Memórias do Chile,

Túnel do tempo

Ao revisitar falas de Antonio Elías Tavolari Vásquez, neta do deputado chileno faz incursão ao passado

01set2023 - 00h00 | Edição #73

Não, colegas. O problema e a situação é a mesma de 1891. Por trás da democracia, da lei, da Constituição, estão buscando o caminho para derrocar este Governo e para isso não hesitam até mesmo em buscar a ajuda necessária no exterior. Desejam que este Governo caia, desejam que Salvador Allende caia, para devolver os latifúndios, entregar a seus donos ou aos que pretendem sê-lo, aos bancos; para voltar ao monopólio e, por que não dizer, para brindar aos norte-americanos a recuperação do cobre, de seus bens, da itt [International Telephone and Telegraph Corporation] etc. Esta é a verdade. E essa verdade é mais certa do que a absurda defesa de uma lei e de uma Constituição que não foram violadas.

Era o dia 17 de maio de 1973, na 51ª Sessão Especial da Câmara de Deputados do Chile. O prédio em que as sessões legislativas aconteciam ainda ficava em Santiago, a três quadras do Palácio de La Moneda, na Compañía com a Morandé — o mesmo edifício que abrigou as sessões da Convenção Constitucional entre 2021 e 2022, produzindo um texto que seria amplamente rechaçado em plebiscito. Antonio Elías Tavolari Vásquez já não era mais deputado, seu mandato havia terminado alguns dias antes, em 25 de abril. Apesar de haver se despedido depois de quatro anos, foi necessário voltar a falar da tribuna em razão da acusação constitucional contra dom Orlando Millas Correa, então ministro da Economia do governo Allende:

Meu partido, o Socialista, me concedeu a responsabilidade de elevar a minha voz esta tarde, aqui neste plenário, quando eu pensava que já não voltaria a fazer, e o faço com grande satisfação. Estamos defendendo um político que conheço desde jovem e admiro por sua honestidade, por sua seriedade e pela consciência que teve ao se incorporar a um processo desde criança e que pertence a um partido aliado que, precisamente, ao longo do tempo e ao longo dos anos de luta, se identificou com a luta do povo e com o proletariado.

Não era apenas a tentativa de deposição de um ministro. No, colegas, diz Tavolari. Era muito mais. Mais uma das reiteradas tentativas de se valer da lei e da Constituição — era uma acusação constitucional, afinal de contas — para derrubar um governo democraticamente eleito. O paralelo com 1891 pode não dizer muito para quem não navega nos marcos de referência da história chilena. O confronto direto entre o Congresso e o presidente José Manuel Balmaceda, que levou à Guerra Civil naquele ano, é resgatado para apontar o momento de arranque da instabilidade e dos ataques, como um lugar conhecido para dizer que o presente era a repetição de um episódio já velho e desgastado. Com apoio internacional norte-americano contra Allende, com apoio internacional britânico contra Balmaceda:

Por isso, estimados colegas, nesta tarde, acredito e tenho a impressão, enquanto ouvia um de vocês, de estar imerso nessa trama de ficção chamada ‘túnel do tempo’, encontrando-me naquele período que se seguiu à morte de Balmaceda e à queda de seu regime.

A Guerra Civil de 1891 teve fim quando o presidente reconheceu a derrota, com exílio na Argentina e transferência do poder para o general Manuel Baquedano, cuja estátua se tornaria emblemática dos protestos do estallido social de 2019, pintada de vermelho e escalada por manifestantes que seguravam a bandeira mapuche. Mas é a morte de Balmaceda que sela definitivamente o encerramento deste capítulo. Um suicídio, um tiro na têmpora. E aqui, em maio de 1973, o paralelo histórico ganha ares de prefiguração, de aceleração temporal, em que Antonio Tavolari fala do suicídio de um presidente presentificando o passado.

Registros

A Biblioteca do Congresso Nacional do Chile guarda o registro de todas as falas de seus deputados e deputadas. É possível ler as intervenções em plenário, moções, homenagens e até os atos legislativos mais banais. Quando descobri que esse material existia, tive uma avidez e uma fúria para ler tudo o que fosse possível, eu tinha pressa. Mas não consegui.

Tenho um pdf com todas as falas de Antonio Elías Tavolari Vásquez entre 1969 e 1973 no meu computador, raramente aberto. Eu adoraria dizer que, apesar da injustiça de não nos termos conhecido, ele é uma pessoa muito próxima. Não é. Não consegui abrir o arquivo de parte da sua vida pública não por desinteresse — não há qualquer desinteresse aqui, pelo contrário. Dele mesmo não conheço nada, conheço as intermediações de quem me garante acesso ao que ele foi.

Entre as muitas versões, o que tenho é uma ideia. Uma ideia talvez diga muito mais sobre mim do que sobre ele; é mais fácil gostar dos mortos, dos que não conhecemos, quando é possível modelar quem eles foram na própria cabeça, selecionar pedaços já muito filtrados por camadas de tempo. Não há decepção no diálogo com os mortos justamente porque não há propriamente alteridade.

Quem era esse que falava em ‘verdade’, ‘luta’ e ‘povo’? Não sei. Só posso tentar habitar as palavras dos mortos

Ainda não consigo ler tudo. Também não consigo ser sistemática, adotar um critério — começar pelo primeiro pronunciamento, pelo último, por alguma moção aleatória. Às vezes salto entre parágrafos, outras tantas paro e permaneço em uma ou duas palavras. Quem era essa pessoa que dizia ter sido convocado para elevar mi voz? Que falava em “verdade”, “luta” e “povo”? Eu não sei. E não saber não me impede de perguntar, insistentemente, como ele teria escolhido cada palavra, como será que elas soaram em voz alta, como reverberaram dentro do corpo. Só posso tentar habitar as palavras dos mortos.

Antonio Elías Tavolari Vásquez nasceu em Valparaíso no dia 8 de maio de 1921 e morreu em Mendoza, na Argentina, em 28 de março de 1980. Estudou direito e sociologia na Universidade do Chile, foi dirigente nacional do Partido Socialista, presidente da Federação de Estudantes da Universidade de Valparaíso, presidente da Federação de Estudantes Secundaristas de Viña del Mar. Foi eleito vereador por Valparaíso entre 1963 e 1967. Foi deputado entre 1969 e 1973. Foi torturado na ditadura chilena de Augusto Pinochet. É também, sem saber, meu avô.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.