Ciências Sociais,

Sublimar a cólera

O filósofo martinicano Malcom Ferdinand fala sobre caminhos possíveis nas lutas ambientalista e anticolonialista

16mar2023 - 18h42 | Edição #68

Como aliar os pensamentos ecológico, antirracista e anticolonialista? É o que Malcom Ferdinand tenta responder em Uma ecologia decolonial (Ubu, 2022). Com formação em engenharia ambiental, filosofia política e ciência política, o autor martinicano procura unir essas duas esferas que tradicionalmente se mantêm separadas no pensamento europeu. O livro dialoga diretamente com a realidade de várias regiões colonizadas e com heranças escravistas, como o Brasil.

Ferdinand esteve no país em março último para uma maratona de debates e encontros em livrarias, museus e universidades em diversas cidades. Em meio a uma agenda cheia, ele conversou com a Quatro Cinco Um em São Paulo, em francês e em português, sobre a colonialidade do saber, a descoberta de autores caribenhos no Brasil e o poder criativo da cólera

Como você se interessou pelo tema de Uma ecologia decolonial?
Eu me interesso por temas ecológicos desde a Martinica. Também me interessei pela herança colonial e escravocrata da modernidade a partir das minhas experiências na Martinica e na França. Achei uma discrepância entre o que aprendi nas universidades francesas em relação à constituição das associações ecologistas como tema de pesquisa e o que eu conhecia da história da Martinica e da escravidão, como se fossem dois mundos completamente diferentes. Por isso, faço um trabalho que causa o encontro entre esses dois mundos.

Qual a importância do pensamento caribenho para o mundo? No Brasil, só agora estamos discutindo, lendo e publicando autores do Caribe, como Édouard Glissant e Maryse Condé.
Penso que o desconhecimento desse modo de pensar é o resultado da colonialidade do saber, que tem a função de separar as experiências coloniais escravocratas. A mesma coisa se diz sobre uma caricatura da Martinica, ou vários estudos sobre os quilombos, ou até Lélia Gonzalez quando visitou a ilha em 1991 [e escreveu “Uma viagem à Martinica”, publicado em Por um feminismo afro-latino-americano]. É muito bom que traduções sejam feitas e espero que elas continuem a ultrapassar as fronteiras nacionais.

Por que existe essa separação entre as lutas ambientalistas e as lutas anticolonialistas e antirracistas?
O pensamento que faz essa separação é construído a partir de um determinado tipo de ambientalismo. Os autores decoloniais, anticoloniais e pós-coloniais não falam da responsabilidade sobre essa separação do mesmo modo que os autores do pensamento ecologista europeu. A consequência dessa separação é a impressão de que as questões ecológicas são questões brancas. Por isso vemos pessoas que dizem: “Não, isso não é para mim, é para os outros”. Acho que temos que nos apropriar também desse tema para nós mesmos propormos soluções.

Como podemos definir uma ecologia decolonial? E como articular as lutas ambientais e anticolonialistas?
Essa questão, ainda tão presente em pleno 2023, é também o resultado de uma construção de mundo que separa essas esferas. Portanto, a pergunta que deveria ser feita é: Por que são separadas? Precisamos compreender isso e nos voltar para a história, entender a construção do pensamento ambientalista — que foi instituído de maneira colonial, a composição desse mundo e dessas referências, da criação dos primeiros parques ao expulsar os povos autóctones ou enraizados nesses lugares.

‘Sabemos que há uma ecologia que contempla os indígenas, os negros, mas somos reféns do pensamento colonial’

O que nos ajuda hoje é algo como um reflexo colonial. Foi essa crítica que fiz, mas não fui o primeiro a fazê-la. Ela já foi feita há muito tempo. Desde a ECO-92 [Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, ocorrida no Rio de Janeiro em 1992], com Davi Kopenawa e Ailton Krenak. Por isso, hoje, sabemos que existe outro tipo de ecologia que contempla os povos indígenas, as populações negras etc., mas somos reféns do pensamento colonial, que perdura.

Uma definição interessante de ecologia decolonial seria aquela que defende as condições da existência da vida sobre a Terra, que traz demandas de liberdade e igualdade, dos povos autóctones, das mulheres, de pessoas colonizadas e racializadas de maneira inseparável. Falando assim, parece simples, mas não é nada simples porque depende de políticas públicas e repensar maneiras de habitar a Terra que criam essas formas de exclusão.

Dois dos pontos mais interessantes do seu livro são a crítica sobre a universalidade do Antropoceno e o desenvolvimento da ideia de que o ambientalismo é o novo “fardo do homem branco”. Como chegou a essas formulações?
Foi um caminho. Um livro tem teorias, mas é também resultado de um caminho com experiências de vida, da minha vida, em conferências com outros colegas, em associações. São discursos que estão no texto, nas cores, nas conferências, na televisão, nos documentários, nas organizações não governamentais, na minha experiência de vida em Paris, nas interações com meus colegas.

No livro há pouca menção sobre o papel do capitalismo na formação colonial e do pensamento ambientalista. Foi uma escolha consciente?
Já existem muitos livros que falam sobre o capitalismo. Menciono as origens escravistas do capitalismo, mas também procuro mostrar que é possível criar outra linguagem para articular as lutas de emancipação. Há uma tendência marxista heterodoxa que vai dizer que a linguagem da emancipação é uma linguagem marxista, que vem a partir do capitalismo. Mas acho que, ao produzir a crítica capitalista, temos que falar do capitalismo racial. Fala-se um pouco do Capitaloceno, mas há uma tendência de invisibilizar as lutas anticoloniais e antirracistas. Não posso fazer tudo em um único livro.

Há uma passagem bonita em que você conta como os camponeses do Haiti seguram a terra nas costas, do mesmo modo que o deus grego Atlas carrega o mundo. Isso me lembrou de A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Você conhecia esse livro?
Ainda não li. Uma coisa maravilhosa de vir ao Brasil é poder conhecer vários autores, como Davi Kopenawa e Ailton Krenak. É por isso que o título é “uma” e não “a” ecologia decolonial”. Porque existem muitas ecologias decoloniais.

O Brasil é mencionado algumas vezes no livro. Como você situa o país no contexto da ecologia decolonial? Temos aqui figuras, como por exemplo Chico Mendes, que articulam o encontro entre as lutas ambientalistas, sociais e anticolonialistas.
Escrevi esse livro com muita humildade. Não vou me portar como se conhecesse o Brasil todo. Acho que existem ativistas e escritores que já escreveram, e escreverão, sua própria ecologia decolonial. Acredito que no exterior, quando as pessoas pensam no Brasil como um país com muitas lutas ecologistas, pensam sobre a Amazônia, os povos originários, o cacique Raoni, Chico Mendes. Mas não sei se pensam sobre as populações negras, os quilombolas… O que me interessa é o saber, são as práticas dos quilombos do Brasil, porque se trata de uma concepção da modernidade que tem dois termos: os colonizadores e os colonizados.

Onde podemos situar os povos negros que chegaram às Américas? Não sei. Acho que é a mesma situação da Martinica. Os povos originários da Martinica foram exterminados, então agora eu sou martinicano. Martinica se chamava Madinique, que significa “ilha das flores”, mas não temos a presença dos povos originários como no Brasil. Essa participação dos povos pretos na luta ecológica no Brasil não tem o devido destaque. Com o meu livro quero mostrar essa construção. Por isso menciono Zumbi dos Palmares e Marielle Franco, entre outros.

Acha que os brancos se interessam pelos saberes ancestrais de populações não brancas quando sua própria existência está em perigo — diante do aquecimento global e da crise climática, por exemplo — como um modo de se salvar do “fim do mundo”, uma vez que procuram salvar a si mesmos, mas não essas outras populações?
Exatamente. Acho que isso é muito perigoso e torna esses povos uma coisa exótica. “Olha, esses povos convivem em harmonia com a natureza”, esse tipo de pensamento. Isso também é a definição da colonialidade do saber. “Vou pegar o seu saber, mas não vou reconhecer sua vida, sua dignidade, seus costumes, sua luta para emancipação, pela igualdade”. É só ver o que aconteceu com os povos Yanomami durante o governo Bolsonaro. As primeiras palavras do meu livro, “uma cólera”, definem essas situações de injustiça. Não é só uma colcha intelectual, um conceito. É algo que posso sentir, e eu sinto cólera. Por isso, procuro uma forma de pensar que não vai me destruir no processo. Um modo possível de sublimar a cólera, uma estratégia de sobrevivência.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.