Literatura japonesa,

Quando as páginas encontram as ruas

Antropóloga e escritora compartilha suas andanças pelo Japão e como a literatura foi um portal para conhecer o país

30jan2023 - 12h49 | Edição #66

Em Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami, Kafka Tamura foge de casa aos quinze anos e realiza uma longa viagem do bairro de Nagano, em Tóquio, até a ilha Shikoku, no sul do Japão. Sua escolha é um misto de acaso e intuição. Paralelamente, Satoru Nakata, um senhor analfabeto que tinha a capacidade de conversar com gatos e fazer chover peixes — e um de meus personagens prediletos da literatura — inicia o mesmo trajeto, levado por uma força inexplicável que o conduzia à ilha. Embora jamais tenham se encontrado, seus destinos estavam entrelaçados, pois coube a Nakata encontrar a pedra que abria o portal para um mundo paralelo, aonde Kafka precisava chegar.

Fiz a minha primeira viagem ao Japão em novembro último, como turista-leitora, levando comigo um e-reader com muitos livros de autoria japonesa, cheios de notas e marcações. Tão por acaso quanto a decisão dos personagens por seus trajetos, Kafka à beira-mar foi o primeiro livro que decidi reler enquanto viajava. Tenho especial apego por ele, minha porta de entrada para a literatura japonesa, que me conduziu não só às outras obras de Murakami, mas às de diversos autores japoneses, especialmente à literatura de autoria feminina.

Abri o livro no início de uma longa viagem de trem entre Tóquio e a ilha Naoshima. Percorrendo as páginas, me surpreendi ao perceber que fazia o mesmo trajeto do menino Kafka e do senhor Nakata, que na primeira leitura fizera pouco sentido para mim. Cruzamos as mesmas paisagens e chegamos a ilhas próximas, no distrito de Kagawa. Como ambos descrevem bem os seus percursos, da janela do trem via as páginas se materializando em imagens concretas, como se estivesse atravessando um portal entre mundos, como o da trama de Kafka.

Fui tomada pela constatação de que eu e meus autores prediletos não nos comunicaríamos

O portal me levou não só à calmaria das ilhas, mas ao burburinho de Tóquio, com suas inúmeras linhas de metrô e trens, onipresentes nos livros japoneses. A impressão é que boa parte da vida se passa debaixo da terra, com lojas, delicatessens e restaurantes, por onde circula uma imensidão de gente, da qual só tive a real dimensão ao ver o famoso cruzamento de ruas em frente à estação Shibuya às seis da tarde. Nos vagões lotados na hora do rush, homens e mulheres vestidos para o trabalho, sentados ou em pé, quando não estão dormindo têm os olhos em seus celulares, onde percorrem as redes sociais ou joguinhos eletrônicos de aparência infantil.

Ilegível

Foi raro ver pessoas com livros, uma mudança radical nos hábitos desde os anos 90, quando, na narrativa de Verissimo (com Joaquim da Fonseca) de suas viagens àquele país (Traçando o Japão, 1995) todos portavam livros nos trens e eram muitas as bancas nas estações. A ausência não se constata apenas nesses lugares. Dois professores universitários que conheci, um deles de literatura, me disseram que os jovens quase não leem além do que lhes é solicitado nos cursos, e quando o fazem optam por livros de escrita simples, feitos para serem lidos no celular. Os leitores, me disseram, estão em outra faixa etária, embora algumas mulheres com quem conversei, na faixa dos quarenta anos, desconhecessem os nomes das autoras que elenquei com orgulho.

Apesar da aparente ausência de leitores, as livrarias seguem lá. Visitei uma das grandes, a Maruzen. Sem conseguir ler absolutamente nada (nem os nomes dos autores!), fui conduzida por um atendente à estante onde se encontravam obras de Murakami e, logo abaixo, de Sayaka Murata. (Nessa livraria ao menos os livros não são classificados pelo gênero do autor, como parece ser comum no país.) Fiquei fascinada ao pegar aqueles objetos, que para mim eram equivalentes a manuscritos originais. Ao deparar com caracteres totalmente indecifráveis, fui tomada pela constatação de que eu e meus autores prediletos, que foram se tornando amigos íntimos, não conseguiríamos nos comunicar sem a mediação dos tradutores. Minha gratidão a eles.

Se os livros não estavam visíveis nas ruas, as lojas de conveniência, konbini, são parte inescapável da paisagem das cidades. Frequentando-as, como fazem milhares de pessoas todos os dias, fui transportada para o mundo de Keiko, funcionária de uma dessas lojas em Querida konbini, de Sayaka Murata. Eu entrava nas lojas não só para comprar, mas sobretudo para olhar: os sorrisos das funcionárias dos caixas e de outras atendentes (mulheres em sua maioria), a organização das estantes, na qual Keiko tanto se empenhava, os bentôs com sushis, sashimis e tempuras, com etiquetas indicando a hora da produção — o que me transportou a outro livro, Do outro lado, de Natsuo Kirino, onde as protagonistas trabalham em uma fábrica de bentôs. Me impressionou a enorme quantidade e variedade de bebidas cafeinadas disponíveis para venda, e imagino que tenha relação com as poucas horas que as pessoas dormem devido ao excesso de trabalho, algo mencionado na literatura e visível na quantidade de zumbis desacordados no metrô.

Sonadas ou não, jamais parecem perder a linha. A gentileza e a delicadeza das pessoas é impressionante. Mesmo quando em multidões, não se embolam, e rapidamente se organizam em filas, para restaurantes, entrada nos vagões dos trens e mesmo para atravessar a rua. Quase não acreditei quando vi várias linhas de pessoas, uma atrás da outra, calmamente esperando o sinal abrir.

Penduricalhos

Histórias de diferentes épocas se materializavam diariamente à minha frente. Nos muitos templos e nas pequenas ruas ladeadas por chorões de Quioto experimentei o mundo de Chieko, protagonista de Kyoto, de Yasunari Kawabata. Como era outono, vi as árvores com suas folhas vermelhas, que levam muitos às ruas em admiração, atentos às mudanças visíveis das estações. Moças em bandos vestindo quimonos se dirigiam aos templos para bênçãos e pedidos — neles se vendem amuletos para tudo, até para se ter sucesso em provas de fim de ano — ao mesmo tempo em que grupos escolares uniformizados faziam piqueniques nos gramados.

A atenção dada às comidas na literatura japonesa me levou a buscar os preparos por lá

Ao ver essas meninas em trajes tradicionais me ocorreu uma conexão inusitada entre eles e as roupas exóticas vestidas por adolescentes retratados em fotos e filmes do Japão atual, e que encontrei andando pelas ruas do bairro Harajuku, em Tóquio, conhecido como point de adolescentes excêntricos. Usam os mesmos penduricalhos nos cabelos, embora não mais flores, pentes e joias, mas bonequinhos de animê. O arremate das costas do obi, faixa larga que amarra o quimono, é substituído por mochilas com carinhas de bonecos ou asas de anjo.

As semelhanças não se encerram nessas vestimentas excêntricas: mulheres que parecem ser executivas usam saias compridas tais quais os quimonos, e suas bolsas elegantes e celulares brilhantes são enfeitados com bonequinhos de plástico ou pelúcia. Os mangás e os animês são parte essencial da estética japonesa, onipresentes em anúncios de todo tipo, mesmo nos visivelmente voltados aos adultos, e nos metrôs pequenos vídeos passam trechos desses desenhos, com destaque para o já aqui esquecido Pokémon.

Encontros gastronômicos

Em Ueno, bairro de Tóquio, me aproximei de outros personagens queridos: o professor e sua ex-aluna e namorada Tsukiko, personagens de A valise do professor. É ali que se situa a rua Kappabashi, repleta de lojas especializadas em material de cozinha, cuja descrição detalhada ocupa alguns parágrafos do livro de Hiromi Kawakami. Ao comprar um pequeno ralador e contemplar a sua lâmina brilhante, Tsukiko pensa no sangue que imediatamente escorreria ao tocá-la levemente; o arrepio a faz sentir uma saudade aguda do professor e decide oferecer a ele o ralador. A quantidade de produtos de cozinha expostos nas diferentes lojas é impressionante. Como gosto de cozinhar, meu desejo foi levar um exemplar de cada coisa, especialmente das lindas tigelas de cerâmica em diferentes tamanhos e padrões. Contida pela lembrança de que estava viajando só com uma pequena mala de mão, saí de lá com um coadorzinho de chá de alumínio.

A atenção dada às comidas na literatura japonesa me levou a buscar os preparos nas ruas do Japão. Grãos de soja fermentados, raízes de lótus fritas, cogumelos os mais diversos, peixes secos ralados e as algas, que o professor e Tsukiko pediam em suas visitas noturnas aos bares. A sutileza dos sabores é acompanhada pela delicadeza das maneiras à mesa. As refeições são compostas de vários pratinhos. Com exceção dos diversos tipos de macarrão mergulhados em caldo, sugados diretamente do pote, tudo é levado à boca em pequenas porções, o suficiente para ser manipulado pelos hashis. O apego às pequenas porções é tão prevalente que vi até risoto ser servido em um prato fundo acompanhado de um pratinho, no qual a cliente servia porções menores para comer com os hashis.

Uma das comidas prediletas de Nakata, de Kafka à beira-mar, eram as enguias. Encontrei um restaurante que servia esse prato, fiz o meu pedido e imediatamente me senti sentada à mesa com ele, ouvindo sua conversa entrecortada, vendo-o repetir o gesto de passar a mão nos cabelos brancos e se servir do chá que sempre levava consigo em uma garrafa térmica. Imaginei-o conversando com a grande pedra branca e lisa que abria e fechava a comunicação entre mundos. Para a minha sorte, ela permaneceu aberta durante toda a minha viagem.

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Leituras que precederam a viagem

Haruki Murakami. Kafka a beira-mar.
Tradução de Leiko Gotoda
Alfaguara • 576 pp • R$ 89,90/29,90

“Existe um mundo paralelo, contíguo a este em que vivemos. Você é capaz de entrar nele até um certo ponto. É também capaz de voltar de lá são e salvo. Contanto que esteja atento. Mas uma vez transposto certo ponto, nunca mais será capaz de voltar.”

“Nakata contemplou intensamente a pedra por algum tempo. Depois, estendeu a mão e alisou-a com gentileza, do mesmo modo que acariciaria um grande gato adormecido. A princípio, apenas tateou […] Como alguém que se dedica à leitura de um mapa, sua mão percorria a superfície da pedra memorizando a sensação áspera de todos os cantos e recantos […] levou num gesto brusco a palma da mão à cabeça e passou a esfregar vigorosamente os cabelos curtos. Como se buscasse uma possível correlação entre a pedra e a própria cabeça […] Nakata costumava conversar muito com gatos, mas nunca tentou com pedras.”

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Natsuo Kirino. Do outro lado.
Tradução de Roberto Wander Nóbrega
Rocco • 544 pp • R$ 57

“Uma extensa fila de funcionários ainda mexeria na caixa depois de Yoshie: um para amaciar o arroz, um para colocar o caril, um para fatiar a galinha frita, e outro para banhar com molho. Posteriormente, um para cortar o picles do tamanho do copo, um para fechar a tampa plástica, um para colar uma colher com fita adesiva e, finalmente, um para lacrar o recipiente. As embalagens iam descendo a linha de produção, montadas em partes até que, enfim, uma refeição se completasse.”

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Hiromi Kawakami. A valise do professor.
Tradução de Jefferson José Teixeira
Estação Liberdade • 232 pp • R$ 62

“O professor estava sentado junto ao balcão com as costas levemente arqueadas.
-Feijão-soja com atum, tiras de raiz de lótus cozidas e alho-poró em salmoura – pedi tão logo me sentei ao balcão.
Quase simultaneamente, o senhor de costas curvadas ao meu lado pediu:
-Alho-poró em salmoura, tiras de raiz de lótus cozidas e feijão-soja com atum”

“O professor entrou antes de mim no restaurante especializado em cozidos oden”. nt: Prato japonês, consumido mais comumente no inverno, que consiste de vários legumes, tofu e ovos cozidos imersos em um caldo feito à base de molho de soja e peixe”.

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Sayaka Murata. Querida konbini.
Tradução de Rita Kohl
Estação Liberdade • 152 pp • R$ 54

“Enquanto capto os incontáveis sons espalhados pela loja de conveniência e registro suas informações, meu corpo organiza na prateleira os oniguiris (nt: bolinho triangular feito de arroz branco japonês, contendo uma pequena porção de peixe, picles ou outros recheios, envolto em uma folha de alga nori) que acabam de ser entregues. Eles são os itens mais vendidos durante esta parte da manhã, junto com sanduíches e saladas […] No centro, coloco duas fileiras do lançamento desta estação, recheado de ovas e queijo. Depois, duas fileiras do de atum com maionese, os mais populares da casa, e, na extremidade, os de flocos de peixe bonito, que não vendem muito. Praticamente não uso a cabeça. Nessa função o mais importante é a velocidade, e meus músculos apenas obedecem às regras já gravadas dentro de mim.”

“A campainha que avisa quando alguém entra na konbini ressoa como os sinos de uma igreja. Quando eu abrir a porta, aquela caixa iluminada estará me esperando.”

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Yasunari Kawabata. Kyoto.
Tradução de Meiko Shimon
Estação Liberdade • 256 pp • R$ 65

“Vestindo um quimono vistoso, Chieko saiu de casa […] Assim que entrou no parque, Chieko sentiu até ao fundo do seu coração o esplendor de tanta florescência. Contemplou longamente as cerejeiras e agradeceu-lhes por ter descoberto através delas, mais uma vez, a Primavera de Kyoto.”

Este texto foi realizado com o apoio da Japan House São Paulo.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Aparecida Vilaça

Professora de antropologia social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora Ficções amazônicas (Todavia, 2022).

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.