Deslembramentos,
nunca guardei tantas costas
Na esquina, um rapaz anuncia, em sua própria alta voz, o título de um livro: ‘escritor já nasce mentiroso, venha conhecer a novidade’
16set2026 | Edição #110O almoço na aldeia estava atrasado. Como de costume. Eu acompanhava uma escritora e dois amigos. Sentámo-nos numa mesa na rua e, assim, pudémos espreitar o mundo enquanto ele acontecia.
Enquanto a comida não vem, levanto-me e vou espreitar, na rua detrás, a possibilidade improvável de encontrar um restaurante um pouco mais ágil. Nada feito. Aproveito e olho o mar. Não eram ainda cinco da tarde e nem o mar tinha adormecido. Duas mulheres, sentadas num banco da praça, bebem alegremente algo de teor alcoólico que lhes alimenta, além da voz, o olhar. Dirigem-me uma pergunta que não entendo.
— Você é daqui?
— Eu não.
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— Mas veio trabalhar?
— Sim.
— Em quê?
E é assim que por vezes o mundo nos convida, de portas abertas, a contar uma estória.
— Na realidade eu estava em busca de uma coisa impossível: um restaurante menos demorado.
— Mais fácil encontrar a felicidade — comentou a que falava menos.
Tinha razão. Mas eu já havia desistido. Aproveitava o mar por perto para saber do vento e das temperaturas nocturnas que ele poderia anunciar.
— O que você faz?
— Guardo — respondi prontamente.
Saiu-me aquilo, assim. De longe, vi a escritora sentada, bem acompanhada. Não havia pressa em voltar.
— Como assim, você guarda? Nós queremos entender o que você veio fazer aqui.
— Guardo costas. Ou corpos. Sou guarda-costas.
— De quem?… — a primeira, mais curiosa, queria saber. — Me conte tudo, sou um túmulo. Aliás, um túmulo que bebe.
E bebericou do seu vasto copo como quem poupa água. Na esquina, um rapaz anuncia, em sua própria alta voz, o título de um livro: “escritor já nasce mentiroso, venha conhecer a novidade”.
— Sou guarda-costas de uma escritora.
— Sério?? — a amiga quase se engasgava. — Mas vestido desse jeito?
De facto eu não tinha aparência alguma de guarda-costas. Nem o tamanho, nem os óculos escuros, nem mesmo a postura. Acho eu.
— Gente! Nunca conheci um guarda-costas.
A amiga era mais prudente e queria detalhes.
— Mas o que vocês fazem? Assim, você fica vigiando ela?
— Sobretudo vigio os que querem ficar demasiado perto dela.
— E você não tem medo?
— Só da morte — disse eu, mas foi a brincar.
— Você se veste assim, supernormal?
E quanto mais perguntavam, mais me davam munição. Primeiro abordei a questão estética, explicando que sempre fora meu objectivo que ninguém se apercebesse da minha ocupação. Algumas pessoas até pensavam que eu era escritor, cheguei a dizer.
Que perguntas podem gerar a mais intensa verdade ou a mais inocente mentira? O que pode um olhar à distância?
— Ah, conta aí um babado… Rola de tudo nessas festas, né? Conta pra gente. Você já viu muita coisa?
Eu queria era olhar de novo o mar. Mas olhei para a distante mesa: a escritora estava bem, em conversa, e não havia ninguém que a tivesse incomodado. Antes, numa grande fila de autógrafos, eu também tinha assumido a minha postura. Olhar atento e à distância curta, caso ela precisasse da minha intervenção.
— Não viu ou não quer contar? — a amiga fazia olhar de malícia enquanto ruidosamente terminava a bebida e cuspia pequenos pedaços de gelo para o chão, como um antigo fumador cospe fiapos de tabaco.
— Não vejo nada, não lembro de nada.
— Você nem bebe nas festas?
— Só depois das festas.
— Você deve se divertir muito. A gente se vê por aí.
Assim me dispensaram, até com algum carinho e admiração. Afastei-me devagar, exagerei ao olhar para todo lado e elas riam da minha excessiva competência.
(Por onde se passeiam as fantasias no nosso quotidiano interno? Que perguntas podem gerar a mais intensa verdade ou a mais inocente mentira? O que pode um olhar à distância?)
Voltei à mesa da escritora. Na tal aldeia. Anunciei que não tinha conseguido encontrar alternativa. Os da minha mesa anunciaram que o almoço demoraria ainda uma hora para chegar à mesa.
— Sabes o que me apetecia comer agora…? — perguntou-me baixinho a escritora sob minha proteção.
— Não faço ideia.
— Um bom caranguejo!
Matéria publicada na edição impressa #110 em setembro de 2026. Com o título “nunca guardei tantas costas”

