Coluna

Djaimilia Pereira de Almeida

Onde queremos viver

Um passeio

Sinto sua alegria porque me conseguiu arrancar de casa, abrigo que me vai enlouquecendo de tanto abrigar

31mar2020

Não foi um passeio planeado: estendeu-me a mão e fui. Está um dia de inverno com cara de começo de primavera, domingo igual aos outros, excepto que hoje fomos passear pelo bairro. Não saía de casa havia dias. Espantou-me a temperatura do ar ao sair do prédio: não estava tão frio como imaginei. A dona da Bessie viu-nos, mal cruzámos o passeio, e achou estranho não trazermos a cadela connosco. É uma senhora curiosa que, começando por ser a vizinha mais antipática e rezingona do bairro, se tornou a mais gentil. Vimos o casal do primeiro andar, que aparenta estar à beira do divórcio desde que deixou de abrir as persianas. O filho, menino dos seus nove anos, vinha à frente, com o olhar mais triste do país e seus caracóis louros, celestiais. A temperatura namorou minha cara, a aragem húmida, exalada pelo relvado diante do prédio, o sol nas folhas dos loendros, agora sem flor. Bebemos um café na esplanada vazia, tirámos duas ou três fotografias antes de ele me estender a mão para andarmos um pouco.

É o bairro onde cresci, mas ele, que nasceu longe daqui, conhece-o muito melhor que eu, tantas são suas caminhadas. Troquei duas saudações com um amigo com paralisia cerebral, perguntou o que ando a escrever. Vinha estremunhado, de camisola de lã cinzenta, coçada, barba por fazer, parecia ter acabado de acordar. Como será seu domingo?, pergunto-me. Igual a todos os outros dias. É o João, um dia disse que me queria ajudar, ser meu amigo. Sempre que falamos, na minha dificuldade de entender suas palavras, sinto que lhe falto um pouco.

Ontem deitámo-nos tarde. Li as memórias de Tranströmer. Às duas da manhã, quando me sinto perdida, sua rememoração do dia em que se perdeu da mãe em Estocolmo chegou-me como um sonho meu: “Uma vez, em meados dessa década de 30, aconteceu perder-me em Estocolmo. Tinha ido com minha mãe a um concerto da escola. Na confusão da saída do auditório, a Konserthus, minha mão desprendeu-se da minha mãe”. Contei-lhe o episódio, antes de adormecermos. Ele contou-me que também se perdera da mãe. Desejei ter-me perdido também. Pareceu-me uma imagem da liberdade: uma criança que consegue encontrar o caminho de volta, no meio dos vultos de uma Estocolmo escurecida, entre o tráfego da hora de ponta e a indiferença dos adultos.

Noutro passo, Tranströmer fala daquilo a que chama “a arte de ser pisado conservando a dignidade”: “Quando ele [Hasse, seu colega da escola primária] se aproximava, eu fazia de conta que O Meu Eu tinha voado para outro sítio e deixado ali um cadáver, um trapo sem vida que ele podia deitar ao chão à vontade. Acabou por se fartar. Penso no que esse método, de uma pessoa se transformar num trapo sem vida, terá significado para mim ao longo da minha vida. A arte de ser pisado conservando a dignidade. Não terei recorrido a esse método com demasiada frequência? Umas vezes resulta, outras não”. “Sinto-me reflectida nestas palavras”, disse-lhe. Ele tirou-me daí as ideias, pareceu-lhe uma ideia terrivelmente triste: “Não quero nem gosto que te deixes pisar”. Adormeci comovida, a pensar na sorte de ter alguém que nos diz uma coisa destas.

As palavras de Tranströmer já não estavam em mim quando saímos nesta manhã. Voaram para longe como o domingo, a ideia do domingo, assim que começámos a percorrer a alameda. Vimos as azedas pelo chão, tão frescas que apetece apanhá-las de novo, como fazia em menina, e chupar suas raízes amargas. Alguém deixara sacos de lixo cheios de plantas secas sobre um grande buraco na grama, que depois os jardineiros da Câmara Municipal recolhem. Meninos brincavam no parque, vigiados pelas avós agasalhadas. Ouvi passos atrás de nós, mas era só uma senhora de nariz aquilino e caniche castanho a caminhar nas patas esguias. Pude sentir o efeito dos passos alastrando-se pernas acima até a cintura e a borracha da sola das botas em contacto com a dos pés, marcando o ritmo da marcha. O ar no pescoço, que habitualmente trago tapado com cachecóis, o frio nas pontas do cabelo húmido. Cruzámos a esquina mais triste do bairro, em que não se percebe por que se plantaram tantas árvores, dispostas como fantasmas engaiolados.

Fotografei os prédios onde cresci, procurei pela janela da casa dos meus avós, agora de outra família, de onde atirei pedras, balões de água, copos de leite com chocolate e açúcar que me davam nojo beber. Comprámos tabaco, pusemo-nos de volta a casa pelo mesmo caminho. “Não há razão para medo, nem é preciso coragem: vai cada um metido na sua vida”, disse-me. Em todos os carros, comboios, estações, nos cafés, hospitais, aeroportos, centros comerciais, nas grandes avenidas e ruas estreitas, cada um na sua vida. “Lembro-me muito bem dessas caminhadas, sempre com vento, sempre com o nariz a pingar e os olhos a lacrimejar”, diz Tranströmer sobre sua ida ao Museu de História Natural quando rapaz. “Não me lembro do caminho de regresso. É como se eu nunca voltasse a casa, como se só houvesse a ida, aquela caminhada com ranho e lágrimas a correr, cheia de expectativa, até ao enorme edifício babilónico.”

Mas eu lembro. Ainda sinto a rua nas pernas. Tenho os dedos das mãos no presente, coisa rara: a felicidade das ruas vazias, as passadeiras sem carros, o velho que nos olhou do outro lado da estrada e continuou, a casa branca, de esquina, renovada e pintada de fresco, a rua curta que em criança me parecia mais longa e agitada, com seus cães de guarda a cada portão, mão na mão do meu pai, a caminhada à procura da lagarta do pinheiro, que regressou ao bairro há semanas com suas procissões belas mas venenosas, o banco de jardim vazio em que alguém pintou a spray duas manchas, as pinturas na parede que, morando aqui há cinco anos, nunca tinha visto: uma árvore com sapatos, uma garrafa aberta, a palavra liberdade na parede, ninguém na rua e o alívio da sensação de que, sendo apenas eu nela, eu mesma me persigo, abordo, hostilizo, agrido, nem memórias más nem medo, só as mãos dele ao longo do seu tronco, a inteireza do seu corpo ao lado do meu, carregado com as máquinas fotográficas que de tão amadas me enciúmam, a alegria nos seus olhos por sermos dois na rua, porque me conseguiu arrancar de casa, abrigo que me vai enlouquecendo de tanto abrigar.

No fim do passeio, sentados num banco, ele chamou-me a atenção para o céu muito belo: as nuvens pareciam aspiradas por uma boca invisível, também elas, como as pessoas com que cruzámos, abençoadamente indiferentes a nós dois, ao fumo do cigarro que acendi, à importância daquele momento para nós, as nuvens passando, somos uma ínfima parte de uma ínfima parte, apesar de toda a energia, dos nervos acesos, do medo, até da nossa alegria por estarmos vivos e juntos, ao frio.

Quem escreveu esse texto

Djaimilia Pereira de Almeida

Escritora angolana, publicou Esse cabelo (LeYa).