Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

A passos lentos

Narradora de ‘Natureza urbana’ nos leva a um percurso formativo possibilitado pela desaceleração da caminhada e da observação

26out2023 - 17h41 | Edição #75

A narradora de Natureza urbana, da escritora portuguesa Joana Bértholo, se anuncia como uma mulher burra e limitada porque eram esses os adjetivos que haviam acompanhado sua vida até então, qualificadores enunciados e repetidos ao longo do tempo por sua mãe, que não economizava as palavras para demarcar seu pertencimento a um lugar concreto de subalternidade.

É uma narradora sem nome próprio que não conhecia palavras como “extinguir” e “descontar”, fundamentais para entender que seu posto como lavadora de cabelos de mulheres mais ricas do que ela num salão de beleza havia sido extinto sem maiores avisos e que o acesso ao seguro-desemprego não seria possível sem que o empregador tivesse feito os devidos descontos vinculados ao contrato de trabalho. O emprego a deixa no mesmo momento em que sua mãe morre; a proximidade da perda vem acompanhada da percepção de dispor de muito tempo, “tanto tempo livre que não sabia onde o pôr, a quem o dedicar, o que fazer com ele.”

Diante do vazio, a ambição é formulada em termos de desaceleração temporal e espacial; ela queria aprender a andar devagar, para não se sentir aflita com os dias que se perdiam nela mesma. E tudo o que ela tinha era a cidade:

Saía de manhã cedo e passeava até cair o dia. Qualquer direção era destino. O gosto que ganhei a estes trajetos compensou o evidente: ia porque não tinha para onde ir, nem ninguém para visitar. 

As horas passam a ser gastas a caminhar entre ruas, praças e vielas que antes eram apenas caminhos funcionais para chegar a outro lugar e não pontos de observação neles mesmos. O exercício do olhar também se amplia gradativamente; acompanhamos a personagem em compras de plantas para a casa, desafiando a memória da mãe, que via nas plantas fontes de roubo de oxigênio dos humanos. Mas é no encontro com todos os infinitos mundos contidos numa biblioteca pública que o horizonte pode efetivamente se alargar: “De todas as formas de pobreza, era a ignorância a que mais me pesava”.

Confrontada com a pergunta do bibliotecário sobre os livros que lhe interessavam, ela não soube responder justamente porque não havia dedicado tempo para se conhecer.

Que tipo de livros leria eu? Não podia dizer ‘nenhum’, e dizer ‘não sei’ denunciaria minha incultura. Dado que andava a sonhar com aves, arbustos e falésias, furacões e tempestades, disse-lhe: ‘Natureza. Gosto de livros com Natureza’.

Com os livros, novas palavras entram em seu vocabulário — nomes de plantas, espécies “invasoras”, “herbário”. Ela se percebe na suspensão entre dois mundos: ela não pertencia ao campo, nem detinha os conhecimentos adquiridos pela convivência com a natureza; era preciso aprender tudo pelos livros, que também a desafiavam com construções e termos desconhecidos.

Eu sabia chamar um táxi, mas não o rebanho; […] Não conhecia o significado dos ventos nem descodificava as nuvens quando antecipam temporal. Os elementos do mundo em meu redor que eu considerava naturais eram indecifráveis.

Se faltavam conhecimentos de botânica e agronomia e a palavra culta aparecia como obstáculo para a apreensão do mundo, a cidade se apresentava como campo fértil de diversos enigmas que ela sabia decifrar, com a expertise e a habilidade de quem conhece as ruas com os próprios pés e está atenta ao que se passa nas entrelinhas das relações cotidianas:

Os ruídos do metro eram-me mais familiares do que o som que imagino que produza um riacho ou uma cascata. Eu sabia estimar o preço de uma garrafa de água em qualquer café ou restaurante apenas observando quem o frequenta ou pelas opções de decoração, se tinha ou não o nome escrito em néon, a ementa em quadros de ardósia, mesas de mármore e vitrines em vidro boleado.

A protagonista convive na ambiguidade dos diferentes registros de apreensão do mundo a sua volta

A cidade se mostrava cheia de códigos e padrões, visíveis apenas para aqueles que, como ela, tinham elaborado um mapa de conhecimentos impossíveis de ser aprendidos em livros e que permitiam navegar como num habitat natural.

A protagonista convive na ambiguidade dos diferentes registros de apreensão do mundo a sua volta. Ela narra um processo de aprendizagem que nos coloca em duas temporalidades distintas: a mesma pessoa que diz não conhecer certas palavras, já as conhece no momento em que enuncia. Ela reconstrói seus passos e nos leva a um percurso formativo, de ampliação de conhecimento das ruas, das pessoas e de si própria, possibilitado pelo tempo lento da caminhada e da observação.

“A melhor forma de aprender a andar devagar é não ter para onde ir” e é desse lugar que a personagem atua como uma detetive de significados comuns, que passam a ser desestabilizados por um olhar aparentemente ingênuo com seus estranhamentos improváveis e inusitados.

Prisão romantizada

O livro perde força da metade ao final, quando a personagem é obrigada, sob pena de ser descadastrada do auxílio do governo que garantia os poucos rendimentos necessários, a trabalhar num matadouro, embalando partes e vísceras de animais esquartejados, uma representação clara da morte de toda a natureza celebrada até então. O atropelamento de um pavão por um ônibus em seu trajeto para o trabalho é um momento de cisão, em que a personagem decide que irá aprender, nos livros, a produzir uma bomba destinada ao matadouro — e há, aqui, uma intertextualidade com Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, lido pela personagem.

É presa ainda nos atos preparatórios, delatada pelo bibliotecário, sua ponte para o conhecimento letrado. O desejo da vida lenta se realiza na prisão; todo o tempo é dedicado a ler e cuidar da horta. A prisão é romantizada como um espaço em que o desejo inicial de liberdade se realiza em seu contrário, num arco em que liberdade se confunde com confinamento e a cidade desaparece dentro dos muros.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #75 em outubro de 2023.