Música,

Gal, Gracinha, tropical, fatal

O canto de Gal esteve por toda parte desde os anos 60, escutá-la nos faz acreditar no que é lindo

11nov2022 - 18h38 | Edição #64

“Não se perca de mim, não desapareça.” Escrever sobre Gal Costa hoje, dias após sua morte, é também pedir a ela que não se perca de mim e não desapareça, como nos versos de Caetano Veloso, principal parceiro de sua vida, cantados por ela. Pois não se trata só de lamentar a ausência daqui pra frente da maior cantora do Brasil, segundo o veredicto que Caetano deu quando a conheceu aos dezoito anos, ainda na Bahia. Trata-se de sentir a dor de um canto de nossas vidas que se foi, pois o canto de Gal — em suas variações surpreendentes de tom e repertório, de Roberto Carlos e Jorge Ben a Criolo, Mallu Magalhães e Marília Mendonça — esteve por toda parte desde os anos 60.

Para aqueles que hoje têm em torno de quarenta anos, como eu, a voz de Gal era ouvida quase todos os dias na abertura de uma das melhores telenovelas da história, Vale tudo, de Gilberto Braga. Vinda de Cazuza, a canção tinha uma vibração que, mesmo sem entendermos tudo que se dizia, pois éramos crianças, transmitia um espírito nacional dos anos 80: mistura de entusiasmo com a redemocratização do país e de crítica à “festa pobre, que os homens armaram pra me convencer a pagar sem ver toda essa droga, que já vem malhada, antes de eu nascer”. No meio, o grito veemente, entre a raiva e a fidelidade, exigia: Brasil, mostre a tua cara! Nós também queríamos ver essa cara.

Gal era, ela mesma, a melhor cara que o Brasil poderia ter, inclusive por interrogá-lo com aquela voz

Mas o que eu não percebia é que Gal era, ela mesma, a melhor cara que o Brasil poderia ter, inclusive por interrogá-lo com aquela voz. Por isso, também, perdê-la dói. É perder uma voz por meio da qual o Brasil, ao cantar, mostrava a beleza de sua cara. E é a mortalidade de uma geração que se anuncia em sua morte. De algum modo, eu sempre soube que João Gilberto, o mestre dessa geração e em particular de Gal, iria morrer. Mas a Gal? Ela não. Seus contemporâneos, que ela declarara admirar na canção “Meu nome é Gal” no fim dos anos 60, como Caetano, Gilberto Gil e Paulinho da Viola, acabam de completar oitenta anos cheios de vivacidade. Gal se foi aos 77. Foi cedo. Pouco não foi.

Atenta e forte

Imensa, Gal nos deixa muito. Nelson Motta chamou a atenção para como, já no começo de sua trajetória, havia a voz de veludo e a voz de cristal, com afinação impressionante, mas também a voz de labaredas. No disco de estreia, Domingo, de 1967, junto com Caetano, a voz de veludo vinha da Bossa Nova. “João bateu em mim como um destino”, ela dizia. Na participação no Tropicalismo, como em “Mamãe coragem”, era a voz cristalina, lírica. E depois aparece a voz de labaredas em “Divino maravilhoso”. Era novembro de 1968, em um festival da canção televisionado. Gal subiu ao palco, e a garota tímida que era não subiu junto. Os arranjos de Gil, a extravagância na roupa e um cabelo black power ressaltavam os agudos e berros. Ruído na música. Expansiva, desafiadora e dionisíaca, Gal se impôs ao público dividido entre aplausos e vaias.

Ela conta que aprendeu a defender o que fazia, olhando direto e firme para quem a atacava. “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, canta o refrão que pede atenção: tudo é divino e maravilhoso, tudo é perigoso. Gracinha, Maria das Graças, como foi conhecida no início, mudava. Seu nome agora seria Gal. Ela devorou antropofagicamente o rock e Janis Joplin. Depois que Caetano e Gil foram presos e exilados, Gal ficou no Brasil e se tornou uma representante dessa geração.

Expansiva, desafiadora e dionisíaca, impôs-se ao público dividido entre aplausos e vaias

Era a época da “barra pesada” da ditadura. Seu primeiro disco solo, que só circula em 1969, é um sucesso, Gal Costa, seguido por Gal e Legal. No fim dos anos 60 e início dos 70, a cantora e seu canto tornam-se os símbolos de uma geração exilada, seja fora do Brasil, seja nas dunas da praia de Ipanema que ela habitava. Eram as “dunas da Gal”, as dunas do barato, que Jorge Mautner dizia serem protegidas com uma energia de tudo ao redor. Pois ali uma liberdade de corpos, mentes e comportamentos podia existir.

Próxima de José Carlos Capinam, Gal fazia parcerias com Lanny Gordin, Jards Macalé e Waly Salomão. O antológico show do disco Gal a todo vapor não tinha músicas da época do Tropicalismo, que havia sido absorvido. Sua força é outra, como se pode saber pela descrição de Eduardo Jardim no belo livro Tudo em volta está deserto, no qual menciona o sentido catártico do espetáculo Fa-tal para o público que, no envolvimento com seu poder dramático, sabia que fora do teatro tudo ia mal, tudo estava tão certo quanto a matemática disparatada segundo a qual 2 e 2 são 5.

No show, havia a canção “Vapor barato”, de Macalé e Waly, que se reencarnaria para minha geração na trilha do filme Terra estrangeira, de Walter Salles e Daniella Thomas, em 1996. Eu já era adolescente e Gal continuava a voz que falava do amor, da dor e do Brasil. Havia ali uma “baby”, mas a canção dizia “eu estou tão cansado” e “preciso esquecê-la”. É uma canção sofrida e, ao amante, resta a saída que foi o destino de tantos na época da ditadura: “Oh, minha honey baby, eu vou-me embora”. Essa tristeza não se esvai nem mesmo com o “talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe”.

Testemunha e testamento

Impressiona como as interpretações mais antigas de Gal, embora testemunhem artisticamente uma época, ainda fazem sentido depois. Se “Vapor barato” se situava na ditadura, mas nos tocava em 1996, uma outra “Baby”, composta por Caetano e cantada por Gal em 1968, emociona hoje. Escrita originalmente para Bethânia, a canção convida baby, com quem “vai tudo em paz”, a saber da piscina, da margarina, da gasolina. “Baby” precisa tomar um sorvete na lanchonete. Ou seja, precisa entrar no mundo moderno e cosmopolita do mercado, o que conferia à canção sua marca tropicalista. “Você precisa saber inglês”, é dito a baby; mas, no fundo, é para ler na minha camisa: “I love you”. Se baby precisa andar com a gente, é para “me ver de perto”. É uma canção de amor.

Mas nem sempre Gal manteria a camisa. Em 1994, ao cantar “Brasil”, de Cazuza, no show dirigido por Gerald Thomas, Gal abria a camisa e mostrava seus seios. Era uma imagem forte e erótica, curiosamente capaz de provocar polêmica na época. “Dona de divinas tetas”, como canta “Vaca profana”, de Caetano, afinal “de perto ninguém é normal”; e que “o resto inunde as almas dos caretas”. Gal passa da concentração espiritual, como em “Recanto escuro”, ao prazer do corpo, como em “Balancê”, com naturalidade rara em um artista.

A Gal está tão em nós que é assim. Não vai se perder ou desparecer, mesmo que não toque mais

Essa variação com a voz afinada e afiada encontra muitos pontos altos, como nas canções de Domingo e tropicalistas, no absurdo disco Gal a todo vapor e ainda em álbuns como o mítico Índia, Água viva, Mina d’água do meu canto ou Recanto, com sonoridade contemporânea, penetrante e crítica. Gal cantou de Caymmi a Pitty. Trouxe brilhantes músicos jovens para tocar com ela. Encontrou-se com um público novo. O show de A pele do futuro, em 2019, mostrou novas canções e novas versões de canções antigas. O disco ao vivo é extraordinário, com um pouco de tudo da sua trajetória.

No dia seguinte à morte de Gal, fui encontrar amigos no bar Bip Bip, em Copacabana, com sua tradicional roda de samba. Esperava secretamente que dessem uma colher de chá e tocassem uma canção dela. Não teve. Mas um sujeito que vira e mexe está por lá, com fotos de gente como Paulinho da Viola, passou exibindo uma foto dela, com chapéu e sorrindo. Pensei que a Gal está tão em nós que é assim. Não vai se perder ou desaparecer, mesmo que não toque mais. Seu canto já está inscrito no modo como sentimos a vida. Nele, há o imperativo de “Chuva de prata”: “Você deve acreditar no que é lindo”. No dia seguinte, o Rio amanheceu com um dia bonito. E, toda vez que “o céu ficar azul”, poderemos ouvir em nossa cabeça sua voz cantar: “O sol nascer amarelinho, queimando mansinho, cedinho”. 

Quem escreveu esse texto

Pedro Duarte

Filósofo, é editor da revista O que nos faz pensar e autor de Estio do tempo: Romantismo e estética moderna (Zahar)

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.