Literatura brasileira,

Portas abertas

Eliana Alves Cruz revela a intimidade de mulheres e crianças negras que vivem em quartos de despejo

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

Todo quarto de empregada é próximo à grande lixeira da casa, porque está sempre no fundo do profundo do imóvel. Nós, os “quartinhos”, estamos sempre perto dos odores da vida das pessoas que não nos habitam. Perfume francês, patê de fígado de pato, vinho caro, trufas, papel higiênico, absorventes, suor. Quase tudo era deles.

Sankofa é um conceito originário de povos da África Ocidental, imageticamente representado como um pássaro mítico que voa para a frente, tem a cabeça voltada para trás e carrega no seu bico um ovo (o futuro). Sankofa, portanto, aponta para o retorno às raízes como possibilidade de avançar no destino individual e coletivo dos povos negros, já que ambos são complementares nesse universo de representações.


Solitária, quarto romance de Eliana Alves Cruz

Tal pássaro é a expressão da sabedoria daqueles capazes de compreender que a chave desveladora do passado é necessária para a apreensão do presente que torna possível a modulação de futuros. Essa mesma teia filosófica está presente na narrativa de Solitária, quarto romance de Eliana Alves Cruz, no qual a sabedoria ancestral aponta para possibilidades de futuros de liberdade e criação capazes de destruir correntes atuais e históricas.

Cinco anos depois de sua estreia como romancista com o premiado Água de barrela, lançado pela editora Malê em 2016, a escritora e jornalista carioca segue perseguindo com afinco sua proposta político-literária de narrar a vida das mulheres negras a partir de suas próprias vozes. Seu novo romance é herdeiro quase direto de uma tradição inaugurada no Brasil por Lenira Maria de Carvalho, com Só a gente que vive é que sabe: depoimento de uma doméstica e por Francisca Souza da Silva, em Ai de vós!: diário de uma doméstica, ambos publicados no início dos anos 80.

A escritora toma impulso na memória da escravidão para aterrissar com força e precisão no tempo presente

Em Solitária, Eliana Alves Cruz retrata a história de Eunice, empregada doméstica, e sua filha Mabel na rotina diária de pequenas humilhações que ambas enfrentam enquanto ocupantes do quartinho dos fundos da luxuosa cobertura dos patrões e sua luta por romper com padrões de submissão.

Ao desvelar a persistência das marcas de um passado escravocrata de um país fundado no racismo e denunciar a falta de originalidade dos novos nomes e arquiteturas que conectam o trabalho doméstico remunerado exercido por mulheres negras às senzalas e ao sistema escravista de outrora, o que a escritora faz é tomar impulso na memória da escravidão para aterrissar com precisão e força na atualidade dos tempos presentes, onde as questões raciais estão postas nos marcadores de cor. Mais que isso, ao dar voz à história dos quartos de despejo e seus passantes, Eliana Alves Cruz nos faz um enorme favor: nos brinda com aulas necessárias — a todos nós — de letramento racial.

É curioso reparar como algumas pessoas nesse mundo não têm direito à meninice. Quando ainda mal se sustentam em cima das pernas, são vistas como adultas; enquanto outras serão para sempre garotos e garotas. Em geral as primeiras frequentam quartinhos como eu.

Capítulos da história

Dividido em três partes e escrito como um diário compartilhado, o romance nos revela um olhar atento e de denúncia sobre o trabalho doméstico, tanto do ponto de vista da empregada quanto de sua filha e do quartinho de paredes espremidas que as personagens ocupam. Uma história — coletiva — que poderia caber perfeitamente na biografia de mais de vinte por cento das mulheres que trabalham no Brasil. 

Eliana Alves Cruz em entrevista sobre ‘Solitária

A própria obra, ainda que ficcional, é dedicada à memória da tia-bisavó da autora que, em sua história factual, foi mandada — como tantas até hoje — para trabalhar na casa de uma família branca em Salvador antes mesmo do desabrochar da vida adulta, e de onde jamais retornou: “Para minha tia Maria da Glória, a Dodó, cujo rosto nunca vi e de quem apenas sei que o trabalho nunca a libertou”. O título do livro, segundo a autora contou em entrevista à Quatro Cinco Um na época do lançamento, “veio de um sentimento de solidão, de não pertencimento dessas pessoas, que não moram nem no prédio nem na casa delas” e também faz conexão com os espaços de encarceramento — onde a presença negra também se faz sentida —, “a solitária é um lugar para a pessoa ser completamente apartada da sociedade, porque, sim, a gente vive num apartheid”, afirma a autora.

Não há paz enquanto se habita o tumultuado quarto de despejo — seja ele real, seja metafórico. O silêncio da solitária é um estrondo, uma trovoada de desespero que não para de soar na cabeça e na alma.

Para aqueles que creem ser impossível passar indiferente pelos duros relatos de Carolina Maria de Jesus em Quarto de despejo, lançado em 1960, ou pelos da antilhana Françoise Ega, em Cartas a uma negra, traduzido no ano passado pela Todavia, Solitária, marcado por uma forte intertextualidade com essas obras, é incontornável. Ainda que divergentes em suas intenções — uma extraindo de suas memórias histórias pessoais, a outra, ficcionando a partir de fatos coletivos e históricos — essas obras compartilham entre si o mérito de revelar a realidade de parcela significativa da população cuja singularidade pouco aprazível, marcada pela violência e exclusão, causa até hoje enorme perplexidade.

Acompanhei cheio de orgulho e emoção quando Mabel começou a ensinar a Eunice algumas coisas (…) Um dia Eunice leu em voz alta para Mabel um trecho que me deixou constrangido: “…2 de novembro. A coisa que eu tenho pavor é de entrar no quartinho onde durmo, porque é muito apertado. Para varrer o quarto preciso desarmar a cama…”. Elas pararam a leitura do dia nesse ponto porque Eunice molhou as páginas daquele livro, ‘Quarto de despejo’, com seu pranto.
O quarto de descanso é todo aquele que tem o cheiro da nossa própria vida.

Das muitas temáticas apresentadas no romance — pandemia, ascensão do governo Bolsonaro, aborto, direitos trabalhistas —, o fio condutor é, antes de tudo, a reflexão sobre as infâncias negadas às crianças negras trancafiadas em quartinhos de despejo. Esse tema, que atravessa obras anteriores da autora, como O crime do cais do Valongo, em Solitária rememora o menino Miguel Otávio Santana da Silva, de cinco anos, filho da empregada doméstica Mirtes Renata Santana de Souza. Miguel Otávio morreu ao cair de um prédio de luxo na cidade de Recife em 2020, e faria oito anos em 17 de novembro deste ano.

Aos que gostam de acusar de panfletárias e datadas as escrevivências (tomando de empréstimo a expressão de Conceição Evaristo) das mulheres negras, digo: Eliana Alves Cruz é absurdamente necessária e, felizmente, contemporânea.

Hoje fico com pena do sacrifício que era se tornar invisível. Além dos espaços apertados que ocupávamos, o silêncio era um companheiro. Era preciso estar presente sem estar. Uma boa serviçal é silenciosa, e a criança que é filha dessa mulher também deve ser. Ela não pode rir como uma criança. Ela não é uma criança. É um incômodo, alguém apenas tolerado… Era como dizia num dos livros de uma escritora chamada Conceição Evaristo, que Mabel passou a devorar e de vez em quando lia para mim: “Em boca fechada não entra mosquito, mas não cabem risos e sorrisos”.

Misto de ficção com relatos reais mostra a desigualdade nos trajetos cotidianos de empregadas domésticas

 

Quem escreveu esse texto

Munah Malek

É socióloga e mestre em história.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.