Perspectiva amefricana,
No ventre da selva
Romance de Elaine Vilar Madruga dissolve fronteiras entre mito e realidade com narrativa em que corpo, violência e memória coletiva são inseparáveis
25set2025 • Atualizado em: 26set2025 | Edição #98Para muitos, a ideia de selva remete a um espaço obscuro, impenetrável, de perigo e mistério, onde a vida e a morte se confundem. Essa parece ser a ideia que Elaine Vilar Madruga explora em O céu da selva. Nas grandes cidades, somos absorvidos pela falsa ideia de que vivemos apartados da natureza. Mas, conforme avançamos na leitura, percebemos que a natureza se sobrepõe a nós, a ponto de parecer julgar os humanos.
No romance da escritora cubana, a selva é uma personagem que figura como território ambíguo, fascinante e aterrorizante, lugar mítico que poucos ousam habitar. Ao mesmo tempo, a selva é deidade, um corpo vivo que observa, pune e protege, uma força cósmica que guarda segredos e impõe rituais, misturando o sagrado e o terreno. É um território em que se dissolvem fronteiras entre mito e realidade e em que cada gesto humano, cada respiração, cada sacrifício reverbera como se reverenciasse ou desafiasse a divindade da floresta.
A cada página, sentimos o peso úmido da selva, a espessura do ar carregado de morte e de renascimento, o sopro de mitos que ainda caminham entre nós. A selva é também matéria evocada pela personagem da avó, que afirma: “Ela, a selva e eu. Só nós três”. Um corpo vivo, portanto, uma personagem de carne vegetal que observa, participa e define. A selva em Vilar Madruga é ainda uma cosmogonia em que o humano e o não humano se confundem, em que a vida e a morte se alimentam mutuamente, em que a violência se naturaliza porque não há distinção entre as leis da terra e as leis dos homens.
O título já anuncia essa inversão, pois o céu, que supostamente estaria acima de nós, está aqui enredado na floresta, onde a transcendência não vem do alto, mas do subterrâneo, das raízes, da matéria em decomposição.
O romance se constrói em cadência fragmentária, feita de cortes e repetições, como se a própria linguagem carregasse as marcas da sobrevivência, em um percurso irregular que ora nos engole abruptamente, ora nos deixa em suspensão. Vale ressaltar a tradução de Marina Waquil, que preserva essa pulsação, evita suavidades e mantém arestas e musicalidade entre espanto e grito. O texto tem o ritmo da tradição oral latino-americana e caribenha, sem perder o lirismo denso e provocador de cada frase.
É possível notar ecos do realismo mágico, mas transbordando para algo mais rude. Trata-se menos de uma escrita que busca se inscrever em uma linhagem e mais da reconfiguração de uma herança a partir da experiência cubana e caribenha, em que corpo, violência política e memória coletiva são inseparáveis.
Sobreviventes
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A violência é o eixo que estrutura a narrativa, não uma violência espetacular, mas aquela que organiza a vida, que modela subjetividades, que contamina relações e que é reproduzida e retroalimentada. As personagens, em sua maioria mulheres, emergem como sobreviventes dessa história, atravessadas por guerras íntimas, abandonos, silêncios familiares e marcas que parecem eternas. A autora lhes concede voz não como figuras puras ou heroicas, mas como corpos contraditórios, capazes tanto de resistir quanto de ferir. E é nesse gesto que a narrativa recusa o maniqueísmo e se aproxima das zonas turvas onde a vida efetivamente acontece.
A narrativa recusa o maniqueísmo e se aproxima das zonas turvas onde a vida acontece
Outro tema enunciado logo no início é o da maternidade. Vilar Madruga não trata do destino biológico ou socialmente imposto às mulheres, mas de uma engrenagem de dor e de entrega que se confunde com rituais ancestrais de sacrifício. Cada gesto de cuidado se transforma em tentativa de barganha com forças maiores, como se proteger fosse insuficiente diante da iminência da perda. As mães do romance, em vez de figuras idealizadas, são corpos que carregam, no ventre e nos braços, o peso de expectativas alheias, a projeção de um futuro que não lhes pertence. A selva demanda seus filhos — e estes são sacrificados como oferendas.
O sacrifício das crias remete a outras mitologias, e a coincidência de nomes entre personagens facilita a ligação. Como a Ifigênia do poeta grego Eurípides, que é oferecida para aplacar a fúria da deusa Ártemis, as crianças em O céu da selva tornam-se oferendas vivas; e as mães, sacerdotisas involuntárias, presas a uma liturgia de dor e renúncia. Mas, enquanto Clitemnestra se vinga do sacrifício da filha e mata Agamemnon, Santa, a mãe da Ifigênia de Vilar Madruga, se segura em Lázaro e se afasta de suas crias por saber da iminência de seus finais.
Há ainda uma dimensão mítica que não se separa da materialidade da existência. A selva se torna o lugar em que os deuses não descem do céu, mas brotam da terra, do sangue, do rumor das histórias transmitidas entre gerações. A escrita de Vilar Madruga recusa a previsibilidade e exige mergulho total, no qual percebemos a consciência nítida de que narrar é disputar o presente e escavar camadas mais fundas para abrir espaço a outros céus possíveis. Talvez a maior conquista do romance seja devolver esse desconforto de olhar para cima sem ter certeza se veremos luz ou escuridão. Sua literatura não oferece promessas — oferece a perturbadora beleza de uma verdade que se insinua entre os galhos sobre nós.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “No ventre da selva”
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