Alimentação, Literatura,

Elogio do mate

Ritual que une argentinos, uruguaios, paraguaios e sulistas brasileiros, o chimarrão se torna um símbolo de resistência e identidade cultural

15nov2018

Aquela mulher não tinha nada que se meter com o mate. Os argentinos aceitam todo tipo de crítica e desqualificação — desde que não mexam com o mate! Por isso, faz algumas semanas, o desplante daquela mulher agitou as redes sociais como há muito não se via.

Cinthia Solange Dhers é uma cirurgiã de 53 anos que mandou um áudio no WhatsApp para uma amiga, reclamando dos vizinhos do seu novo apartamento em Nordelta, condomínio pretensioso da Grande Buenos Aires. Disse que eram “animais sem educação, que gritam e tomam mate como se estivessem na praia de Bristol, em Mar del Plata”. E falam alto, andam com cachorros sem coleira, contrariam sua “estética moral”. O áudio caiu na rede e imediatamente viralizou: em poucos dias, foi ouvido, ridicularizado e condenado por milhões de argentinos.

A reação foi avassaladora. Se alguém dizia que não é certo escutar e discutir uma mensagem privada do WhatsApp, ninguém dava ouvidos: a matilha partiu para o ataque em massa. A intolerância foi a arma mais usada contra a intolerância, a desqualificação contra a desqualificação, e de repente o famoso fosso argentino deixou de ser político para se tornar social: o que se discutia já não eram as posições partidárias, e sim os hábitos pessoais, as práticas culturais, o pertencimento econômico.

Nada teria sido tão grave se a tal senhora não tivesse atacado nossa idiossincrasia: somos, antes de mais nada, tomadores de mate. Mas ela a atacou, e várias organizações não demoraram a convocar mateadas multitudinárias nos locais ultrajados; milhares de pessoas se somaram às manifestações com fervor justiceiro, vingador. E a tal senhora, agora resumida ao rótulo de “A Fresca do Nordelta”, foi transformada na vítima que propiciou a grande cerimônia com que consagramos a santidade do mate.

O mate é um fenômeno estranho. Tem uma história de milênios no sul da América do Sul: era tomado por aqueles índios guaranis que depois os jesuítas puseram para trabalhar em suas lavouras. Difundiu-se pela região: Argentina, Paraguai, Uruguai, sul do Brasil, e parou por aí. Restam no mundo pouquíssimas comidas — e pouquíssimos costumes — locais. O lema agora é globalização ou morte: tudo o que não se globaliza desmancha no ar dos tempos.

A globalização é, acima de tudo, o processo de unificação cultural mais extraordinário que a história já registrou. De um tempo para cá, todos ouvimos a mesma música, bebemos as mesmas águas com bolhas, comemos os mesmos discos de carne moída enfiados no meio de um pão mole, vestimos a mesma esquisita invenção germânica feita de dois tubos de tecido unidos numa das pontas. Por isso é tão extraordinário que uma pequena tribo conserve um ritual que ninguém mais pratica. Nós, habitantes da bacia do rio Paraná, gostamos de chupar um canudo de metal quentinho para que a água que derramamos numa cabaça oca saia com o gosto de uma erva que colocamos dentro dela: um líquido amargo que ninguém mais entende, um rito de compartilhamento que ninguém mais compartilha.

O mate é um daqueles raros hábitos que contrariam a lógica capitalista: não se espalha nem morre, muito pelo contrário. Claro que já tentaram vendê-lo para o mundo. A erva-mate tem tudo o que, hoje em dia, um produto precisa para criar seu mito: uma história aborígine, uma origem remota e natural, propriedades orgânicas, uma aura de mistério, o gosto transgressor. Mas nunca pegou: talvez por causa do sabor, difícil de assimilar, ou do consumo em grupo — a mesma bomba para todos —, que dá nojinho em muita gente. Nem por isso parou de crescer nos seus territórios.

Praga

Na Argentina, o mate se difundiu muito nas últimas décadas. Há meio século, só era consumido pelos pobres das cidades e pela gente do campo. Num romance quase desconhecido sobre os anos 1930, chamado Todo por la patria, um aristocrata argentino diz — desculpem — que “o mate é uma praga, uma verdadeira praga. E há quem pretenda elevar semelhante beberagem a bebida nacional. Meu Deus, imaginem que nação vamos construir com uma bebida como essa!”. Agora, ao contrário, ele está presente em todas as casas, em todos os escritórios, em todas as classes. Outro dia me perguntaram qual era a maior mudança a que eu tinha assistido nos meus quarenta anos de jornalismo, e respondi o seguinte: quando comecei, todos os jornalistas guardavam, na terceira gaveta de sua mesa, uma garrafinha de genebra; agora, todos guardam erva-mate e uma garrafa térmica.

O mate se impôs em todos os setores: hoje é tomado por pobres e ricos. A principal diferença é que uns o tomam em público, e outros, em privado. Às vezes os mais pobres colocam açúcar, para que “encha mais”. E a aceitação pelos mais ricos, de maneira geral, faz parte de uma “plebeização” mais ampla dos seus costumes: se, trinta anos atrás, ao vibrar com o futebol, dançar cúmbia ou tomar mate os ricos viam-se condenados a ficar out na cena social, eles foram adotando esses hábitos e agora os praticam como quem se apodera. Mas, claro, tudo dentro de uma ordem, que, segundo aquela enfezada senhora, os vizinhos do Nordelta quebraram, transformando o ritual adequado numa breguice rampeira.

Mesmo assim, o ataque contra ela foi exagerado e evidenciou a força desse lugar-comum, o mate. O amargor da erva, o calor da bomba, o barulho ao sugar e o costume de compartilhar fazem dele fonte de aconchego. E fonte de saudade: há poucas coisas mais reconfortantes, para o rio-platense distante, do que encontrar, lá longe, alguém que o convide a tomar um mate, que o identifique. Tanto que preferimos nem lembrar que, na província de Misiones, de onde vêm 60% da erva-mate produzida no mundo (770 mil toneladas por ano), os “tarefeiros”, peões responsáveis por sua colheita, costumam começar a trabalhar aos quatro anos, não vão à escola, não têm acesso a água encanada nem esgoto, cumprem jornada de doze horas sob o sol, vivem na pobreza, morrem jovens.

O mate define aqueles que o tomam: somos poucos, cheios de caprichos e nos permitimos essa pequena diferença. Mas ele também nos reúne e recoloca: diante do mate, tanto faz ser argentino, gaúcho, paraguaio ou uruguaio. É curioso quando um ritual velho ignora fronteiras novas. É curioso quando uma identidade cultural sofre um ataque: não se entrega, revida, se defende. A Argentina, que suportou e suporta tanta coisa, não permitiu que uma senhora pretensiosa menosprezasse o mate.

Quem escreveu esse texto

Martín Caparrós

Ganhou o Prêmio Maria Moors Cabot de 2017 e é autor do romance Los Living (Anagrama).