Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

A história invisível das metrópoles visíveis

Livros retratam graficamente a expansão da cidade de São Paulo e a anatomia de sua burocracia estatal

12jan2020 - 23h09 | Edição #30 jan/fev.20

Em um dos capítulos de As cidades invisíveis (1972), Marco Polo relata ao imperador Kublai Khan a dificuldade em descrever a cidade de Zaíra: “Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado”.

A dificuldade de Marco Polo não está na falta de habilidade narrativa ou na ausência de atenção aos detalhes. Por mais que o observador se esforce, apreender uma cidade em seu todo não é tarefa das mais fáceis. É um objeto que escapa: de pouco adiantaria listar as características do espaço construído. Ruas, pórticos e tetos configuram apenas a visibilidade mais imediata. Como diz Marco Polo, a cidade não é feita disso. É feita de uma combinação intrincada entre espaço e tempo, de camadas geológicas sobrepostas consolidadas no espaço urbano.

Esta estratigrafia está no centro de qualquer tentativa de compreensão de uma cidade. Mas isso não torna o objeto mais apreensível. Isso porque “a cidade não conta seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras”, como escreve Italo Calvino, dando voz a Marco Polo.

Não conhecemos a cidade de Zaíra. Assim como o imperador Kublai Khan, podemos apenas imaginá-la a partir dos relatos de viagem de Marco Polo. Se Zaíra se esquiva, mostrando toda a sua complexidade, um relato abrangente sobre a São Paulo dos dias de hoje parece ainda mais improvável de ser concebido. As camadas geológicas de espaço e tempo não são legíveis de imediato — e não há interpretação sobre a cidade que não seja permeada por uma multiplicidade de conflitos e perspectivas distintas, por uma sucessão de arranhões, serradelas, entalhes e esfoladuras que marcam uma das cidades mais desiguais do continente.

As camadas da cidade

No entanto, duas coletâneas recentes se alçam ao desafio desta empreitada. Com diferentes abordagens, São Paulo: uma biografia gráfica e As políticas do urbano em São Paulo, organizadas por Felipe Correa e Eduardo Marques, respectivamente, se propõem a navegar nesse emaranhado, fornecendo lentes de análise para que possamos enxergar parte do que está encoberto pelas diversas camadas de tempo e espaço, sugerindo fios condutores, numa espécie de “ligue os pontos” de elementos aparentemente desconexos.

O caminho trilhado por São Paulo: uma biografia gráfica pode ser representado sob a forma de uma colagem. Textos curtos que, em sua maioria, lembram os verbetes de uma enciclopédia, são complementados por documentos dos arquivos da cidade, por um inventário dos projetos e planos urbanos de fato construídos ou abandonados ao longo do caminho, por fotografias recentes de São Paulo e, principalmente, por mapas e gráficos de tirar o fôlego.

A principal força do livro está nessas ilustrações. Páginas duplas apresentam o leitor ao que poderiam ser nada mais do que risquinhos aleatórios desenhados em cima do mapa do centro expandido da cidade. Olhando mais de perto, os riscos mostram o traçado das ruas: um dos mapas exibe somente traços verticais, com as ruas que seguem a orientação norte-sul, outro mostra os verticais e outros dois contêm, ainda, as ruas curvas e oblíquas tão presentes no cotidiano dos moradores de São Paulo.

Outros mapas mostram o crescimento da cidade em uma perspectiva histórica: é possível ver o quanto da cidade de 1810 cabe na cidade transformada de 2018. Ilustrações retratam os prédios mais icônicos e os símbolos da habitação social coletiva. Mapas coloridos permitem ver ociosidades e potenciais construtivos, enclaves de territórios entre os grandes complexos viários, a retificação dos rios sequestrados pelas avenidas, a localização dos armazéns que recuperam a história da industrialização.

Aula de geografia

O olhar percorre mapas e gráficos como se estivesse em uma aula instigante de geografia. Em perspectiva de sobrevoo, permitem acompanhar a estrutura espacial da cidade em suas transformações ao longo do tempo. A colagem justapõe fragmentos que possibilitam saltar da “cidade dos pontos” dos arranha-céus para a “cidade de altos e baixos” dos rios e avenidas.

Se Marco Polo havia afirmado que descrever o espaço construído de Zaíra seria uma tarefa inútil, talvez o mesmo não valha para São Paulo. A cidade é tão polimorfa que iluminar o ambiente construído, como faz a biografia gráfica, parece um passo importante de ser dado. Mas toda descrição já é, nela mesma, uma interpretação. E os autores do livro procuram articular seus verbetes relativamente simples — escritos tanto em português como em inglês, para o leitor estrangeiro — com críticas e propostas específicas. Mais adensamento em áreas centrais, maior permeabilidade dos novos edifícios à vida urbana por meio de fachadas ativas e estímulo aos usos mistos e à fruição pública estão entre algumas das ideias para o futuro. Estranha que os autores chamem os espaços abertos dos parques, cemitérios e campi universitários de “cidade de vazios”, sugerindo que a falta de verticalização apareça como um negativo. O livro traz, ainda, o legado dos arquitetos latino-americanos para a construção de habitações populares, indicando que São Paulo pode se inspirar nas formas urbanas de seus vizinhos mais próximos.

As políticas do urbano em São Paulo segue outro caminho. Não se trata de uma biografia gráfica, mas de uma anatomia da burocracia estatal que gere e toma decisões em áreas-chave da cidade desde a redemocratização do país. Se uma cidade não é feita apenas de seu espaço construído, também se faz necessário olhar para um ponto cego nos relatos de Marco Polo: as políticas públicas centrais para o funcionamento de uma cidade, os arranjos decisórios que criam, mantêm e extinguem estas políticas, além da permeabilidade dessa arena decisória à sociedade civil e a grupos de interesse específicos.

No texto que abre o livro, Eduardo Marques conta que as políticas do urbano abarcam os serviços indispensáveis ao funcionamento de uma cidade, como mobilidade, licenciamento, habitação e limpeza urbana, mas também aquelas que ganham especificidade ao serem especializadas na escala do município, como, por exemplo, as coalizões locais de governo, a correlação entre prefeitos e vereadores e a formação dos gestores e funcionários que conduzem estas políticas. Para tratar destes processos decisórios que se dão no nível da rua, os textos que compõem o livro se valem de pesquisas empíricas sistemáticas com base em dados produzidos no Centro de Estudos da Metrópole do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento).

A especificidade do urbano

Além de dissecar a burocracia municipal por dentro, a tese subjacente ao livro é a de que há uma especificidade do urbano para explicar mudanças e permanências nas dimensões institucionais de São Paulo. Assim, as causas para as transformações não coincidem necessariamente com os ciclos político-partidários ou com outros fatores explicativos macro, como as mudanças macroeconômicas ou a estrutura do federalismo brasileiro. As razões teriam de ser buscadas nesse plano aparentemente mais modesto, em que as decisões são de fato tomadas. Conceitos importados como o de “máquina de crescimento” de Harvey Moloch e “regimes urbanos” de Clarence Stone tampouco serviriam para abarcar essas especificidades.

O livro também pretende se diferenciar da literatura existente dos estudos urbanos no Brasil. Para os autores, essa produção deixa de olhar de maneira sistemática para o Estado em ação, ainda que faça isto parcialmente. Muitas vezes equiparada ao senso comum, essa literatura é entendida como eminentemente societal, muito mais preocupada com a visão de baixo para cima do que propriamente com as dimensões institucionais.

Se esta abordagem ilumina diversos elementos imprescindíveis para o funcionamento de São Paulo nas últimas décadas, o foco nas instituições pode levar, por exemplo, à sugestão de que as manifestações de junho de 2013 foram antes motivadas pela agenda de mobilidade da prefeitura, ou seja, um caso de “as políticas públicas produzindo política”, do que propriamente uma irrupção na base da sociedade.

Um ponto cego na cidade

A política é um ponto cego na cidade de Zaíra porque não há democracia nas cidades invisíveis apresentadas no livro de Calvino. As políticas do urbano em São Paulo parecem responder a isso afirmando que só é possível conhecer e transformar uma cidade se acompanharmos, na linha fina, quem decide — e como decide — sobre suas políticas fundamentais.

Ambos os livros fornecem aportes para olhar para São Paulo de perspectivas distintas. Seja em sobrevoo ou com a lupa de quem examina os labirintos da burocracia do Executivo, a experiência dilata na medida em que passamos a entrever uma parte das camadas geológicas que conformam o espaço urbano.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #30 jan/fev.20 em janeiro de 2020.