Coluna

Juliana Borges

Perspectiva amefricana

Reencontro com Ruth Guimarães

Escritora paulista, mulher negra ‘e caipira’, foi invisibilizada pela academia e pelo mundo literário

01dez2023 - 00h00 | Edição #76

Um dos meus passatempos preferidos, quando estudante de letras, era passar na biblioteca da faculdade, escolher um corredor aleatório e percorrê-lo olhando os livros como se estivesse desbravando um território. Se algum título chamava a atenção, folheava as páginas, lia a orelha, às vezes a introdução. Por vezes, quando o assunto me atraía, mas não tinha tanta certeza, puxava um dos banquinhos disponíveis e avançava para o primeiro capítulo. Se essa etapa me prendesse, separava o livro para levar comigo.

Em mais uma dessas visitas desbravadoras aleatórias, fiquei frente a frente com o Dicionário da mitologia grega, de Ruth Guimarães. Na folheada, a página de encontro trazia um verbete sobre o deus Dionísio. Esse valia puxar o banquinho, pensei. Ali, descobri que o deus que conhecia como grego tinha lá seu pé na Ásia e na África e uma história curiosa sobre ter passado o final de sua gestação nas coxas do pai. Você pode estar achando isso bizarro, caso não conheça o mito de Dionísio, ou Baco, mas sua divindade advém do todo poderoso Zeus. Logo, passar os últimos meses de gestação nas coxas do pai não é nada absurdo, mas esperado numa mitologia na qual Afrodite, uma das deusas mais importantes e populares, nasceu da espuma formada pelos órgãos genitais de Urano, que seu filho, o titã Cronos, cortou fora e atirou longe.

Se eu já pendia às letras clássicas, aquela leitura foi um impulso precioso. Mesmo tendo realizado um estudo e tradução sobre o mito de Dionísio como iniciação científica, ninguém nunca tinha me falado especificamente sobre a autora, de modo que Ruth Guimarães não estava entre meus autores de referência citados. What a shame!

Tanto tempo

Meu reencontro com Guimarães se deu muitos anos depois, quando meu ativismo já havia tomado forma mais pujante. E, para meu espanto, descobri que a autora que tinha dado aquele último e decisivo impulso na minha paixão pelo mundo greco-latino antigo e clássico era uma mulher negra, assim como eu. Essa descoberta me fez querer conhecer mais daquela mulher que me contou, de modo tão apurado, os mitos mais importantes do nascedouro do mundo ocidental.

Em 2008, Guimarães foi eleita para a Academia Paulista de Letras e atuou como secretária de Cultura da cidade de Cachoeira Paulista, ponto forte de sua trajetória. Esse é um ponto de virada do meu reencontro com a escritora, ainda que não definitivo. Pelas palavras do mestre Antonio Candido, fui apresentada ao seu livro de estreia Água funda. A narrativa me levava a Mário de Andrade e seu Macunaíma e, por vezes, até a Jorge Amado. As mesmas perguntas martelavam e interrompiam a leitura: “Por que tanto tempo?”, “por que não a conheci antes?”.

A ‘bruxa’ do Vale do Paraíba lançou 51 livros entre romances, crônicas, traduções, contos e ensaios

Seu romance de estreia teve um impacto profundo. Primeira tiragem de três mil exemplares, livro mais vendido de 1946, o mesmo ano em que Guimarães Rosa lançou Sagarana — os dois realizaram, inclusive, sessões conjuntas, Rosa e Guimarães, a Ruth. Com a ótima recepção da crítica à época, o “por quê” ressoava ainda mais.

Imensa conexão

A “bruxa” do Vale do Paraíba era descrita, por críticos e amigos escritores, como mulher da observação, do estudo e da leitura que lançou 51 livros, entre romances, crônicas, traduções, contos e ensaios. As principais características de suas obras são o folclore, a crítica social, o enaltecimento da oralidade, da cultura negra e indígena e o realismo fantástico. E por que não falamos dela?

O jornalista e ensaísta Tom Farias, responsável por uma das homenagens a Ruth Guimarães em seu centenário, em 2020, foi cirúrgico: a autora “foi invisibilizada pela academia e pelo mundo literário”.

Nesse meu segundo reencontro com Guimarães, que considero no tempo do agora, muitos outros aspectos de sua vida me atravessaram. A escritora é descrita como pessoa dedicada ao ofício o tempo todo, em processo de produção textual ininterrupta, que não sabia andar de bicicleta nem dirigir e morou na região do Jabaquara, onde moro hoje em dia. Além disso, Guimarães foi responsável pela criação de irmãos, arrimo e suporte de familiares. Quando afirmava ser indissociável de si o fato de ser uma mulher negra, que complementava com “e caipira”, sinto uma imensa conexão e torno a perguntar: por que tanto tempo?

Ruth Guimarães tinha no ritmo da escrita um projeto, mais do que característica literária: escreveu para diversos periódicos importantes do país, gostava de plantas e suas potencialidades de cura, teve uma relação profícua com Mário de Andrade, lecionou por mais de trinta anos e foi uma ferrenha defensora da educação como caminho para a emancipação. Se, de um lado, discordo de algumas de suas posições políticas relacionadas à problemática sobre classe e raça no país, por outro, consigo compreendê-la plenamente. Identifico algo de geracional, já que em seus textos também escuto a voz de minha avó.

Na impaciência que afirmava lhe ser característica e na alegria que defendeu como marca ancestral, Guimarães deixou, para além de sua rica e vasta produção literária, um importante ensinamento: do conhecimento como caminho emancipatório indispensável e incontornável. Assim, termino esse começo de conversa com sua obra com suas próprias palavras e voz: “Agarre o livro. É uma arma.” Façamos. 

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Matéria publicada na edição impressa #76 em novembro de 2023.