de ver, em 2019, a iniciativa das cartas que traziam relatos e desenhos das crianças moradoras das favelas da Maré. Tentamos fazer o livro de diversas formas, até que em 2023 a Ananda entrou no projeto e entendemos que era preciso ir até a Maré, retomar não só com as crianças das cartas, mas com outras.
A partir da parceria com a ONG Redes da Maré, participamos de um congresso de segurança pública e nos aproximamos de grupos de crianças e adolescentes que produziam projetos para apresentar. Contribuímos redigindo um manifesto coletivo e poético com eles e entendemos que não podíamos falar só sobre violência.
Acrescentamos a pergunta: “Para crescer e ser feliz temos direito a quê?”. Nossa premissa era entender o que é necessário para crescer e é direitos de todos. Nesse levantamento, mostramos como entender o que era mais importante, transformamos em um texto coletivo e apresentamos para os representantes desses grupos. Foi tão emocionante que entendemos que tínhamos mais um livro na mão.
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Como foi o processo de organizar direitos que acessam particularidades, mas não excluem o macro?Ananda Luz: Muitas vozes trouxeram o direito ao olhar com significados diferentes: a menina que queria olhar pela janela de casa, mas era impedida por conta do tráfico de drogas perto; o jovem que comentou de ter de andar com a cabeça baixa, porque não se pode olhar no olho de um policial…
Essas coisas também são direitos: olhar pela própria janela, olhar alguém no olho. Talvez não seja algo só da Maré, mas sim de todo o Brasil e dos territórios que vivem situações de violência. Uma criança que não é da periferia pode não entender logo de cara, mas muitas outras entendem.
É universal entender que todos têm direito à saúde, o particular é que é preciso ter esse acesso mesmo aos finais de semana. O direito a uma polícia que não mata, a uma educação e uma saúde que não se baseiem em necropolítica — que não atinge somente os corpos pobres, periféricos e negros. No Brasil, todos sabem o que isso significa. O livro traz essas reflexões: onde esses direitos me atingem? Será que meus privilégios não enxergam que é direito de todos ser assegurado de algo tão simples como ter uma rua limpa?
Por que convidar vários ilustradores?
IM: A ideia foi representar muita gente. Começamos a pensar que artista faria isso. [Risos]. E como é um texto e um livro tão coletivo, achamos que não cabia uma visão única. Ao ver crianças reivindicando direitos, você tem a sensação de que o mundo adulto falhou em protegê-las. Então convocamos adultos para protegê-las e/ou se manifestarem sobre elas. Há ilustradores de várias regiões do Brasil, artistas indígenas, negros, não brancos, das gerações mais novas às em atividade há mais tempo — do Caio Zero e Paty Wolff à Graça Lima e o Odilon Moraes.
AL: Também foi importante ter um ilustrador do território, o Renato Cafuzo, que é da Maré e trabalha com o debate de segurança pública. Além disso, um livro de cuidado com a poética precisa pensar o debate das relações étnico-raciais, cuidando dos corpos negros que vão habitá-lo. Distribuímos com cuidado. Todos nesse livro vivem nesse mundo e o que o livro aborda também os atravessa.
Como veem os livros em conjunto?
IM: Eles funcionam separadamente, mas creio que essa continuação fala do cuidado com a desesperança. É um momento difícil para ser criança, se pensarmos que elas passaram por uma pandemia, estão vivendo uma polarização política fortíssima, veem ameaças constantes à democracia e a emergência climática. Falar sobre isso é função da literatura infantil, mas sem gerar uma desesperança paralisante. É preciso fazer algo com a frase “o mundo está ruim”.
A capacidade de articulação, reflexão e reivindicação dessas crianças é algo a ser espalhado pelo mundo. Não foi à toa que dedicamos este livro ao Marcos Vinicius. Eu devia estar na escola surgiu dele, ainda que muitas crianças também tenham perdido a vida da mesma forma. Mas não parecia justo encerrar esse ciclo, que começou com uma inquietação, sem dedicar à memória dele um livro tão solar, com várias pessoas falando sobre felicidade.
Qual é o futuro desse ciclo?
AL: Nada fácil, assim como todo o restante. [Risos]. Meu sonho é que esse livro provoque a sociedade civil e chegue na mão de todos os gestores público. Não só como pesquisadora, mas como defensora dos direitos das crianças, ouvi-las em situação de vulnerabilidade é respirar todo dia e entender que, embora me sensibilize e me faça querer chorar, isso não me atinge como as atinge. Estar em contato com essas múltiplas infâncias é “estar nas brechas”: procurar entender quem as escuta efetivamente e se dar conta de quais crianças têm suas falas validadas para sair da subalternidade. Há que se pensar quem são as crianças que têm direito a um futuro, quais são aquelas que podem sonhar com isso.
Uma criança pensar na segurança da própria mãe, enquanto está na escola, é uma inversão. Isso deixa marcas no corpo dessa criança, que vai se perguntar o quanto poderá se ver no futuro se o seu presente não é garantido.
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