Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

O labirinto de Cortázar

Romance mais conhecido do autor argentino, “O jogo da amarelinha” pode ser lido à luz de uma busca incessante pela cidade

01set2019

São muitos os que comparam a obra de Julio Cortázar a um caleidoscópio. Os pequenos fragmentos de vidro colorido formam combinações figurativas distintas quando se olha pelo tubo diante da luz, gerando arranjos instáveis, suscetíveis a mudanças ao menor movimento. O mesmo aconteceria em seus contos e, especialmente, em Rayuela (O jogo da amarelinha, na tradução), seu romance mais famoso: fragmentos de texto são combinados e recombinados por um leitor ativo, que escolhe a sequência dos capítulos da narrativa e assim monta lentamente um mosaico temporário.

Se é verdade que O jogo da amarelinha funciona tal como um brinquedo de armar, permitindo uma pluralidade de perspectivas ao levar a estrutura do romance e da linguagem ao limite, também é verdade que há alguns fios condutores menos instáveis que dão sustentação ao texto. Um deles é, certamente, a noção de busca.

Horácio Oliveira, o protagonista, é um homem que busca incessantemente. Desde a primeira frase do capítulo 1 — que não necessariamente é o primeiro, caso o leitor decida começar pelo capítulo 73, seguindo o “tabuleiro de leitura” proposto pelo próprio Cortázar —, a busca é permanente e está colocada em muitos planos. Oliveira questiona o mundo a sua volta o tempo todo, nunca está de acordo com o preestabelecido, não sente comodidade no mundo em que vive. E por isso busca. Por Maga, pelo sentido da existência, por uma maneira de burlar o sentido estabelecido das palavras. E, antes de tudo, busca um centro.

Em algumas passagens, Oliveira é interpelado pelos demais personagens acerca do sentido dessa busca. Uma delas está no capítulo 31. Gregorovius, um dos integrantes do Clube da Serpente, grupo de artistas amigos de Horácio e Maga em Paris, diz: “Desde que eu te conheço, a coisa que você mais faz é procurar, mas a sensação que se tem é de que você já traz no bolso o que procura”. Quando Gregorovius pergunta o que Oliveira poderia querer com essa busca que esconde seu ponto de partida, a resposta é direta: “Derecho de ciudad”.

Há anos nutro uma ligeira obsessão por essa resposta. Em primeiro lugar, porque o requisito de uma busca permanente é alvo fugidio e inapreensível. Ele escapa toda vez que se chega perto, mantendo o impulso da procura. E, no entanto, nessa passagem, Oliveira tem uma resposta imediata, como se tivesse certeza de seu horizonte.

Direito à cidade

Mas minha obsessão se explica antes de tudo por uma segunda razão. Essa resposta é traduzida por “direito de cidadania” tanto na edição da Civilização Brasileira, dos anos 1970, quanto na mais recente da Companhia das Letras (apenas no capítulo 3 é que se optou por “direito à cidade”). É uma leitura possível. Oliveira é um argentino em terras parisienses, é um exilado e um sujeito cindido de muitas formas. O ímpeto da busca poderia estar numa espécie de exílio, numa condição de não cidadão em um país estrangeiro. Mas derecho de ciudad talvez forneça uma chave de leitura mais ampla.

Rayuela foi publicado em 1963, em Paris. Le Droit à la ville [O direito à cidade], de Henri Lefebvre, foi escrito ao longo de 1967 e publicado um ano depois, também em Paris (no Brasil, saiu em 1969 pela Editora Documentos como O direito à cidade). Essa poderia ser apenas mais uma dentre tantas coincidências. Mas algo me diz que O jogo da amarelinha tem um ar de familiaridade com O direito à cidade, e que pensar os dois livros juntos pode abrir novos caminhos de interpretação.

A busca de Oliveira é individual e altamente destrutiva para todos a sua volta. Como diz Cortázar em Clases de literatura (2013), “Oliveira pensa principalmente em si mesmo, poucas vezes sai de si mesmo, poucas vezes se projeta do eu ao você e muito menos do você ao nós”. Em Rayuela, a rebelião e o questionamento das regras estabelecidas vêm dessa recusa em se adaptar, de um inconformismo que precisa transformar o cotidiano em espontaneidade, que converte o que há de mais mundano em sublime. E não à toa Paris é mais que um pano de fundo, é um espaço urbano constitutivo das relações das personagens.

Para Lefebvre, a vida cotidiana também é uma preocupação fundamental. É a nova miséria urbana que está em jogo, em que os ritmos da cidade têm sua cadência controlada pelos longos trajetos entre casa e trabalho, em que os espaços da cidade são planejados para ser funcionais à produção. Esta seria uma anticidade na medida em que anularia o caráter de obra de arte dos centros urbanos, impedindo o encontro, a espontaneidade e o verdadeiro desenvolvimento das necessidades humanas. Para Lefebvre, o direito à cidade seria justamente a retomada da vida urbana em toda a sua potencialidade.

Enquanto Oliveira busca sozinho por um centro que escapa, Lefebvre fala em restabelecer uma centralidade passível de ser usufruída sem intermediação de valores exteriores vinculados à produção capitalista. Enquanto a abordagem de Rayuela é individual, a constituição de um “nós” é fundamental para a perspectiva revolucionária de Lefebvre. Em ambos os casos, a crítica é muito mais direcionada à inautenticidade de uma vida e de um espaço urbano pré-fabricados e à ausência de liberdade diante dessas imposições externas. Não se trata propriamente de uma crítica social. Isso é bastante claro no livro de Cortázar. Para Lefebvre, não se trata tanto da miséria dos que não têm onde morar, não têm trabalho ou meios de transporte à disposição.

Assim, derecho de ciudad talvez possa ser lido como um direito de pertencer a uma cidade que ainda não existe, livre da inautenticidade e de coerção. E, já em 1963, essa talvez já fosse uma ideia-chave para o inconformismo e o protesto, ainda que marcada pela reivindicação feita por um personagem que não estabelece a ponte entre o “eu” e o “você”, muito menos entre o “eu” e o “nós”.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).