Coluna

Kalaf Epalanga

Um benguelense em Berlin

A música que mexe com a gente

Reconhecida pela Unesco como património imaterial da humanidade, a rumba congolesa sacudiu multidões na luta contra o domínio colonial europeu

01fev2022 - 02h51 | Edição #54

Meu gosto musical foi depurado nas festas de quintal da década de 1980. Foram lugar de todas as iniciações, onde nos permitimos riscar o salão com as passadas do antigamente, ao som de sembas e rumbas congolesas, tal qual os nossos deuses da dança, Mateus Pelé do Zangado e Joana Pernambuco. Já disse aqui, foi a música que me inventou primeiro. Desde o berço me é mais fácil mapear as minhas memórias através de canções. A própria história do meu país, que nasceu de um pesadelo, não pode ser apenas estudada nas páginas dos livros. As canções são as nossas bibliotecas, carregam a história oral que mais diz sobre nós, nossa forma de amar, nossa forma de chorar os que nos morreram. Vê-la ser elevada a património imaterial da humanidade da Unesco, como sucedeu com a rumba congolesa no dia 14 de dezembro de 2021, me enche de alegria.

As canções são as nossas bibliotecas, carregam a história oral que mais diz sobre nós, nossa forma de amar, nossa forma de chorar os que nos morreram

De todas as festas que frequentei em Benguela, durante aqueles anos de infância que coincidiram com o auge da guerra civil angolana, as que aconteceram em casa do meu vizinho congolês, sr. Basílio, foram as mais memoráveis. Foi lá que me foi apresentada a rumba congolesa, cujo nome tem origem numa dança antiga chamada nkumba, que significa “cintura” em kikongo. Um género musical inspirado no som cubano criado por africanos escravizados oriundos da África Central e que, durante os anos 50 do século passado, agitou as noites de Brazzaville e Kinshasa, duas cidades gémeas viradas uma para a outra em margens opostas na bacia do rio Congo. Um local fascinante que, desde os finais do século 19, se tornou um nexo comercial e cultural entre o vasto interior africano e o resto do mundo.

Revolucionária

A rumba congolesa foi também considerada pela geração dos meus pais, durante os anos de luta pela Independência, como sendo uma música revolucionária. E tanto os discursos de líderes políticos como Patrice Lumumba, Kwame Nkrumah e Julius Nyerere como as canções (das quais destaco “The Independence Cha Cha”, da banda Le Grand Kallé, o primeiro sucesso verdadeiramente pan-africano) galvanizaram multidões e inspiraram legiões de artistas, que não se furtaram a fazer da música uma arma de combate contra o domínio colonial europeu.

Durante a campanha, a ministra da Cultura da República Democrática do Congo, Catherine Kathungu Furaha, sublinhou a importância de reconhecermos a rumba como parte da identidade africana: quando os nossos ancestrais foram levados para as Américas, agarraram-se à sua história, origem e memória dançando a dança do umbigo. Essa manifestação cultural de celebração da fertilidade e núpcias, de origem bantu, também conhecida por caiumba ou tambu, era praticada nas zonas de Tietê, Piracicaba e Capivari — e ainda se encontra viva no Brasil através do batuque da umbigada. Já em Angola, a dança do umbigo é conhecida como massemba, o estilo de dança que, mais de uma vez, vi animar muitas das festas de noivado e alambamento que aconteciam nos nossos quintais. 

Quando os nossos ancestrais foram levados para as Américas, agarraram-se à sua história dançando a dança do umbigo

A dois autores de origem portuguesa é atribuído o reconhecimento de terem sido os primeiros a fazer referência à palavra “semba” na literatura. O primeiro, Alfredo de Sarmento, escreveu no seu livro Os sertões d’África: apontamentos de viagem (1880) o seguinte: “O batuque consiste num círculo formado pelos dançadores, indo para o meio um preto ou preta que, depois de executar vários passos, vai dar uma umbigada, a que chamam semba, na pessoa que escolhe, a qual vai para o meio do círculo, substituí-lo”.

Rumbas, jazz, sembas, cumbias, merengues e sambas são géneros criados a partir das experiências dos povos escravizados

Alfredo Troni, escritor e jornalista republicano desterrado para Angola em 1873 depois do seu envolvimento com o movimento estudantil de Coimbra, acabou por se tornar um dos grandes impulsionadores da literatura e do jornalismo no seu país de acolhimento, fundando publicações como o Jornal de Loanda (1878) e o bilíngue Mukuarimi (1888), que significa “o linguarudo” em kimbundu, língua que aprendeu logo nos primeiros anos em Luanda e que lhe permitiu ter acesso à realidade cultural luandense. Essa vivência inspirou o seu livro Nga Mutúri (1882), que se traduz como “mulher viúva”, uma novela editada primeiro em formato folhetim, no jornal português Diário da Manhã, e que introduz o semba da seguinte forma: “Foi um batuque falado… À meia-noite bateram à porta e entrou o Serra, que tinha chegado naquele momento de Casengo, no Cunga. Nga Mutúri ficou muito contente e correspondeu-lhe a duas sembas que ele lhe deu”.

Liceu Vieira Dias, um dos precursores do semba, disse que foi ao ouvir o samba brasileiro que ousou migrar para a guitarra, a cadência rítmica da massemba. Já Chico Buarque partilhou com a jornalista Dulce Tupy que ficara surpreendido ao descobrir que o parentesco entre a música angolana e a música do Caribe é mais vincado do que com a música produzida por afro-brasileiros. Ele julgava que a música do país da Welwitschia mirabilis fosse uma espécie de samba, e não um merengue. Mas ouvindo Sam Mangwana, o músico angolano que esteve na linha da frente, acompanhando, contribuindo e continuando o legado da rumba congolesa, deixado por Tabu Ley Rochereau e Dr. Nico ou François Luambo Makiadi e a sua Orchestre Kinois de Jazz (ou o.k. Jazz). Não podemos deixar de notar que rumbas, jazz, sembas, cumbias, merengues e sambas são géneros que dialogam entre si. São músicas do Atlântico, géneros ligados umbilicalmente à África e criados a partir das somas, ausências, traumas e alegrias que as experiências dos povos escravizados fixaram na história da humanidade. 

Viva a rumba congolesa e todos os seus embaixadores, como Papa Wemba, M’bilia Bel, Koffi Olomidé, Tshala Muana, Ferre Gola e Fally Ipupa. Embora não falemos lingala, a música que produzem já o era, mas agora com essa distinção da Unesco é, oficialmente, um tesouro nosso também. Queria estar em Kinshasa ou em Benguela, mas diante dessa impossibilidade, convido-vos a mergulhar na playlist que vos deixo aqui. Vamos viajar até ao rio Congo, pois estou certo, tal como o autor de “Construção” (após visitar Angola com uma caravana de 64 músicos brasileiros do Projeto Kalunga) revelou em 1980, para a revista Movimento, o quão aquela viagem a Angola iria marcar a sua produção: “Uma coisa dessas mexe com a cabeça da gente, aliás, em todos os sentidos, não só musical”. Sim, kota Chico, como mexe.

Nota do editor
Acesse, uma playlist de rumba congolesa no Spotify, com seleção de Kalaf Epalanga:

Quem escreveu esse texto

Kalaf Epalanga

Escreveu Também os brancos sabem dançar (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.