Instalação com figura rupestre de uma mulher da Serra da Capivara. Fotografia de Jordi Burch

Deslembramentos,

o mar carregado de borboletas

e eu que pensei que era possível fazer do voo contágio, e de uma carta um reencontro, vim trazer o recado da deusa com o coração aceso

17mar2026 | Edição #104

querida pedra,

trago-te o recado de uma deusa que, embora não sendo sempre mulher, prefere no seu sentir ser um instante cheio de coisas femininas

anda escondida dos homens de agora

como uma borboleta a fugir da rede. carrega de sal o mar para o purificar do plástico e dos pesadelos. anda a deusa cansada e a precisar de chorar. e manda avisar que, em caso de voo, te espera em qualquer lugar onde ainda seja mar.

e eu que (também) voo

e que a voar vim a sonhar com a possibilidade de dizer coisas e recados que cheirassem a novo e de novo trouxessem alento e abertura

e eu que pensei que era possível fazer do voo contágio, e de uma carta um reencontro

vim trazer o recado da deusa com o coração aceso e as asas cansadas de não chegar; eis que te vejo em tão inquieta lágrima, que de ti não posso assegurar o que é corpo, o que é mar

o que és tu, o que é memória

peço que agora acordes e venhas comigo ao lugar que os deuses trazem às costas e aos olhos — quando pensam em partir.

*

antes que seja mais tarde, ou seja eu muda ou tu sejas surda ou tenhamos todos esquecido da possibilidade de voar, deixa-me dizer-te estas palavras: em tudo o que era deserto eu busquei a tua sombra

e em tudo o que era longe eu quis dizer-me que seria mais perto

eu que fui também essa andorinha nos trilhos do meu voo errante hoje dispo-me de um tempo chamado amanhã — só para te vir dizer e trazer o recado de uma deusa.

entre o rio e a fertilidade, as três margens do rio Ogum deram as mãos e fizeram uma filha mulher

o nome dela, bem sabes, é o corpo de um lugar chamado mar onde as borboletas vão para melhor morrer e do seu pólen vão sobrando a saudade, o silêncio e a semelhança com o futuro.

cara pedra, pedem que regresses ao mar como uma mãe, uma mão que se achegasse a outra; nem voo, nem morte, nem ninho, nem curvatura. onde fores mar — poderá a deusa chorar. onde fores chegada — poderá, ela, então partir.

(deixa-me perguntar-te, enfim) quem outra que não eu te diria este segredo como violino e ventania?

*

do súbito assobio, resta-me a diagonal serena do adeus, o traço mudo, breve, que a nuvem executou para mostrar um caminho que ou memorizo ou esqueço; ou me atrevo ou atravesso; ou deslizo ou me assombro

de modo que de qualquer modo

eu sou apenas o voo que eu souber ser, assim me assista a deusa na sua ausência — e o mar, no que ele se permite crescer em ruído ou orquestra.

talvez eu possa trocar as minhas pelas asas de uma borboleta ou pelos óculos antiquados de Dirceu Pena, mais conhecido por Dirceu Borboleta (conhecido também por ter uma personalidade desprovida de grande animosidade e por estar sempre inclinado para caçar e coleccionar borboletas). na vida, digamos, real, Dirceu caminha pela praça com os olhos distantes no pós-horizonte, e quando alguém pergunta

— onde vai, Dirceu?

ele responde, sem olhar:

— a caminho de mais uma desilusão

mas nem Dirceu nem a deusa que manda recados vivem perto de nós. aqui andamos em busca de um pequeno caminho do mar, uma espécie de corredor secreto

onde os homens, as borboletas, Dirceu e as crianças

pudessem enviar recados a “Ye omo ejá” (a mãe cujos filhos são peixes), a que veio dos rios, Iemanjá, a que se vestiu de todos os sais e de todas as margens, e se tornou rainha do mar,

e é ela, pedra, que te envia estas palavras como se fossem poema e mantra. entre o rio e a fertilidade, as três margens do rio Ogum deram as mãos e fizeram uma filha mulher destinada a não ser filha e ser toda ela do mundo, uma mãe; e das mães, a mãe-mulher.

o tempo tinha acabado de nascer e ainda não havia palavra para dizer mentira, nem dor, nem sal. já o mundo havia estreado a palavra lágrima, mas Ombela era apenas um ponto vermelho por nascer na corola de uma Amarílis e as crianças cantavam com doçura algo que haveria de anunciar a chuva: katchi kukuvanda/ tela atemu. katchi kukuvanda/ tela atemu.

*

uma deusa, embora não sendo para sempre mulher, preferiu ser um instante cheio de coisas femininas e escolhia estar escondida dos homens como uma borboleta carregada de sal.

olha ali tão perto o mar: para purificar os pesadelos e trazer um recado tão simples: já podes precisar de chorar

e em caso de voo, as andorinhas te esperam em qualquer lugar onde ainda seja mar. e tu que não voas, pedra, hás de um dia imitar o kiwi (ave da Nova Zelândia que possui das asas apenas vestígios quase invisíveis).

é do vestígio que brotará uma nova pedra, uma nova mulher, uma nova mãe. é no metafísico que a pedra sai a caminho do mar, o mar a caminho do ar, o ar a caminho de cair. isto seja: até Iemanjá também aprendeu a cantar: katchi kukuvanda/ tela atemu. katchi kukuvanda/ tela atemu…

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “o mar carregado de borboletas”