Deslembramentos,
a mão de fazer adeus
esse gesto, que acaricia o vento como se tocasse a face de outra pessoa: mesmo pouco visível, toda despedida tem uma lágrima por perto
24fev2026 • Atualizado em: 23fev2026 | Edição #103[para o malangatana]
mãe,
quando os que me levavam para a cadeia vinham buscar-me a casa, o último gesto era um adeus para ti. há qualquer coisa de voo e de raiz no gesto de um adeus.
como se a mão fosse voar para ficar com quem parte, mas tivesse que estar presa àquele que fica parado como se fosse partir. assim é. toda a despedida é um desencontro.
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esse gesto de adeus, essa mão solta, abstracta, que acaricia o vento como se tocasse a face de outra pessoa, essa mão faz o corpo sacudir. corpos sacudidos têm lágrimas soltas nos olhos. mesmo pouco visível, toda despedida tem uma lágrima por perto.
uma criança perguntou-me se eu gostava de fazer adeus. pensei que era demasiado cedo para que ela soubesse de gestos humanos tão difíceis. disse-me, sorrindo, que para os adultos muitas coisas eram difíceis porque não sabiam ver as coisas ao contrário. confessei que não havia entendido.
a criança disse-me que para os adultos muitas coisas eram difíceis porque não sabiam vê-las ao contrário
por exemplo, disse a criança, um adeus pode ser difícil se for um adeus de despedida. mas, se for ao contrário, um adeus de quem ainda vai chegar, o que era lágrima passa a ser sorriso.
sorri. quantas vezes quis fazer um adeus de chegada.
um velho disse-me que um adeus era uma flor que se partia ao meio. uma flor, uma vida. e que depois do adeus eram duas flores, duas vidas. ousei afirmar que talvez essa flor partida em duas não pudesse sobreviver por muito tempo. o velho disse-me que eu havia visto a flor partida em duas, mas que, olhando para uma e olhando para a outra, eu não me havia esquecido de pressentir a presença de tantas sementes.
há qualquer coisa de voo e de raiz no adeus de um gesto. como se a mão, hesitante, não quisesse ser ponto cardeal, mas antes uma bússola parada.
mãe: toda despedida é um par de olhos deitados sobre o horizonte. e eu cortei a mão intencionalmente: para que nunca mais soubessem me algemar.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026.
