Memórias do Chile,

Nossos muitos sinais

Autora chilena escreve sobre a infância ingênua no Chile dos anos 70, tão perto e tão longe da violência

01set2023 - 00h00 | Edição #73

Ninguém sabia de nada.

Ninguém. Como era possível? A violência aumentava no país, não muito longe das nossas cercas de arame e muros de tijolos enroscados por trepadeiras, das nossas salas de aula iluminadas e do campinho de grama resistente porém aparada com esmero. Longe, mas não muito longe dos quintais onde riscamos com giz os quadrados da amarelinha, onde pulamos corda ou batemos figurinhas no bafo, onde brincamos com bolinhas de gude ou cristal feitas para colecionar, não para ver o presente. Mas ninguém que conhecíamos havia sido demitido ou revistado, ninguém preso, interrogado, torturado. Ninguém desaparecido, dinamitado, degolado a sangue frio, queimado a sangue quente.

Será mesmo que não entendíamos nada, que aceitávamos tudo, que éramos inocentes?

Ninguém: isso era o que nós, meninos e meninas do colégio britânico, acreditávamos.

*

Sempre houve sinais, mas eles caíam ao nosso redor como a chuva, como gotas pingando, respingando, boiando momentaneamente na água até afundar em círculos concêntricos. Sinais que ficaram nas poças do nosso inconsciente sem que pudéssemos decifrá-los, como sinais protegidos por senha.

Será mesmo que éramos completamente incapazes de ler aqueles sinais, que não perguntávamos nem entendíamos nada, que aceitávamos tudo, que éramos inocentes?

Será que a política ditatorial de despolitizar o país, assumida por todas as instituições, nossa escola, nossas famílias, nossos pais, nos redime retrospectivamente da responsabilidade?

Ou será que nos escudarmos na infância nos torna cúmplices?

*

A insistência na ordem era um desses sinais. Devíamos nos submeter ao rigor da escola, que replicava a disciplina ferrenha imposta pela Junta Militar. Devíamos estudar mais do que ninguém, obter as melhores notas e impressionar as famílias mais ricas, que tirariam o país da miséria e a nós, da classe média desigual, no projeto de tornar o Chile uma grande nação.

*

Passávamos frio nos invernos setentistas, mas tínhamos um teto que não era de zinco, e janelas com vidro, e cortinas ou venezianas de madeira, e paredes de tijolos revestidas por dentro com papel. Quase ninguém tinha as casas de veraneio que quase todos teríamos depois, em Concón, Reñaca, na exclusiva Pucón, e não na proletária praia de Cartagena ao lado da casa em ruínas do aristocrático poeta Vicente Huidobro. Não casas no plural, ainda não, mas um ou dois banheiros com descarga ao invés de um buraco no chão. Passávamos frio, mas contávamos com guarda-roupas repletos de pulôveres e meias de lã, e tínhamos aquecedores a querosene que esquentavam pouco, mas esquentavam. Frio, sim, mas nunca fome: nas nossas mesas havia três ou quatro refeições diárias, ainda que nos pratos não houvesse peixe que não sardinha-tipo-salmão ou carne que não moída, e os miolos, a língua, as vísceras dessa carne com purê em pó. Tomávamos sopa de pacotinho e lentilha com salsicha, ensopado e muitos ovos, tortas de uma acelga que fingia ser espinafre. Não passávamos necessidade, não, nunca, nossas refeições eram servidas na hora da fome por uma empregada de avental que morava num quartinho geminado sentindo saudade do campo onde já não havia trabalho, mas onde ainda se tomava leite de vaca em vez do leite em pó que tomávamos, com café solúvel ou uma imitação de café.

*

E a violência aumentava sem nos atingir, sem ferir os nossos. E a Junta Militar decretava que as denúncias eram falsas ou que os desaparecimentos e execuções eram conjecturas, pois não havia corpos que as comprovassem. E na falta de evidência material nossos pais podiam afirmar, sem sentir que mentiam, que eram rumores infundados.

E podiam dizer entre si que os comunistas iam nos matar, e que nos defender era um direito legítimo. Dizer que eles nos ameaçavam com megafones no meio da noite, dos bairros periféricos. Dizer, como diziam, que antes de apagar as luzes deixavam os carros preparados para persegui-los.

E diziam entre si que alguma coisa eles deviam ter feito, ou cochichavam com malícia que os supostos exilados estavam na Europa com suas amantes.

Diziam isso, nós tentávamos imitar.

Diziam isso e diziam coisas piores.

Diziam que deviam ter matado todos os “upelientos”, pois chamavam assim os partidários da Unidad Popular, mesclando política com pobreza.

Ou não diziam nada, ou mudavam de assunto.

Que nos dedicássemos a estudar em vez de perguntar asneiras, pois por nosso futuro se matavam de trabalhar.

Meu pai atendia seus pacientes todo dia e de noite, duas ou três noites por semana, em dois hospitais diferentes e inclusive opostos: um era o Militar, como o regime, o outro era o Salvador, como Allende. Meu pai passava tantas horas imerso naqueles hospitais, e no consultório particular, e nas visitas a domicílio, que quase não conseguia falar quando chegava em casa: era sua sombra que jantava conosco.

*

Minha mãe não era como muitas mães do colégio inglês.

Minha mãe acordava às seis da manhã e às sete entrava no seu pequeno Fiat vermelho, que depois trocaria por um Dodge Dart americano trazido num contêiner, e saía para cuidar de crianças doentes ou desnutridas em um hospital público decadente da periferia.

Minha mãe era filha única de uma mãe solo, filha de uma mulher divorciada mas com profissão, secretária em um escritório de advocacia que um dia terminaria seus estudos de direito na Universidade do Chile e se formaria com outra mulher, as duas em traje de duas peças, blusa, colar e brincos, sapatos de salto, ambas sentadas e rodeadas de uma centena de homens de terno e gravata.

Minha mãe era filha de uma advogada que pagava com esforço a mensalidade de um colégio britânico para meninas ricas e não tão ricas que, em tempos de socialismo, em pleno debate parlamentar sobre a lei da Educação Nacional Unificada, se juntaria ao seu par, o colégio dos meninos ricos e não tão ricos, para impedir que as salas de aula se enchessem de pobres.

Minha mãe, que terminou o colégio muito antes daquele debate que não virou lei, descobriu que os boys assistiam às aulas de manhã e as girls de tarde, e que alguns boys deixavam cartas de amor a girls que não conheciam, debaixo de suas mesas.

Minha mãe sabia que essa alternância de horários não havia durado.

Minha mãe insistiria que seus filhos estudassem naquele colégio misto: não em mais um colégio britânico ou americano ou francês ou alemão ou suíço, não em um colégio qualquer, nem mesmo em um bom colégio público como aquele que meu pai frequentara no centro de Santiago.

Nunca nos interessamos em saber como era estudar em um liceu, nunca nos questionamos.

*

Minha mãe foi educada em um colégio particular que exigia trajes de duas peças, um de inverno, outro de verão, com paletó de colarinho duplo e punhos e botões vendidos em uma única loja no centro de Santiago, e luvas de duas estações que as girls não podiam tirar nem para tomar sorvete. Éramos as menininhas do colégio particular, diz minha mãe, acrescentando um irônico very british. Eram os anos 50, os mesmos anos em que Lucia Berlin, filha de um empresário estadunidense, estudava no equivalente do mesmo país com um uniforme certamente parecido. A escritora relembraria em seus contos a frivolidade das meninas do seu colégio very american, e algo mais que não deve ter ecoado na memória da minha mãe: que “havia um pequeno mundo inglês no Chile”, com “igrejas anglicanas e modos ingleses e casinhas rurais, jardins e cães de raça, o clube de campo Príncipe de Gales, times de rugby e de críquete e, obviamente, o colégio Grange, um excelente colégio masculino, estilo Eton”.

*

Ela volta no tempo para contar que, no seu colégio de meninas chilenas aspirantes a inglesas, conheceu a segunda filha da família Allende. Beatriz estudara em escola francesa, mas acabou no colégio inglês da minha mãe.

Minha mãe às vezes se refere à Beatriz Allende como Tati.

Tati convidou as colegas para almoçar na sua casa da Calle Guardia Vieja, e apareceram umas empregadas grandes e gordas, diz minha mãe, que lhes ofereceram porotos granados servidos à francesa. Uma empregada segurou a bandeja esperando que minha mãe fizesse alguma coisa, mas minha mãe não soube o que fazer. Não seja caipira, alfinetou Tati, meta a concha na travessa.

Minha mãe continuou sendo sua amiga quando as duas iniciaram os estudos de medicina na Universidade de Concepción.

Deve ter sido uma época tão feliz para minha mãe, que nem mesmo o devastador terremoto de 1960 estragou sua lembrança. Essa lembrança que minha mãe não tem, pois naquela mesma manhã tinha ido a Santiago para ver a mãe dela, que agora morava com um escritor antiquado.

Então, sua lembrança do pior terremoto da história do Chile é o relato das vinte e poucas colegas que dividiam com ela a antiga casa universitária. As vinte e poucas passaram juntas os dez minutos de um abalo que, no epicentro, quinhentos quilômetros ao sul, registrou 9,5. Juntas, vivenciaram o maremoto que inundou a costa naquele mesmo domingo depois do almoço. Juntas, a morte de milhares de sulistas que saíram para catar mariscos enquanto a água recuava para formar uma onda de oito metros. Juntas, o desabamento da rodovia Pan-americana e da imponente escadaria da casa onde moravam. Juntas, ficaram presas no último andar.

Beatriz Allende foi resgatada de avião naquela noite ou na seguinte, minha mãe hesita. O que ela lembra bem é que Tati lhe contou que, lá de cima, o sul parecia submerso em uma nuvem.

Do pai de sua amiga, que foi presidente do Senado nos anos de Concepción, minha mãe costuma falar bem pouco, mas quando se lembra dele, conta que ele voltava de suas visitas a minas e acampamentos, trocava de roupa e se vestia como um lorde. Conta que uma vez foi a um coquetel na casa de uma amante que Allende tinha no sul, e que ela, minha mãe, se viu cercada de gente que mal conhecia. Conta que foi surpreendida por um garçom vestido de branco com canapés cobertos com geleia de amora. Conta que enfiou o canapé na boca e a amora tinha um gosto mais salgado do que doce, mais marinho do que frutado, mas, vendo que os outros devoravam aqueles canapés, minha mãe pegou mais um e engoliu, para dissimular. Conta que não falou nada aquele dia nem nos dias seguintes, quando descobriu que eram canapés de um caríssimo caviar que minha mãe não conhecia nem de nome.

Esse sinal passou despercebido entre as crianças que ainda éramos, mas não entre nossos pais

Minha mãe: quando voltaram a Santiago para fazer residência, Beatriz foi com os estudantes de esquerda para um mesmo hospital e a convidou para ir com eles. Minha mãe se negou. Minha mãe disse a ela que aquele não era o seu caminho. Beatriz achava que aquele era o único caminho.

Minha mãe não votou no pai de sua amiga nas eleições presidenciais de 1970, que Allende venceu. Sua amiga, filha de médico, deixou a prática da medicina e se tornou a mais fervorosa assessora de seu pai, sua conselheira mais intrépida, a intermediária entre o governo socialista e o Movimento da Esquerda Revolucionária.

Sua amiga deixara de ser sua amiga. Casou-se com um diplomata cubano e, em 1973, depois de fugir de um La Moneda em chamas, depois de ficar sabendo do suposto suicídio do pai, exilou-se em Havana. Que Beatriz não suportou a morte daquele pai que ela adorava, que não suportou ir embora do Chile, que não suportou que arrancassem os filhos dela são coisas que minha mãe afirma sem titubear. Que ela acabou muito mal. Que tinha 35 anos quando se suicidou.

A morte de um pai era uma ideia insuportável para qualquer pessoa. Não para minha mãe, que não conhecia o seu.

***

Esse sinal passou despercebido entre as crianças de oito anos que ainda éramos, mas não entre nossos pais, não entre os reitores e os professores e os adultos do Chile: a descoberta de executados que, no fim, já não eram conjecturas.

Um homem que procurava seu filho pelas montanhas estreitas ao redor da capital se deparou com antigos fornos de cal abandonados em Lonquén, e enfiou a cabeça em uma de suas chaminés e ficou estupefato. Havia corpos com as mãos amarradas e ainda tinham um pouco de pele e de cabelo nas cabeças e até mesmo roupa, apesar de rota. Ele não sabia quantos eram, embora depois fossem contados quinze. Nenhum correspondia ao filho do homem.

Esse homem faria uma denúncia anônima à Vicaría de la Solidaridad.

Essa denúncia permitiria abrir uma investigação. Essa investigação fraturaria o discurso das conjecturas até então defendido pelo regime.

E essa fratura seria aprofundada por uma juíza substituta, a única que ousou se enfiar no forno por uma brecha, a única, magra como era, a rastejar entre as ossadas, a única a descrever e explicar antes que dezenas de trabalhadores do Emprego Mínimo pegassem pás, enxadas e picaretas, antes também que começassem as escavações, antes que chegassem os peritos e os restos mortais fossem destinados ao Instituto Médico Legal para seu reconhecimento e ela tivesse de deixar sua função no caso.

Na saída de um dos tantos interrogatórios, um camponês declarou ao telejornal (que não assistimos), num castelhano nervoso (que não escutamos), uma frase (que conhecíamos bem, porque vivíamos nela): Num sei de nada, nunca soube de nada, num sô sabedor de nada.

Isso de não saber de nada, de não querer saber, cobria o país como um escudo e como o privilégio de ter sabido mas preferido não saber. (Tradução Mariana Sanchez)

Nota da redação
Trecho de Señales de nosotros (Sinais de nós), recém-lançado no Chile pela Alquimia Ediciones e inédito no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Lina Meruane

Escritora e professora de Literatura, é autora de Tornar-se Palestina (Relicário) e Señales de nosotros (Alquimia Ediciones).

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.