Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Manuel Gusmão

Seus livros foram e são lanternas no meu caminho, sem os quais eu jamais teria escrito

23nov2023

Lembro-me do dia como se tivesse sido ontem e, ao mesmo tempo, como se fosse um sonho. Namorávamos há poucos meses e entrámos na Culturgest, era 2001, em Lisboa. Numa das salas, para a qual espreitámos, decorria o encontro de um clube de leitura. Aproximámo-nos e acabámos por sentar-nos. Falava-se de um livro intitulado Teatros do tempo, saído há pouco. Foi a primeira vez que ouvi falar de Manuel Gusmão. Saímos dali e, juntando os trocos que tínhamos, comprámos o livro. Interessa talvez dar conta que éramos dois miúdos suburbanos a estudar nos primeiros semestres de licenciatura em Lisboa. Alimentávamos o sonho absurdo, vendo bem, de sermos escritores, mas vivíamos encalhados na questão de nem saber por onde começar. Aparecido nos primeiros meses da nossa paixão, Manuel Gusmão foi quem primeiro a narrou.

Escrevo em Nova Iorque a olhar esse exemplar de Teatros do tempo, embrulhado em papel vegetal envelhecido (porque quando era miúda não queria que as outras pessoas no comboio soubessem o que eu ia a ler). Foi o primeiro livro que arrumei quando desembrulhei as caixas que trouxe de Portugal este ano. Está na vitrina a olhar para mim para eu não me esquecer nunca de quem sou nem de onde vim. Não é para mim um livro de poemas, mas uma história da nossa vida — e um país. A certa altura dizia-se, num poema intitulado “A velocidade da luz”, que “irreparável quer dizer que já não a podes parar”.

Lembro-me de ser estranho pensar que os poemas que eu sabia de cor tinham saído daquele senhor

Não podia sonhar, lendo Manuel Gusmão sobre a alegria, que ele escrevia sobre a nossa própria caça às borboletas daí em diante, a alegria quase ali, pousada na flor, e nós a espantá-la, a perdê-la, não sabia então que aquela definição de “irreparável” projectava a nossa tragédia, a forma de nos levantarmos dela, a marcha e a velocidade de tudo enquanto fomos ficando para trás, a perder a graça e a piada, e, depois, ao tentarmos reanimar as nossas ganas.

Lembro-me de um momento: a primeira vez que vi Manuel Gusmão passar nos corredores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (nunca o abordei, tinha lá coragem, nunca fui sua aluna) e, para a miúda que eu era, ser estranho pensar que os poemas que eu sabia de cor tinham saído daquele senhor. O poeta ia falar numa conferência para a qual não estávamos inscritos e da qual fomos enxotados por uma catedrática (ainda a costumo ver a rezar a missa do alto da melena agora branca) que nos disse “não queremos cá penetras”.

Lembro-me doutro momento: aos 26 anos, quando, pela primeira vez, tive de defender a minha honra — e, nesse momento, invoquei um verso de Manuel Gusmão junto dos meus acusadores, que talvez me tenham achado parva, “tontinha”, ingénua.

Nunca antes havia escrito sobre a morte de um escritor. Mas os livros de Manuel Gusmão não são apenas livros sem os quais eu jamais teria escrito. Foram e são lanternas no meu caminho, contadores da nossa história, profecias. Ensinaram-me a mais bela e difícil das lições: a de que a alegria é ser adulto sem nunca chegar a ser adulto.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).