Jornalismo,
Jornalismo com emoção
De correspondente de guerra a arremessador de celular-bomba, Leão Serva rememora aventuras e uma carreira incomum
07set2026 • Atualizado em: 08set2026Quando Leão Serva debutou no jornalismo, apareceu para ele uma entidade fantasmática que perguntou ao jovem jornalista, também chamado de foca: “Você quer uma carreira com ou sem emoção?”. Escolheu “com”. Deu no que deu.
Formado em 1982, o jornalista iniciou a carreira na Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo, e logo despontou para a cúpula do jornal, onde foi secretário de redação e correspondente internacional. No grupo concorrente, de O Estado de S. Paulo, foi diretor de redação do Jornal da Tarde. Entre 2019 e 2025, foi diretor de jornalismo da TV Cultura — era ele o mediador do debate, em 2024, quando o apresentador e candidato a prefeito Luiz Datena (PSDB) desferiu uma cadeirada no adversário Pablo Marçal (PRTB).
Eventos extravagantes nunca faltaram a Serva. Como repórter, cobriu muita coisa, numa carreira aventurosa e venturosa: acompanhou Sebastião Salgado em viagens à Amazônia e foi correspondente de guerra ao longo de três décadas. Como costuma dizer, presenciou conflitos sangrentos em quatro continentes. Viu de perto os horrores da Bósnia, da Sérvia, de Moçambique, do Kuwait, da Somália e, mais recentemente, de Israel.
Nesse livro curto, com um título quase alarmista, Como se proteger de uma granada, o jornalista relata os calafrios da montanha-russa vertiginosa que desenhou sua biografia profissional. A leitura avança também com emoção. Lições de jornalismo se mesclam a rompantes e sustos, e a gente vai avançando na leitura sem respirar, graças à engenhosidade de um autor que, entre uma saga e outra, nunca desistiu de estudar.
Ao longo de três décadas, o jornalista presenciou conflitos sangrentos em quatro continentes
Estamos falando de um escritor que fez mestrado na PUC-SP, doutorado-sanduíche no Instituto Warburg, na Universidade de Londres, e, atualmente, dá aulas de jornalismo na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), enquanto desenvolve um projeto de pós-doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo. Resultado: Leão Serva, que vive seu ofício com intensa paixão, também é capaz de pensar com método e escrever com zelo.
O livro tem um pouco a vocação de thriller, mas, acima disso, cumpre um papel sutilmente reflexivo de prestação de contas. Na capa, damos de cara com a imagem do autor segurando um celular com a mão direita, um segundo antes de atirá-lo para longe, como quem joga, isso mesmo, uma granada.
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Todo mundo viu a cena em memes que circularam na internet. Foi no dia 13 de setembro de 2022, no Memorial da América Latina, em São Paulo, onde acabava de acontecer um debate entre candidatos ao governo paulista. Leão Serva tinha sido o mediador do programa. Ao final, o deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos) avançou para insultar a jornalista Vera Magalhães, enquanto filmava as reações dela com o celular. De repente, o intrépido moderador saltou para o centro da cena, arrancou o aparelho das mãos do parlamentar e o jogou bem longe. Ato reflexo, virando-se para o desconcertado ofensor, xingou-o com dois palavrões retumbantes. Desnorteado, o sujeito perguntou ao jornalista: “Por que você fez isso?”.
Esporte radical
Leão Serva escreveu o livro para responder à pergunta, e nisso faz a sua prestação de contas. Ele reconhece que não sabe exatamente por que fez o que fez. Culpa da adrenalina? Fome de justiça? Descarga pulsional? O relato revela que, poucos minutos depois, o presidente da Fundação Padre Anchieta, responsável pela TV Cultura, abraçou o lançador de celulares e confessou: “Como eu te invejo”.
Mas por que agiu daquele modo? Com efeito, ao fazer o que não deve ser feito em nenhuma hipótese, o correspondente de guerra, em sua versão apresentador de TV, conseguiu lavar a alma de todos nós, que pecamos por excesso de polidez. Um arroubo impensado, só para variar, mas justo.
A condição de quem viaja para o olho das piores escaramuças para contar o que viu talvez seja uma chave para o mistério. Há um apetite por cruzar limites, algo que nunca se sacia. Há um quê de esporte radical apocalíptico nesse trabalho que, segundo seus praticantes, vicia. Leão Serva conta que, certa vez, a possibilidade de viajar para uma zona de conflito lhe acendeu os ânimos:
Andava meio deprimido, e aquela viagem seria como a de um alcoólatra redimido que descobre que pode ir visitar uma destilaria de uísque na Escócia: meus dias se iluminaram. Passei a me lembrar da guerra 24 horas por dia. Comprei uma máquina fotográfica analógica e me preparei para a vista ao paraíso.
Voltemos então à cena constrangedora. Foi certo arrancar o celular do deputado? Não se sabe. Só o que se sabe é que foi emocionante. O anjo vulgar da holografia fantasmagórica ofereceu emoção a Leão Serva quando ele entrou nessa vida e disse sim. Dizendo sim, disse não à intimidação covarde. E, dizendo não, lançou fora a granada digital com que um deputado bolsonarista ameaçava a integridade psíquica de uma jornalista.
Aqui, vale a pergunta: por ter reagido por impulso, o arremessador de smartphones teria se convertido num opressor? Estaria ao lado dos defensores de ditaduras e da censura contra a imprensa? A resposta é negativa. Um rasgo de indignação não faz de alguém um agente do autoritarismo. Por todos os motivos, a reação foi legítima, ainda que não tenha sido bem-educada.
A caracterização nos ajuda a apontar um lapso conceitual que, de passagem, aparece no livro. Quando comenta as jornadas de 2013 deflagradas pelo Movimento Passe Livre, o autor escreve que os black blocs, integrantes das manifestações de esquerda, eram “claramente fascistas”. O juízo soa precipitado. Os black blocs não eram fascistas, nem no Brasil, nem na Europa, assim como Leão Serva, ainda que tenha incorrido num excesso, não é partidário dos que se opõem à liberdade de expressão.
De toda forma, o mínimo desvio analítico em nada empalidece o fulgor desse belo relato. Dono de uma coragem singular, o autor já provou algumas vezes que é um grande jornalista e que merece cada uma das emoções com que a carreira o presenteou. Mais ainda, merece a leitura.
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