Biografia,

A vida como ela é

Insegurança, angústia e masturbação excessiva: nova biografia de Nietzsche joga luz no homem comum por trás do pensador brilhante

28ago2019 - 16h51 | Edição #26 set.2019

Caetano Veloso diz que todas as suas letras são autobiográficas, e que mesmo as que não são o são. Embora sua vida concreta figure explicitamente em várias canções, ela está presente até naquelas em que isso não ocorre. Nada poderia justificar melhor o interesse pela leitura de biografias. Para além das curiosidades pessoais, elas oferecem pedaços brutos de uma vida na qual o pensamento ou a obra não estavam prontos, mas ainda nascendo. Pode-se revelar nelas não somente o que alguém fez, mas também quem essa pessoa foi.

Esse é o mérito da nova biografia sobre o explosivo filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), escrita pela historiadora da arte Sue Prideaux. “Eu sou dinamite!”, dizia o pensador alemão sobre si mesmo, e esse foi o título escolhido para o livro. A prosa aguda e desafiadora de Nietzsche, às vezes abusada e violenta, justifica a relevância filosófica dessa caracterização — ainda que hoje, depois de testemunharmos tantas explosões da tradição, a atitude possa soar datada. Denunciando o crepúsculo dos ídolos e olhando uma nova aurora, para além do bem e do mal, Nietzsche, no fim do século 19, mudou a história da filosofia e da cultura do século 20 em diante.

Longe de qualquer falsa modéstia, foi o próprio Nietzsche quem, em sua autobiografia Ecce homo (escrita em 1888), falava da desproporção entre a grandeza de sua tarefa e a pequeneza de seus contemporâneos, que por isso não o teriam ouvido. É assim que ele justifica a necessidade de dar um testemunho de si, dizendo quem era e clamando: “Ouçam-me!”. Talvez a dificuldade estivesse no fato de que, ao invés de elogiar a humanidade e seu progresso moderno, ele criticava ambos. Escrevia para abrir no presente um tempo por vir, apostando na sua potência criadora.

Prideaux, contudo, narra a história da vida de um homem ao rés do chão. Não é o triunfalismo heroico que prevalece, embora a coragem extemporânea de Nietzsche — não só na sua época, mas contra ela — seja destacada. Estamos diante de um homem que tem aflições, mas ri; tem angústias, mas socializa. Uma pessoa. Com pequenezas, como todos nós. Há o pai que morre, a mãe cristã, a irmã nazista, as mulheres com quem se relaciona, as doenças, as roupas que não o vestem bem, o trabalho, os duelos de esgrima. Tudo humano, demasiado humano.

No núcleo da vida contada por Prideaux está a amizade que o jovem professor e filólogo, já atuante na universidade, tivera com o então experiente e consagrado compositor Richard Wagner. Filósofo e artista se aproximaram. O pensamento e a música também. O primeiro grande livro escrito por Nietzsche, O nascimento da tragédia (1872), jamais seria o que foi sem essa amizade. Havia muita troca intelectual e admiração mútua, com longas conversas em belas paisagens. E interesses sociais: Wagner se sentia bem com o endosso do novo crítico, enquanto Nietzsche podia desfrutar da intimidade com o mestre e com seu círculo cultural amplo.

Prideaux escreve com certo gosto por desfazer mitos que buscam enaltecer cada momento da vida com uma grandeza particular. Por isso, assim como sublinha as afinidades espirituais de Nietzsche e Wagner, observa seus interesses pessoais, já que ambos tinham a ganhar com a relação que estabeleciam. O procedimento da biógrafa será igual para explicar a separação dos amigos, motivada não só por diferenças de ideias, mas também por desavenças afetivas.

É verossímil que, enquanto Wagner permanecia atado ao nacionalismo germânico, Nietzsche acalentasse, cada vez mais, o cosmopolitismo europeu. É verdade que as concessões da arte de Wagner ao cristianismo, especialmente com a ópera Parfisal (1882), colidiam com o pensamento de Nietzsche, que criticava furiosamente a religião fundamental do Ocidente por causa de seus ideais ascéticos.

Contudo, mesmo que essas diferenças sugiram o afastamento entre os dois, para Prideaux, não iluminam seu rompimento definitivo, cuja causa seria um episódio íntimo. Preocupado com a frágil saúde de Nietzsche, Wagner o recomendou a um médico amigo, a quem escreveu cartas com a hipótese de que as doenças provinham de seu excesso de masturbação — a bizarrice da hipótese nos chama a atenção hoje, mas parece que, na época, era comum. Pois bem:
Nietzsche descobriu as tais cartas e se ofendeu, o que explicaria o fim da intensa convivência entre ambos.

Descida mundana

O mérito da biografia está nessa interpretação livre de academicismos e atenta aos detalhes da vida comezinha dos afetos e dos corpos. É uma descida mundana que restitui a humanidade real dos personagens, em vez de corroborar sua idealização — e há algo de nietzschiano em tal operação. Dados empíricos funcionam bem para essa finalidade, colocando sob suspeita episódios romantizados, e a eles fazendo um contrapeso, como aquele em que Nietzsche teria abraçado um cavalo. Contudo, por um outro lado, subestima-se por vezes o quanto o pensamento decide a vida, especialmente a de alguém que era um pensador.

Nesse contexto, vale destacar que esta é a mais recente biografia sobre Nietzsche traduzida para o português, mas não a única. Pela editora Vozes, foi publicado o monumental empreendimento de Curt Paul Janz, Friedrich Nietzsche (2016), uma caixa com três volumes. Pela Geração Editorial, Rüdiger Safranski — que escrevera sobre Heidegger, Schopenhauer e o Romantismo — teve traduzida sua biografia intelectual de Nietzsche, Biografia de uma tragédia (2001). Nos dois trabalhos, o homem que se tornou um improvável fenômeno pop há décadas é reposto em seu contexto histórico e filosófico de origem. E ainda há outros, que buscam explicar como o eu individual, a história coletiva e o pensamento se juntam em uma vida.

Para quem se interessa em conhecer, além da vida de Nietzsche, o que ele entende filosoficamente por vida, vale também sublinhar que os estudos a seu respeito no Brasil atingiram grande maturidade e profundidade. Sobre o tema em causa, o livro Nietzsche, vida como obra de arte (Civilização Brasileira, 2011), de Rosa Dias, é um ótimo exemplo, explorando de que modo, para ele, vida é vontade de potência — ou seja, não só adaptação ou conservação, mas sobretudo criação. Poderíamos perguntar: Nietzsche esteve à altura do desafio que ele mesmo colocou nesses termos?

Tal pergunta pode estar no pano de fundo da biografia de Prideaux, à qual falta envergadura teórica, mas que conduz com habilidade narrativa jornalística a vida de Nietzsche, desde seus “anos de formação”. O talento da escritora para contar histórias assim foi precedido pelas biografias que fez sobre o artista Edvard Munch (que pintou um famoso retrato de Nietzsche) e o dramaturgo August Strindberg (com quem Nietzsche trocara cartas). Nesta obra, podemos descobrir que não é apenas pela escrita de Nietzsche que ninguém passa incólume, mas também por sua vida: perturbada, arriscada, experimental, numa busca infinita por si mesma. Naturalmente, tal busca não se daria sem solavancos, tanto intelectuais quanto biográficos.

De aluno a mestre

“Retribui-se mal a um mestre continuando-se sempre apenas aluno”, Nietzsche já deixara escrito em sua autobiografia. Ele seguira à risca o aviso, e essa é talvez a chave da narrativa de Prideaux. Sua ênfase na centralidade de Wagner e da filosofia de Schopenhauer para o jovem Nietzsche é seguida, assim, pela virada que o fez abandonar e criticar ambos. Deixando de ser aluno, ele retribuía a seus mestres. Era seu crepúsculo dos ídolos particular. Se precisara deles para se tornar quem era, agora devia deixá-los para continuar a se tornar.

Isso tudo se passou no estilo agressivo de Nietzsche, que em parte era próprio de seu gênio e em parte uma marca geracional que começava a se esboçar. Não era só a época da crítica, como nos casos de Kant, Hegel ou Marx, os grandes filósofos dos séculos 18 e 19. Era a época das vanguardas, como as que criaram movimentos estéticos já no século 20. Recusou Wagner e Schopenhauer com a mesma retórica de ruptura pela qual se voltara contra toda a metafísica desde Platão. O excesso de tradição e moral parecia suspeito, embotando os espíritos livres.

Pessoalmente, essa liberdade de espírito o encantou em Lou Salomé, a bela mulher que não se interessava em casar, não dava bola para a opinião alheia e queria mesmo era épater le bourgeois: chocar a burguesia. Ela, por sua vez, descreve argutamente o olhar de Nietzsche: “Para dentro, por assim dizer, ao longe”. Lou despertou o interesse de Freud, Rilke e outros grandes homens da época. Nietzsche viveria com ela um triângulo amoroso, do qual participava também seu amigo Paul Rée.

Se Lou Salomé irrompe na biografia como a principal mulher a determinar a vida de Nietzsche, é outra, já também muito importante, que ganha protagonismo decisivo após a sua morte: a irmã Elisabeth. Ela ficou responsável por toda a organização do espólio de Nietzsche, e deu à sua obra um tratamento enviesado, obedecendo a suas próprias preferências políticas nazistas. Boa parte da biografia de Prideaux se dedica, acertadamente, a esclarecer o mal-entendido, embora mais uma vez de um ponto de vista sobretudo empírico, não tão filosófico (diga-se de passagem que, aqui no Brasil, essa tese foi defendida desde 1946 pelo crítico literário Antonio Candido, como está documentado em um belo artigo no jornal Diário de São Paulo, no qual afirmou ser preciso afastar a propaganda e a ingenuidade que fariam de Nietzsche um precursor do nazismo).

O furor de transformação política talvez não fosse estranho à linguagem filosófica de Nietzsche, cheia de metáforas potentes e ameaçadoras. Contudo, Prideaux distancia essa sua energia do direcionamento nacional-socialista que lhe foi dado pela irmã. O livro A vontade de poder (1901), por exemplo, é uma costura feita por ela de fragmentos aos quais Nietzsche jamais deu forma final. Para Prideaux, ela nunca entendeu o que pensou o irmão, um bufão piadista, e não um santo com certezas. Cita, para confirmar o argumento, o ideólogo nazista Ernst Krieck, que observou sarcasticamente que, à parte o fato de não ser nacionalista nem socialista e contrário ao racismo, Nietzsche bem poderia ter sido um líder do nacional-socialismo.

Nietzsche se sabia e se queria bombástico: dinamite. Sua crítica à razão filosófica tradicional foi vivida com tanta verdade que o levou à loucura. Seu espírito não deixou de estar na origem de movimentos como o Futurismo ou o Surrealismo e de tantos impulsos do século 20 que viam na destruição a libertação de uma prisão. Seria uma destruição criadora. Mesmo no Brasil, o artista Hélio Oiticica ousou dizer, sobre os seus próprios escritos, que estava sentado em cima de dinamite. Era ainda filiado a essa retórica da vanguarda provocadora, que gostaria de explodir seu presente — e da qual hoje já podemos fazer uma história rigorosa, não sendo o nosso solo cultural contemporâneo, embora resista no apelo existencial de jovialidade.

Interessa, por isso, descobrir nessa biografia de Prideaux que o autor destemido também tinha seus momentos de hesitação. “Minha falta de confiança agora é imensa”, confessa numa carta. Que diferença para aqueles capítulos deixados em sua autobiografia com títulos como “por que sou tão inteligente” ou “por que sou um destino”. Há muito de ironia na escrita de Nietzsche, é claro, porém também há um movimento constante, que revela uma assertividade não dogmática. E, no fim, Nietzsche não deixou de ser um destino, embora, ao mesmo tempo, tenha se tornado a abertura para nos tornarmos algo diferente do que somos. Um ocaso. Uma travessia.

Nietzsche falou da morte de Deus, da inversão do platonismo e do super-homem. Suas expressões todas sinalizam essa busca do novo. Mais importante, contudo, é que ele incorporou essa busca na linguagem. Seus aforismos, avessos aos auspícios tradicionais do sistema na filosofia, são fragmentos velozes em que os pensamentos correm agilmente, como em uma dança. Prideaux o chama de “estilista” por causa disso, o que atingiria o ponto culminante com o romance filosófico Assim falou Zaratustra (1883). Essa é, ainda, uma potência da filosofia de Nietzsche, pois exige do pensamento uma realização estética: que o conteúdo atue com a forma, e que as ideias estejam vivas na escrita.

Quem escreveu esse texto

Pedro Duarte

Filósofo, é editor da revista O que nos faz pensar e autor de Estio do tempo: Romantismo e estética moderna (Zahar)

Matéria publicada na edição impressa #26 set.2019 em agosto de 2019.