Estrada no sul de Angola (Jordi Burch)

Deslembramentos,

um farol chamado saudade

diz-me onde estás que eu preciso de falar contigo e ir visitar essa misteriosa pessoa que és quando os meus eus metafísicos precisam de precisão

18ago2026 • Atualizado em: 17ago2026 | Edição #109

escrevo-te e é de noite, e poderia ser triste, mas pareceu-me simplesmente belo e vou dizer: é que também sinto­-me em noite dentro de mim, numa estranha tristeza que teima em não descolar, mas não foi isso que vim dizer ou contar

vim, sim, dizer-te da surpresa que há pouco me invadiu os dedos, de eu ter pensado a quem eu neste momento, com simplicidade e vontade, escreveria uma carta simplesmente porque tudo-ao-redor-e-dentro indicava que era momento de baixar os braços e abrir o peito

e foi o teu nome que apareceu na escrita de hoje

(esta parte tu me desculpas, mas eu abro os gémeos parêntesis para dar contexto à leitora ou ao leitor que aqui me atura: Nava é uma amiga minha que vejo fisicamente poucas vezes. conheci-a em Durban, África do Sul, quando uma amiga minha sugeriu que ficássemos na casa dela. “é tua amiga mesmo?”, perguntei, para tentar entender em que casa dormiria por três noites. “sim, muito amiga. vi-a uma vez.” e era verdade. tinham conversado uma única vez partilhando, por acaso, a mesa de um restaurante em Jobeg.)

([este é o gémeo do primeiro] ficámos no apartamento dela e conversei eu mais com a Nava do que propriamente as duas muito amigas. eu nunca tinha sido assim recebido por uma pessoa que recebesse duas pessoas muito mal as conhecendo, ainda por cima sendo um angolano e a outra moçambicana. e foi assim, depois desses três dias, que algumas mensagens e conversas, curtas e em inglês, me mostraram que a Nava não era apenas uma pessoa que recebia bem desconhecidos [“faz parte da minha cultura”]; era também polícia — não sei se ainda exerce; mas era também de uma delicadeza e simplicidade que usam acompanhar os de sabedoria um pouco mais elevada. pelo menos, mais elevada que a minha. é a esta Nava, cara leitora ou leitor, a quem me apeteceu hoje escrever.)

a saudade é uma rua que nunca se cruza duas vezes do mesmo modo e nela não vivem os mesmos vizinhos ou pássaros ou flores

venho também contar-te que não poderias tu imaginar ou saber o número de vezes em que me imagino na estrada, vindo ou pela Zâmbia e depois Zimbábue, ou pela Namíbia e depois South Africa adentro, até Durban, e chegar com calma e te ligar a saber se andas por ali, bem sei que talvez não

e talvez me respondesses, “you’re crazy, my friend, I don’t live in Durban for so long”, e eu te perguntasse com calma, mas pelo menos ainda moras na África do Sul?, “yes, I do”, então diz-me onde estás que eu preciso de falar contigo

e ir, onde fosse, (não propriamente como o nosso mestre, “visitar pastores”, mas) visitar essa misteriosa pessoa que és quando os meus eus metafísicos (chamemos-lhes assim) precisam de precisão, aceitam respirar, e esses fenómenos se passam por uma rápida consulta a ti, que tão pouco me perguntas e tanto me dizes no que me respondes em vago e em vagas

teria mais para dizer, mas faz sentido que fiquemos pelo essencial. a saudade é uma rua que nunca se cruza duas vezes do mesmo modo e nela não vivem os mesmos vizinhos ou pássaros ou flores. houve coisas que soube pela tua voz e que fizeram farol em mim. no fundo, foi isso que vim dizer

e que estejas bem. e que as rãs te protejam os sonhos.  

Quem escreveu esse texto

Ondjaki

Poeta e escritor angolano, publicou Materiais para confecção de um espanador de tristezas (Pallas).

Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “um farol chamado saudade”

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