Deslembramentos,
as lições de Ionescu
seu livro, que me auxiliava a ler a minha própria angústia de adolescente, fazia-me companhia, e aquele personagem passou mesmo a ser o senhor
28abr2026 | Edição #105caro Ionescu,
após alguns anos e muitas hesitações, venho escrever estas linhas directamente a si.
se, após a minha morte, for possível usufruir desse delicado mundo que é uma boa conversa, eu gostaria muito de me sentar à mesa consigo e partilhar uma boa garrafa de vinho. se for do seu grado, podemos depois tomar um copo de uma bebida portuguesa que, eu creio, o senhor poderá apreciar (há um modo de aquecer o copo, em forma de balão, com um toque de suco concentrado de laranja que se evapora em danças-com-o-fogo; eu julgo que me há de agradecer depois).
nessa ambiência etílica, gostaria de lhe falar de como encontrei (foi na casa do tio Joaquim) e frequentei o seu livro o solitário — e de como esse processo me foi importante e acolhedor. queira entender que, à época, eu nada sabia sobre a sua vida e obra. na realidade, eu ficaria convencido que o senhor era uma escritor de romances.
Mais Lidas
o que eu sabia de si era o que ali tinha disponível: uma foto sua, aquele título e aquele personagem também solitário. como eu nesse então. mas o seu personagem, que eu idealizava com o seu rosto e o seu corpo, foi se tornando um amigo que eu desejava ter e respeitar, tentando não incomodar. as refeições solitárias do seu personagem e as respectivas semibebedeiras após o almoço causavam-me, sobretudo, sorriso e inveja.
quando li que ele tinha recebido uma herança, fiquei secretamente feliz e reconfortado. quase me atrevo a dizer-lhe que cometi a luxúria de desejar o mesmo para mim: antes dos quarenta anos poder ter uns dinheiros que me permitissem viajar, ler, sonhar e comer sozinho. também considerei fazer como o seu personagem: iria quase todos os dias almoçar ao mesmo local, com um bom vinho que me deixasse suavemente entorpecido.
(corrija-me se eu estiver errado, mas creio que a senhora que atendia o seu personagem no restaurante se chamava Muriel. e eis que no ano de 2003, quando António M., o espanhol mais simpático do mundo, me apresentou o restaurante El Rey de la Caridad, a dona do restaurante tinha esse mesmo nome.)
nessa altura em que eu frequentava (lendo) a vida do seu personagem, eu tinha não mais do que quinze anos. e tinha lido nalgum livro (talvez mesmo no seu) uma breve aparição do termo “tédio”.
eu era, nesse então, um adolescente estranho, para simplificar. conseguia por vezes falar (ao meu primo Amilcar) sobre uma espessa espuma de infelicidade que se tinha instalado no meu peito. com estranha abertura, dizia eu ao meu primo: “sinto que sou infeliz”; e ele ria, com arejada leveza. um dia tentou: “mas não será tédio, o que sentes…?”, e a frase fez-me sentido. passei a usar o termo “tédio” para definir o que me ocupava a mente e os dias.
se, após minha morte, for possível usufruir de uma boa conversa, gostaria de me sentar à mesa consigo
digo isto porque faz parte das coisas que lhe diria ao almoço. que o seu livro, que me auxiliava a ler a minha própria angústia de adolescente, sobretudo fazia-me companhia. e, como eu me permito confundir tudo, aquele personagem de o solitário passou mesmo a ser o senhor. perdoe o equívoco.
o resto, o senhor está farto de saber. quando fui estudar para Lisboa, e antes de ler algumas das suas peças (mais perto de 1997 ou 1998), eu encontrei num alfarrabista um outro livro seu. não lhe sei descrever o misto de alegria e celebração que senti no momento. a busca intermitente. comprei-o sem o abrir. fui a um restaurante pequeno, comi bem, bebi o ritualístico e embriagador vinho branco. tomei café e decidi faltar às aulas da universidade. era um diário seu. e foi, de novo, importante para mim.
o senhor também saberá que eu assinei uma revista americana para que, semanalmente, praticasse o meu inglês lendo artigos. morava (eu) com a minha tia Dada nesses dois anos e cinco gatos. sim, cinco. um dia, ao vivo, conto-lhe a estória e os detalhes de ter ajudado a Marrôn (a gata-mãe) na noite do seu parto.
às sextas chegava a revista americana. numa determinada sexta-feira a tia Dada não cumpriu o ritual de me entregar a cuja publicação. na terça-feira decidiu dizer a verdade: ela havia escondido a revista. continha um artigo e uma foto sua. mas falava da sua morte. eu recortei essa foto e emoldurei-a. na imagem a preto e branco, o senhor veste um sorriso quieto e apaziguador.
meses antes eu havia comentado com a tia Dada a possibilidade de descobrir a sua morada e fazer-lhe uma visita. mas sempre me venciam dois argumentos: eu não falava francês; e não saberia o que dizer se estivesse diante de si.
(…) agora já sei. o que dizer. embora ainda não tenha aprendido a falar francês, creio que se nos encontrarmos após as nossas mortes, não será propriamente a língua que se constituirá como uma barreira. se quiser, poderemos almoçar mais do que uma vez. em Lisboa, para o vinho branco e o peixe grelhado. e em Luanda, para que conheça o sabor de um bom mufete (é também peixe grelhado que se faz acompanhar de feijão de óleo de palma, que é dendém). é bom acompanhar com cerveja ou vinho tinto gelado. sim, gelado. mas deixo ao seu critério a escolha da bebida.
eu quero é sentar-me e trocar consigo algumas ideias. e ouvir a sua versão sobre aquele telefonema do encenador inglês que não achava estranho (numa peça sua) que o professor matasse quarenta alunas em apenas um dia. mas, segundo se diz, o britânico ligou para si apenas com um pedido: que um visitante não aparecesse sem o devido (e inglês) prévio aviso na casa de outra personagem.
caro Ionescu, receba um abraço antigo e amigo daquele jovem angolano que o confundiu com o personagem de um livro seu. acontece.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “as lições de Ionescu”
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Assine o plano anual e ganhe uma ecobag exclusiva!
Entre para nossa comunidade de leitores e contribua com o jornalismo independente de livros.
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.