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As professoras que me formaram

Professor de filosofia relembra as docentes que marcaram a trajetória da sua vida

01ago2019

No Diário Oficial do Estado de 10 de janeiro de 1941, lá está seu nome, Nair Borba de Lima Vessicchio, classificada em quarto lugar entre centenas de aprovados (havia alguns homens também) para o magistério. Devia ter dezessete ou dezoito anos, idade em que se formavam as alunas do Normal, que depois iam lecionar — geralmente — nas escolas primárias do estado. Não sei se era casada ou solteira, mas sempre me lembro desse nome. Pela qualidade que mostrou no concurso, deve ter passado na primeira tentativa, antes mesmo da maioridade, que então se conseguia em sua totalidade aos 21 anos.

Na Folha de S.Paulo, em 2 de março de 2004, encontrei o anúncio da missa de sétimo dia de sua morte. Só agora, escrevendo sobre ela, é que descobri a data em que morreu — e lastimei nunca mais tê-la encontrado, desde que me formei no Grupo Escolar César Martinez, em São Paulo, décadas atrás. Pior ainda, porque um dia me ligou, nos anos 1980 ou 1990, perguntou se eu era mesmo seu antigo e querido aluno, e ficamos de nos ver. Falhei miseravelmente.

Entre as professoras mais marcantes, a única que consegui rever, passados os anos, com ela já bastante esquecida das coisas, foi Madame Baudet, hoje usando o nome de solteira, Jany Eyt. Visitei-a dois anos atrás, na Ville-d’Avray, perto de Paris: ela me deu aula na Aliança Francesa. Quando a vi pela última vez,  já era presidente da Aliança Francesa de São Paulo e convidei-a para almoçar. Foi difícil chegar a sua casa: era domingo, não circulavam ônibus em seu bairro, então fui de metrô e voltei de trem. Na ida, sozinho, e na volta, acompanhado por ela, atravessei a floresta — uma floresta limpa, francesa, sem lobos nem ameaças — que separava sua casa da estação.

Aprendi com ela, tanto quanto na Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), o que era a “explication de texte”, a leitura rigorosa, especialidade francesa, com a diferença de que na Filosofia eu aprendia a ler conceitos e, na Aliança Francesa, lia imagens, metáforas, personagens, enredos. A escola de francês, localizada na rua General Jardim, e a rua Maria Antonia, onde então era a Faculdade de Filosofia, não eram só próximas no espaço: eram aliadas.

Lembro um dia em 1968, quando o grande linguista Roman Jakobson (1896-1982) veio dar uma conferência na faculdade. Não cabia no auditório a multidão que queria ouvi-lo. Madame Baudet e seu marido ofereceram o teatro da Aliança. Centenas de pessoas andaram os cinco quarteirões que separavam um lugar do outro. A ditadura proibira passeatas e manifestações, e eu pensava, entre orgulhoso e receoso: “E se a repressão confundisse essa marcha do saber, do conhecimento, com uma marcha de protesto, uma marcha pela democracia, e nos reprimisse?”. No fundo, não havia diferença entre uma e outra.

Se meu eventual leitor me permite uma recomendação, é que veja e reveja quem o formou; não deixe a voragem do tempo chegar ao momento em que nunca mais poderá encontrá novamente essas pessoas. Porque será triste essa impossibilidade definitiva. 

Crença nos livros

Dona Nair foi minha primeira professora. Lembro-me muito do seu jeito afetuoso. Gostava de mim. Penso que foi ela quem me incentivou a fazer a primeira comunhão — meus pais eram ateus ou agnósticos, e meu pai tinha sido militante trotskista e teve por padrinho de casamento Hermínio Sacchetta, que foi até Araçatuba para testemunhar o matrimônio do jornalista Benedicto Ribeiro e da professora Maria Therezinha Guimarães Janine. Sacchetta foi um grande jornalista, possivelmente o líder trotskista mais influente do estado de São Paulo.

Mas estou desviando. Meus pais não se opuseram à primeira comunhão. Na verdade, é a lembrança mais forte que tenho de todo o primeiro ano: o jejum desde a véspera; a confissão ao anoitecer do sábado; o terror que senti quando, na volta para casa, me irritei com um coleguinha e temi comungar com um pecado inconfesso pesando na consciência — o que, talvez, me levaria ao inferno —; a missa matutina; os meninos com terninho e gravata; e, depois da comunhão, um lauto café da manhã na igreja do Largo Nossa Senhora Aparecida, e à tarde uma procissão interminável pela avenida Indianópolis. Tudo inconcebível hoje, quando não creio mais haver um jejum assim longo, o terror sumiu da Igreja e seria raro fechar uma avenida para rezar o terço.

O terror: uma das catequistas nos disse, durante a preparação para a comunhão, que se olhássemos para trás veríamos o diabo. Claro que olhei, e claro que não vi. O terror convertido em esperança: ela também avisou que Deus estava tão desgostoso do mundo que ia mandar uma noite que durasse setenta horas. Pensei: que bom, três dias sem aulas. E no entanto, se não foi dona Nair quem me alfabetizou, ela me deixou com um gosto pela escola que nunca perdi.

Ler os livros de Machado de Assis na infância, além de me dar gosto pela boa literatura, fez-me enxergar o mundo com olhos do século 19

Porque minha mãe também era professora, tanto de grupo escolar, onde creio que nunca lecionou, como de piano, de que dava aulas particulares. Tentou me introduzir à música, mas, depois de um tempo, desistiu: deve ter percebido que eu era irrecuperável para a música (anos depois, no Canto Orfeônico do ginásio, dona Nancy encontrou uma desculpa gentilíssima para me dispensar do coral: em vez de dizer que eu não tinha ritmo ou melodia, falou que eu estava mudando a voz. Admiro, mais que invejo, quem canta como pássaro). Minha mãe me ensinou a ler e escrever aos seis anos e isso foi um corte na minha vida: parei de brincar com os amigos da rua, não largava os livros que havia em casa.

Tínhamos a coleção Jackson das obras de Machado de Assis, todas na “orthographia” antiga, e por isso nunca tive dificuldades com os “ph”. Nem “phthysica” — hoje “tísica” — me assustava. Ler Machado na infância, além de me dar gosto pela boa literatura, fez-me enxergar o mundo com olhos do século 19, época em que os casamentos eram por conveniência. Pensava que isso devia acabar, quando na verdade já havia acabado: um descompasso entre o mundo que vivia e o que eu lia. Acreditei, sinceramente, nos livros. Pensava que Machado falava dos tempos atuais, os de minha infância. Lia livros de cem anos de idade como se falassem do presente. Deveria ter acreditado menos no papel escrito. Essa distância entre a página e a vida me marcaria para sempre. Ainda hoje me pesa. 

O latim e a matemática

Uns anos depois, estudamos latim e português. Foi logo antes da primeira Lei de Diretrizes e Bases. Tínhamos um monte de disciplinas, desde o começo do ginásio. As duas matérias eram lecionadas no Ginásio Alberto Levy por dona Lia — por extenso, Anna Lia de Almeida Prado, que seria professora de grego na USP e cujo irmão era professor de filosofia. Foi durante um ano só, porque logo veio a lei que tirou o latim do ginásio, mas voltei a ser aluno de dona Lia por mais três anos no clássico, uma das grandes áreas do ensino secundário da época.

Latim não era fácil. Não tem preposição, mas declinações. Portanto, é a terminação variável do substantivo (e do adjetivo) que define sua função na frase, se é sujeito, objeto, adjunto adverbial… Isso dá ao latim uma concisão extraordinária e a possibilidade ou dificuldade de colocar o sujeito, o objeto, o adjunto em qualquer posição na frase. Estamos acostumados a ter o sujeito, depois o verbo, depois os objetos; em latim, eles podem estar em qualquer lugar. Isso, que leva às maravilhosas poesias de Catulo, se tornava um tormento quando tínhamos que entendê-las ou traduzi-las.

Dizia-se na época que quem ia bem em latim tinha ótimas notas em matemática. Creio que a lógica também se socorria do latim. Acreditavam nossos professores, e acreditávamos nós, que havia afinidades eletivas escondidas entre as matérias, como esse parentesco nada óbvio do latim com a matemática. Alguns anos depois, tiraram o latim da escola por achá-lo inútil. Talvez, por isso, hoje, tenham decaído as notas em matemática e capacidade lógica. Quem sabe, com o latim, os alunos de engenharia não debandariam tanto no primeiro ano, ao verem que não trouxeram do ensino médio uma matemática decente. Certamente essa ideia não ocorre a nenhum educador atual, pelo menos aqui no Brasil. Devem achar isso uma loucura mansa. 

Filosofia de vida

No clássico conheci a professora mais famosa que tive, Marilena Chaui, que, com 23 anos, apenas oito anos mais velha do que os alunos do primeiro ano, debutava como professora. Impressionava. Mas penso que ela não se impressionou muito com a classe. Depois da primeira prova, decidiu ditar as aulas. Explicava e depois ditava, para ter certeza de que não erraríamos mais… Penso que, de todas as professoras que tive, Marilena foi a que sentiu mais o seu ofício como um desafio. Com todos os seus méritos, dona Nair e dona Lia lecionavam matérias que não despertavam tantos problemas. A didática das línguas estava bastante consolidada.

Lecionar filosofia era outra coisa. Na época, recém-formada em filosofia na USP, escrevendo seu mestrado sobre Merleau-Ponty, Marilena vinha de um dos poucos grupos que não viam a filosofia pela lente do tomismo ou da política conservadora. Era essa a característica distintiva da usp, embora houvesse pelo menos outro grupo excelente de filosofia no país: na época, Gerd Bornheim e Ernildo Stein, que depois se tornariam queridos amigos meus, já lecionavam na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Pois se ensinar filosofia na universidade já exigia muito, imaginem lecionar na escola — numa época em que o ensino público era muito bom, antes que a ditadura o demolisse. Tive colegas ótimos, como Alice Prado de Carvalho, que se tornaria artista; Olivia Löwenthal, que virou arquiteta, ambas no ginásio, e antes delas, desde o grupo escolar, Esper Cavalheiro, um dos grandes cientistas brasileiros, que foi presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e com quem trabalhei, em 2018, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde ele fez sua carreira enquanto eu seguia a minha na usp. O que fizemos na vida, o que conseguimos, devemos à escola pública.

Por sinal, lecionar filosofia no ensino médio continua sendo a coisa mais difícil de todas. Talvez apenas seja comparável a ensinar química — isso porque química é a menos analógica das ciências que os jovens aprendem. Com a matemática, a física e a biologia, o bom senso ajuda. Olhar uma figura na física, um corpo na biologia, comparar grandezas na matemática ajuda você a decifrá-las. Mas a química é opaca, não tem analogias. Já a filosofia abre inúmeros itinerários. O mais fácil talvez seja o da história da filosofia, mas não sei se é o melhor. Provavelmente o caminho mais bem-sucedido seja tratar de temas: ética, teoria política e lógica, aproximando-os da vida dos alunos.

No segundo ano do clássico, Marilena nos mandou fazer seminários. Escolhi  falar sobre o tema da justiça, ela me recomendou um diálogo de Platão, que li na Biblioteca Municipal, e Assim falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, que meus pais tinham. Nunca reli Zaratustra, mas seu efeito em mim foi fulminante. Fez-me contestar tudo em que antes acreditava. Fez-me pensar. Digamos que me tirou do sono dogmático e me introduziu na dúvida sem método. Foi quando desisti de minha aspiração a ir para a Faculdade de Direito e me decidi pela filosofia: em vez de aplicar a lei, resolvi contestá-la. 

Se ensinar filosofia na universidade já exigia muito, imaginem lecionar na escola — em uma época em que o ensino público era muito bom

Antes de sair do Alberto Levy, quero contar uma história. Era a época dos festivais de música popular brasileira da TV Record. Na edição de 1966, a obra-prima “Disparada”, de Geraldo Vandré, e “A banda”, de Chico Buarque — terna mas aquém do que ele construiria pela frente —, estavam entre as finalistas. A juventude, a arte e mesmo os setores progressistas (que a gente, muito jovem, pouco conhecia) se dividiram. Provavelmente, aquele festival foi o mais importante, tais as paixões que despertou.

Em uma solenidade informal no colégio, creio que só os alunos do clássico ouviram Marilena dizer a dona Lia: “Há uma dialética entre ‘Disparada’ e ‘A banda’.” Entendemos mais ou menos, mas o que nos fez rir foi ver outra professora, limitada intelectualmente, fazer uma cara de absoluta incompreensão. Ah, a diversão do aluno quando se acha mais inteligente que o professor… 

Agora me pergunto qual seria essa dialética. “A banda” começa com um momento banal, nem bom nem mau, que é transformado graças a uma banda que passa “cantando coisas de amor” (sustentei num artigo sobre a utopia lírica de Chico Buarque que, para ele, amor e samba são sinônimos de uma transformação social intensa e justíssima). E depois vem a decepção: saiu-se do banal para o extraordinário e, daí, para a depressão (“em cada canto, uma dor”). Já “Disparada” é bem-sucedida em sua ambição: uma canção épica como poucas. O cantor, em vez de “estar à toa na vida”, como em “A banda”, pede que o ouvinte “prepare o seu coração” e narra uma trajetória em que viu “a morte sem chorar”, percebendo que “a morte, o destino, tudo estava fora de lugar” e que sua missão era “consertar”. Uma obra-prima que Vandré, infelizmente, jamais conseguiria superar. Entre as duas músicas, como chamávamos o que hoje são denominadas canções, há oposições inúmeras.

Preciso perguntar um dia a Marilena qual era, exatamente, a dialética entre elas. Por sinal, anos depois, ouvi-a prometer escrever sobre Agatha Christie, que teria, segundo ela, quatro diferentes teorias do crime. É uma paixão minha e que foi de  Bento Prado. Filósofos parecem adorar o romance policial. Talvez porque o oficio mais próximo do filósofo seja o do detetive — não por acaso chamado, especialmente em Portugal, de investigador. 

Paixões estranhas

Era quase inevitável, a partir dessa trajetória, ir parar na Universidade de São Paulo, onde conheci dona Gilda de Mello e Souza, casada com um crítico literário renomado e mãe de três mulheres que são mestras na escrita de ficção e não ficção. Ela tinha uma certa timidez; um dia, estava com dois cigarros acesos, um em cada mão; mesmo sendo a decana do Departamento de Filosofia, dona Gilda se dizia alguém de fora, “eu não sou do departamento” — seu doutorado fora em sociologia; seu assunto era a arte.

Em 1969, quando a ditadura cassou os dois professores que se revezavam na chefia e levou outros ao exílio, dona Gilda assumiu a chefia do departamento. Sabe Deus o quanto isso lhe custou. Não era sua praia, o poder ou a gestão. Felizmente, foi ajudada pelo professor Victor Knoll. Admirável a coragem de ambos. A eles, o Departamento de Filosofia talvez deva sua sobrevivência: poderia ter sido tragado pelos círculos conservadores que havia na universidade.

Eu vibrava com as aulas de dona Gilda. Tinha, literalmente, olho para a arte. Assisti a vários cursos seus, muitas vezes junto com Jorge Coli, que era seu aluno mais próximo e, mais tarde, se destacaria como historiador da arte. A certa altura, embora estivesse empolgado desde o segundo ano com a política e com Thomas Hobbes, pensei em me dedicar ao estudo da arte. Na verdade, me interessou a figura do artista como um criador quase divino. Daí que escrevi um projeto de mestrado que não se concretizou chamado “Arte e teologia”, no qual tentaria aproximar grandes artistas, especialmente da Renascença e do Romantismo, à imagem ou concepção de Deus. (Curiosamente, quando pedi a Marilena uma carta de recomendação, a ligação estava ruim e ela inicialmente entendeu que eu trataria de ideologia, não de teologia.) 

A bem dizer, sempre tive uma queda pelos macrotemas, que demandam ler uma infinidade de documentos e conhecer um sem-número de teorias; imaginem o que é “a teologia”, mesmo restrita ao cristianismo: um universo. Ou mais tarde, já na filosofia política, quando namorei um doutorado sobre “o medo na política”, que me consumiu sete anos antes de me enquadrar num trabalho sobre Hobbes — que tinha sim “medo” no título e que foi posteriormente publicado como Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra seu tempo (Editora da UFMG), mas já não era, como quis antes, um grande tratado vinculando medo e submissão, esperança e revolução, temas que acabei, anos depois, tratando em um breve, denso e mais modesto artigo.

Voltando a dona Gilda, procurei-a com esse projeto sobre arte e teologia. Ela me aceitou — falou-me longamente dos renascentistas, em especial de Marsilio Ficino, por quem era fascinada —, e comecei por aí. Mas eu já tinha uma bolsa de estudos para a França, ganha aos meus dezoito anos ao terminar em primeiro lugar o curso de língua francesa na Universidade de Nancy. Como ninguém antes havia obtido essa bolsa sem ter diploma universitário, o consulado francês me cozinhou durante vários anos, até que, já formado, segui para Paris, onde ficaria por três anos e meio — e onde minha vida mudou. Passei para Thomas Hobbes, outra paixão estranhíssima, porque provavelmente ele jamais suscitou paixão em ninguém, mas cuja lucidez implacável me encantou. Não tive mais professores extraordinários me formando. Assisti a aulas empolgantes de Foucault e Deleuze, mas nunca mais vivi a mesma proximidade que tive com essas professoras.

Provavelmente, é esta uma das formas de passar da graduação para a pós-graduação — ou do aprendizado para a pesquisa e o ensino: o professor não é mais tão necessário, não faz tanto sentido ser aluno de alguém — ao menos, nas humanidades. Quem tem de ir à luta é você mesmo. Nas humanas, o trabalho é mais individual, mais livre do que nos cursos laboratoriais, em que equipe, equipamento e hierarquia são quase indispensáveis. Costumo dizer que, se o pesquisador de humanas brigar com todo mundo, ainda lhe restam textos de primeiríssima qualidade acessíveis hoje na internet. Não precisará de reagentes nem de máquinas de última geração. Em outras áreas, a briga pode acabar não apenas com seu emprego, mas com sua carreira, sua meta de vida. Gosto dessa liberdade das humanidades. 

Quem escreveu esse texto

Renato Janine Ribeiro

Professor titular da USP, é autor de A sociedade contra o social (Companhia das Letras).