Deslembramentos,
he tenido maestros cubanos
como será que demonstro aos deuses do reencontro que preciso, ainda nesta existência, de abraçar ángel e maría?
23dez2025 • Atualizado em: 17dez2025 | Edição #101(…) deixa ainda recuar a cassete: não sei se consigo dizer o ano certo. da escola, fui para casa. hora do almoço. naquele tempo os pais tinham tempo de ir a casa almoçar.
tínhamos conhecido dois professores cubanos, que deram aula um após o outro. ele de matemática, ela de biologia. tudo isso já era inédito e divertido: termos professores “estrangeiros”, de país e de língua; serem casados (entre si); serem tão divertidos. e diziam querer aprender a nossa língua.
rapidamente caímos, no intervalo, na tentação de cada um ir manobrando a nova língua. “que es espanhol, hombre!”, dizia um a rir-se, os demais ainda a adaptar o sotaque e o ritmo àquele modo de falar. “que son cubanos, conho!”, o bruno baião afirmava, sério, que no fim de todas as frases devíamos pôr o termo “coño!”, assim “o nosso português angolano pode ainda lá apanhar umas influências cubanas”. o cláudio avisou que “conho” parecia a palavra “cona”, e rimos muito.
naquela varanda, o camarada professor ángel coçava o bigode, olhava os gestos e as expressões, os sons e as mímicas “de los niños”, as árvores e a poeira do nosso pátio. quando ele mirou o céu sem nuvens, a romina pôs: “ele deve estar com saudades de casa, coitado…”. mas também rimos.
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nós, os daquele tempo? coisa boa ou desgraça, era só rir mesmo. ou então estigar, que é uma maneira cruel de preparar o riso para ser mais delicioso.
*
hoje sabemos: aquela era a idade do riso e do encantamento, do desafio e da redescoberta da linguagem da fala e do corpo. rir fazia parte da nossa tentação quotidiana de nos irmos afastando dos dias mais crus da infância. caminhávamos inocentemente para o terreno do futuro e exercíamos, todos os dias, os gestos que potenciam as dolorosas despedidas.
anos mais tarde, muito perto do largo primeiro de maio, haveríamos de cometer uma importante despedida à janela dos camaradas professores ángel e maría. eu passaria anos em busca deles. em busca de uma simples oportunidade: dar-lhes um abraço. falar-lhes das crianças da escola “juventude em luta”. e sentar-me a ouvir.
só há uma coisa que eu mais quero do que apenas abraçá-los: sentar-me e ouvir a estória deles desde a partida de luanda até aos dias de hoje.
como será que demonstro aos deuses do reencontro que preciso, ainda nesta existência, de abraçar ángel e maría? a que endereço sagrado envio um telegrama nem que seja de poesia?
*
da escola, fui para casa. era hora de almoço e, naquele tempo, os pais tinham tempo de ir a casa almoçar. filhos éramos, à mesa, três: eu, mana tchi, mana yala. talvez tivesse vindo almoçar a famosa dupla (também literária) avó chica e helda, a netinha.
cada um ia se servindo e contando as coisas da escola que podia contar. nem sempre se pode falar bem as coisas aos adultos: ou não entendem ou não se ajustam à dimensão da nossa emoção. mas algo se contava: de uma aula, de um professor, de algum episódio com os colegas. e deixei a minha novidade para o fim.
já devia ter passado o noticiário das 13h. a guerra continuava em muitas províncias de angola. deram notícias, claro, do camarada nelson mandela e da luta de resistência na palestina. o pai mandou já desligar o rádio. a avó chica perguntou se não havia uma “bebida quente” e a minha mãe sorriu com uma doçura que guardava no peito dela e que só derramava perto das crianças e velhos mais-velhos. muitos podiam pensar que bebida quente seria prima ou parente do chá ou do café, mas ali todo mundo sabia o código: a avó chica queria um “quentex”, algo que seria parente do whisky, macieira, conhaque, essas coisas.
até hoje, faço questão de deixar claro que aprendi essa língua com meus professores
enquanto a mana tchi foi buscar o cálice, eu fui buscar a garrafa. só havia macieira, uma bebida que a camarada sita apreciava (a camarada sita é a minha mãe). ao pousar a garrafa na mesa, o meu pai deve ter pressentido que eu estava com alguma coisa para dizer, pois sorriu de um modo que era um convite para mim. e eu falei:
— hay que darle, conho!
os meus pais foram os que riram mais. a avó chica não gostou e me olhou mal. disse que aquilo parecia outra palavra que “não se diz”. será que além da palavra “cona” havia outra palavra pior que eu desconhecia?
a camarada sita tentou explicar:
— oh tia, ele estava a falar espanhol…
aquilo quase me ofendeu. fiz cara séria. nós não chamávamos aquilo de espanhol. desde o primeiro dia. até hoje, quando por vezes encontro alguém e falo no meu modo específico, faço questão de deixar bem claro que eu comecei a aprender essa língua com os meus queridos camaradas professores cubanos.
e isso eu fiz questão de explicar a todos, até à camarada minha mãe:
— desculpa, mas eu não falo espanhol. yo hablo cubano!
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “he tenido maestros cubanos”
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