Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

A minha grande biblioteca são os meus antepassados

Organizados em categorias nem sempre óbvias, estão nela os gestos, os esgares, os sorrisos, os bigodes, as unhas, os silêncios, as pestanas

18maio2022 - 17h31 | Edição #58

A minha grande biblioteca são os meus antepassados. Passeio por eles, estante a estante. Soltam um cheiro antigo, empoeirado, estátuas perfiladas. Um grande pé de pedra, um busto enorme, um antebraço colossal, relíquias da Samotrácia onde nasci. Estão aí os seus risos e remoques, os jeitos que davam aos dedos ao abrir uma garrafa, a entoação quando pronunciavam o meu nome, ou atendiam o telefone. A ruga na testa e o perfume após o dia inteiro. O cieiro no lábio de cima e a cicatriz no joelho. A gangrena no calcanhar e as borbulhas no queixo. Em cima da cómoda, repousa a fotografia de um antepassado, tio Custódio. Uma tia velha pediu-nos que digitalizássemos a imagem para a poder oferecer sem abrir mão dela. Somos cá em casa desses que digitalizamos mortos para oferendar aos outros. Estamos munidos de todo o género de maquinaria sofisticada para o efeito. São tardes de domingo, noites de sábado, passamo-las no escuro a ampliar os seus narizes e a ver à lupa a sua brilhantina, tios de que não nos lembramos.

Vamos bebendo café, é um silêncio, uma casa sem filhos. E quanto mais a noite progride mais o silêncio é enorme, grande, negro, mais claro, mais o não termos descendência, essa calmaria doce, nos distrai de que um dia seremos o tio Custódio das noites de alguém, tenhamos nós a sorte que o tio Custódio teve. Ouço da boca de uma actriz negra a expressão “a grande biblioteca colonial”. Todo o seu olhar se abre para mim com repugnância. O seu rosto fecha-se em fúria que é vencimento e zanga e revolta. Refere-se a toda a literatura da Grécia Antiga aos nossos dias, aos livros que me fizeram e nos quais me fiz. Será que os meus antepassados, a biblioteca que compõem, fazem parte dessa colecção infame, de que a actriz me aconselha que me expurgue, que a recuse?

Estantes de dedos

De novo, me encontro entre estantes de dedos, mãos, braços, pescoços, uma a uma toda e cada uma das histórias, antes dos supermercados infinitos dos meus sonhos, havia eu e o Papagaio Jacó, no supermercado Modelo ao lado de casa, em amenas conversas em que eu levava sempre a melhor, era o meu pai jovem e adormecia-me na cama com essas fábulas. Será o Papagaio Jacó, horrendo boneco do vodu colonial? 

Organizados em categorias nem sempre óbvias, estão nela os gestos, os esgares, os sorrisos, os bigodes, as unhas, os silêncios, as pestanas. E também os efeitos e os feitios, os lugares e as histórias. O que foi contado e o que não se disse, o dito, o escondido, o revelado, procuro os índices, as entradas, procuro as fontes. De um fio de cabelo ergo uma cidade. De um botão perdido uma figura. Da memória de uma voz um pátio. De um corrimão faço uma varanda. De um anel uma ponte. E aí levo uma figura a passear nessa cidade até encontrar um pátio do qual sobe à varanda e avista a ponte. Um curto trajecto feito de ínfimas partes lidas nas folhas dos meus antepassados, fina folha do que deles me ficou, de que faço outra, e outra, e mais uma.

À medida que o tempo passa, mais a biblioteca diminui, os tomos são menos, e as letras de cada volume menos legíveis. Vou por eles, leitora perdida na biblioteca, esmagada pelos seus segredos, pelo seu tempo, pelo seu silêncio. Quanto mais tempo passa, mais a biblioteca engana e tudo o que ela diz é, a cada momento, o deserto. Quanto menos sabemos dos lugares de onde viemos menos lhes escapamos. E a vida a tarde em que nos perdemos na floresta e, tentando encontrar a saída, andamos aos círculos, regressando sempre ao mesmo ponto. Não a avó, mas uma nota de perfume. Não uma prima distante, mas o arco do lábio. Não uma casa, mas uma sombra. Não os sonhos, os anseios, a desesperança ou a vontade. Mas a dança de fumo das nossas sombras na parede da sala jantando enquanto jantávamos.

A única biblioteca que arderá comigo, que morrerá quando eu morrer, os meus e as suas últimas palavras. Biblioteca que não aprendi a ler, e em cujos corredores ninguém me introduziu, os meus antepassados. Roda da glória colonial-retornado-nativo-tropicalo-posta-restante. E, por instantes, entre livros velhos, fixando os olhos de amêndoa de tio Custódio à procura dos nossos olhos, estou de novo entre eles e é uma algazarra. Somos de novo pequenos e a vida, ainda, tudo.

Nota
Tema Livre é a coluna quinzenal de Djaimilia Pereira de Almeida, acompanhada com imagens de Humberto Brito 

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.