Coluna

Juliana Borges

Perspectiva amefricana

Coluna

Winnie Bueno

Exaustas, mas atentas

É preciso reconhecer a autoria do trabalho da poeta e ativista Tricia Hersey, que nos inspirou a repensar nossa relação com o descanso

01jan2024

Juliana Borges e Winnie Bueno

Mulheres negras estão mais do que letradas em pautar o descanso como direito. Desde que nos conhecemos, presenciamos momentos em que feministas negras declaravam: enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito a ocupar o mercado de trabalho, nós já trabalhávamos há séculos. Embora frases de efeito tenham muitas camadas, com as quais nem sempre concordamos, o fato é que reinvidicamos o descanso há muito tempo. Por isso, foi com entusiasmo que mulheres negras mergulharam na proposta do The Nap Ministry (O Ministério do Descanso), fundado pela ativista, poeta, mãe e mulher negra Tricia Hersey em 2016. No ano passado, Hersey aprofundou sua formulação, lançando Rest is Resistance: A Manifesto, best-seller pelo The New York Times.


Em Rest is Resistance: A Manifesto, Tricia Hersey propõe uma mudança radical em nossos pressupostos culturais que remonta à história de expropriação e exploração da força de trabalho do corpo negro

Hersey se vale dos pressupostos do afrofuturismo, dos movimentos de emancipação da negritude e do mulherismo de Alice Walker para reivindicar nosso direito a descansar, ao lazer e à libertação das lógicas perversas de trabalho compulsório e incessante que são exigidas de nós no capitalismo contemporâneo. Num mundo onde somos expostas a todo momento a mensagens que exigem de nós alta produtividade, resultados expressivos, metas alcançadas, propõe uma coisa revolucionária: descanse!

O capitalismo tem por essência a exploração do trabalho. Quando uma mulher negra propõe que possamos exercer o direito ao descanso, que no lugar de nos preocuparmos com prazos, resultados e entregas — para fazer empregadores seguirem lucrando e explorando nossa mão-de-obra — possamos parar e ter momentos de lazer, estamos diante de um movimento revolucionário que bate de frente com um pilar capitalista. A revolução para a qual Hersey nos convida remonta à história de expropriação e exploração da força de trabalho do corpo negro, objetificado como ferramenta, desumanizado a tal ponto que fez com que nossos ancestrais não parassem nunca de trabalhar. Temos na memória uma ideia incrustada entre nós e os nossos de estar sempre trabalhando. Portanto, não se pode cooptar um processo de formulação que precisou ser organizado e experimentado e dar a ele uma roupagem “clean”, liberal, só com uma breve referência à autora.

O que Hersey propõe é uma mudança radical em nossos pressupostos culturais, que exige comprometimento, cuidado e atenção comunitária. Em tempos em que o esgotamento e a fadiga se tornaram comuns, o Nap Ministry é um movimento sociocultural poderoso que nos impulsiona a recuperar nossa humanidade.

A convocação que o Nap Ministry nos faz é para que possamos escutar nossos corpos e descansar, pois a exaustão crônica à qual estamos submetidas destrói nossas comunidades, nosso amor próprio e laços de solidariedade. Estamos falando de um movimento que exige reparação e justiça social e que entende o valor do descanso e do autocuidado como política de emancipação social. O descanso, para Hersey e para nós, é uma forma de resistência às perversidades dos sistemas de dominação.

Cuidados

Para os Panteras Negras, o autocuidado era um tema de profunda importância, impulsionado no interior do movimento, principalmente por mulheres negras. De atuação radical, o cotidiano da organização demandava cuidados com a saúde física e mental. Se nos Estados Unidos o grupo acionou e construiu clínicas de saúde gratuitas, no Brasil o movimento negro foi força importante para a universalidade do sistema de saúde e na formulação de uma Política Nacional da Saúde da População Negra.

Por tudo isso, ficamos surpresas quando vimos recentemente uma reportagem sobre um projeto no Brasil com contornos muito semelhantes à produção de Hersey. Ainda que citado seu trabalho, não havia essa menção tão explícita à referência. Saudamos a iniciativa e queremos estabelecer um diálogo baseado na sororidade, mas nos preocupamos com as fronteiras entre inspiração e apropriação.

Quando uma mulher negra propõe exercer o direito a descansar estamos diante de uma revolução

Nosso diálogo aqui é baseado nos princípios defendidos por Audre Lorde: a raiva, a tensão e o conflito como ampliadores de debates. Alguém pode dizer, e não será novidade, que somos as “feministas negras raivosas”. Infelizmente, sabemos lidar com isso. O que nos interessa, fundamentalmente, é reivindicar uma perspectiva que pode e deve ser utilizada e pautar relações e modos de ver e viver o mundo que nos beneficiem, todas. Mas para isso é preciso reconhecimento e referência; reivindicação e reverência.

As fronteiras entre inspiração e apropriação são tênues. E observamos atentas e preocupadas movimentos que acabam promovendo o desfazimento de nossas ideias, como vimos com a interseccionalidade. Acompanhamos o trabalho de Hersey há alguns anos e o Nap Ministry evidencia que esse processo de exaustão é resultado de uma lógica de desumanização e de falta de dignidade para a classe trabalhadora como um todo, a partir da precariedade das condições de vida da população negra, indígena e periférica. É um abraço à nossa condição de ser humano, tão constantemente negada por uma sociedade que nos quer, mulheres e população negra, como animais de carga.

Os ensinamentos de Tricia Hersey e a sabedoria impressa em cada ação do The Nap Ministry nos inspirou a repensar nossa relação com o descanso, nos fez entendê-lo como uma fonte de força, resiliência e autorrecuperação. Atender esse chamado é uma forma de aprimorar a nossa humanidade compartilhada. Quando uma mulher negra tem a coragem de escolher o descanso, também escolhe encorajar a sociedade a ser mais justa e compassiva para todos.

Quem escreveu esse texto

Juliana Borges

Escritora e livreira

Winnie Bueno

Pesquisadora e ativista antirracista, é autora de Imagens de controle: um conceito do pensamento de Patricia Hill Collins (Zouk, 2020).