Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

The beautyful ones are now born

No pensamento africano as coisas são isto e aquilo, uma personificação da simultaneidade: qualquer momento que encontremos já está no passado

01mar2021 - 00h00 | Edição #43

No pensamento ocidental muitas vezes existe a ideia de binários não subversivos; em outras palavras, as coisas são isto ou aquilo. No pensamento africano os binários são sempre subversivos: as coisas são isto e aquilo — uma personificação da simultaneidade. Revisitei essas palavras do escritor e poeta nigeriano Chris Abani, proferidas pelo próprio num evento literário em Berlim, com lotação esgotada, rostos exibindo sorrisos de orelha a orelha, mãos juntando-se sempre que ele, vestindo um Isiagu branco, dizia algo arrebatador. E não lhe poupámos aplausos.

Em Lisboa, junto à comunidade de músicos da primeira geração de africanos, observei como o conceito da simultaneidade se manifestava de forma aguda nos relacionamentos complexos que esse grupo mantinha com essa cidade anfitriã, dado que os sentimentos de pertença eram simultaneamente de um aqui e um ali afetivo e transnacional, territorializado nas memórias herdadas de seus pais, a ponto de alguns expressarem sentimentos de saudade de uma África nunca conhecida, mas que lhes era bem real.

Foram os cineastas Welket Bungué e Lolo Arziki que me trouxeram a essas palavras. O primeiro, artista interdisciplinar a circular no triângulo Lisboa-Rio de Janeiro-Berlim, volta ao festival de cinema Berlinale depois de, há exactamente um ano, ter sido visto a pisar a passadeira vermelha no número 1 da Marlene-Dietrich-Platz na condição de ator a apresentar o filme Berlin Alexanderplatz, realizado por Burhan Qurbani — uma adaptação do romance experimental de Alfred Döblin, que no ano em que foi editado, 1929, chegou a ser comparado a Ulysses. A performance de Welket como o icónico personagem Franz Biberkopf/Francis, da Guiné-Bissau, único sobrevivente de uma travessia ilegal do mar Mediterrâneo, valeu-lhe a indicação para o Urso de Prata. Eu e o coro de aplausos e assobios que explodiram depois dos créditos no ecrã (muito longe de pensarmos que aquela seria a última vez em que estaríamos numa sala de cinema) estávamos convencidos de que venceria, e caso o júri cometesse o lapso de não o premiar, tínhamos ainda assim a certeza de que testemunhávamos o nascimento de uma estrela.

Temos voz e podemos sonhar

Neste ano o realizador e actor luso-guineense apresenta o curta-metragem Mudança, que, além de si, é também protagonizado pela deputada independente Joacine Katar Moreira, uma das três mulheres negras, ao lado de Beatriz Gomes Dias e Romualda Fernandes, que fizeram história em outubro de 2019. Em mais de quarenta anos de democracia, no Parlamento português só passou meia dúzia de deputados afrodescendentes. E as três deputadas, além das simultaneidades óbvias que as unem, estão extremamente comprometidas com o combate ao racismo. Um artigo publicado pela jornalista do Público Joana Gorjão Henriques após as eleições de 2019, citando uma amiga da deputada Romualda Fernandes, afirmava: “A partir de agora, nós, mulheres negras, cada vez que olharmos para a escadaria da Assembleia da República, não nos iremos ver apenas com baldes e esfregonas para limpar: estamos lá dentro, temos voz e podemos sonhar”.

O título deste texto remete ao livro do escritor ganês Ayi Kwei Armah, que expõe a corrupção e o fracasso do regime de Nkrumah

O curta Mudança será apresentado na secção Forum Expanded da 71ª Berlinale — a decorrer on-line entre 1º e 5 de março —, reinventada perante o abrandamento da produção e das restrições impostas pela pandemia de Covid-19. Não será uma estreia mundial, já que o filme foi apresentado no ano passado no Programa Essenciais (on-line), do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, numa altura em que os espaços culturais no país fechavam, e a pandemia colocava uma incógnita na forma de produção da arte dali em diante. A premissa: duas pessoas socialmente distanciadas encontram-se num lugar qualquer, real ou virtual, e chamam-lhe palco. Uma seria “profissional da cultura”, e a outra, “trabalhadora essencial”. O que teriam para dizer uma à outra? Como se movem (no palco, na cidade)? O que haveria de essencial naquilo que fazem?

E eis então o que os criadores disseram: essencial é gerar vida, discurso, compreensão e celebrar a humanidade. Em tempos de pandemia, originando questões em torno da preservação da democracia, da integridade da saúde pública e das nossas próprias noções de individualidade, vemo-nos arrastados num processo de mudança. Nesse encontro entre um artista e uma deputada questiona-se qual a essência dos seus ofícios, fazendo ressoar um inesperado paradigma de revolução iminente.

O título deste texto é uma variação sobre o título do livro The Beautyful Ones Are Not Yet Born, “Xs belxs ainda não nasceram” (tradução livre e não binária), do escritor ganês Ayi Kwei Armah, romance que expõe a corrupção generalizada na sociedade ganesa e o fracasso económico e sociopolítico do regime de Kwame Nkrumah.

Cinema revolucionário

É sobre revoluções que incide o trabalho da segunda cineasta que me fez voltar ao tema simultaneidade. Cabo-verdiana, Lolo Arziki circula no triângulo Luxemburgo-Cidade da Praia-Lisboa. Escreveu no ano passado o filme Sakudi, documentário que pretende contar a história de jovens lgbtq+ residentes no arquipélago da morabeza. O filme foi submetido ao financiamento da Associação Cinema e Audiovisual de Cabo Verde, que recusou o apoio alegando que o filme não respeitava o artigo 2.1 do regulamento, que diz que um projeto deve promover a diversidade cultural no país. O presidente dessa instituição disse ainda, em comunicado, que falar de pessoas LGBTQ+ não tem relação com a cultura cabo-verdiana. A cineasta, autora de obras como Relatos de uma rapariga nada púdica e Homestay, acusou a acacv de discriminação institucional e lançou uma campanha de crowdfunding para produzir o filme.

Sakudi, que em criolo significa mexer, sacudir, revolucionar, pretende desmistificar o nosso imaginário da representação queer negra adotando uma linguagem contemporânea e experimental para contar essas histórias, trazendo consigo uma visão sobre as questões de género e sexualidade no contexto cultural de um país africano, e com isso “sacudir” o sistema de opressão machista e homofóbico latente nas sociedades do Sul global.

Sobre as representações da simultaneidade e o exame multidisciplinar dos avanços da ciência e da arte no início do século 20, o historiador Arthur I. Miller concluiu, numa apresentação sobre o seu livro Einstein, Picasso: Space, Time, and the Beauty That Causes Havoc (Einstein, Picasso: Espaço, tempo e a beleza que causa confusão): “Como seria de se esperar de quem definiu a vanguarda, Einstein e Picasso foram oportunistas intelectuais. Eles recorreram a campos aparentemente díspares, enquanto trabalhavam no mesmo problema — a natureza da simultaneidade. Einstein resolveu para a simultaneidade temporal com a teoria da relatividade especial, e Picasso para a simultaneidade espacial em Les Demoiselles d’Avignon, que foi o trampolim para o cubismo. Ambos concluíram que, como você olha para algo, é assim que as coisas são. Não existe uma perspectiva verdadeira”.

Voltando a Berlim e a Chris Abani: compreenda-se que, à medida que algo converge para o ser, imediatamente se estilhaça na simultaneidade, que qualquer momento que encontremos já está no passado, já está se reformando. E isso é visto como bom e saudável. Que se escancarem então as portas para a simultaneidade de Lolo Arziki e Welket Bungué. Elxs, xs bonitxs, é claro, já nasceram, mas por uma infinidade de razões elxs não conhecem ainda o seu próprio poder.   

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.