Jornalismo,
O quinto elemento
Mano a Mano revela interesse radical de Mano Brown pelo outro e seu compromisso com a vertente mais abstrata do hip-hop: o conhecimento
25fev2026 • Atualizado em: 23mar2026 | Edição #103Costuma-se dizer que o hip-hop possui cinco elementos. Ou quatro. Ou nove, a depender da disposição de quem narra essa história. Para além dos mais amplamente reconhecidos — DJ, MC, break e grafite —, destaca-se, por seu teor mais abstrato, o conhecimento. É sobretudo por meio dele que identificamos os aspectos culturais e artísticos do hip-hop e sua dimensão política. Mais especificamente, como vertente urbana do movimento negro.
Excluídos do pacto social brasileiro, os pretos têm fome. Fome de ser, de conhecer. Lutar pela educação para emancipar seu povo é uma estratégia histórica das lutas negras, como é no hip-hop. Não por acaso, Mano Brown, um dos maiores nomes do hip-hop brasileiro, se revelou um apresentador extraordinário. Sua enorme fome de saber se evidencia na curiosidade voraz com que se coloca diante dos entrevistados, que já passam de cem.
É essa fome que sustenta e organiza o Mano a Mano, podcast apresentado por Brown e Semayat Oliveira, produzido pela Spotify Brasil e agora transformado em livro, em edição primorosa, que reúne cerca de vinte conversas selecionadas, acrescidas de comentários breves e de um prefácio inédito assinado por Brown. Em sua fome preta de saber, Mano a mano é uma manifestação do quinto elemento do hip-hop.
O interesse radical pelo olhar do outro, em diálogo com a quebrada, caracteriza também a produção artística do mais importante grupo de rap do Brasil. Fundado em 1988 por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, os Racionais MC’s são frequentemente interpretados como um grupo “à frente de seu tempo”, capaz de antecipar, a cada disco, tendências que viriam a dominar a cena do hip-hop brasileiro. Há, contudo, um mecanismo fundamental a reger essa capacidade de projetar futuros: a escuta atenta da voz coletiva das quebradas, apta a apreender a multiplicidade e a contradição dos pontos de vista.
As entrevistas compõem um mosaico de ideias em torno do qual se organiza a experiência negra no país
A imagem mais adequada para representar essa postura não é, portanto, a do artista de vanguarda que se destaca da coletividade, pairando além do seu tempo. No hip-hop, decorre de um mergulho profundo no tempo presente, tornado esteticamente possível por uma abertura radical da forma artística. Os Racionais não impõem tendências nem padrões de conduta — eles as capturam a partir de uma escuta aberta à multiplicidade contraditória do presente. Eles se tornam um grupo de rap fundamental à medida que consolidam um modelo coletivo de enunciação, no qual o eu cede lugar ao nós, na contramão dos caminhos predominantes no rap contemporâneo.
Pode-se afirmar que a mesma inclinação dialética organiza o espírito do podcast. Afinal, o que caracteriza o hip-hop é o compromisso com a quebrada em sua totalidade, não apenas com os segmentos com os quais apresentadores e produção eventualmente se identificam. Se existe uma perspectiva claramente progressista a orientar os passos do hip-hop, o que efetivamente o move é o desejo de construção coletiva de um horizonte político comum — e, não, a mera repetição da cartilha de bom comportamento do progressismo liberal.
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Diga-se de passagem: é desse desejo político que derivam algumas das decisões de pauta mais polêmicas. Sim, a quebrada bolsonarista — que é imensa — vai ter espaço no programa. Não em nome de um horizonte abstrato de neutralidade liberal, mas porque o compromisso com a quebrada é maior do que o amor ao próprio ego. Por isso, é de se lamentar a decisão editorial de excluir do livro as entrevistas com figuras negras vinculadas à direita e à extrema direita. Sugere uma mudança de postura, como se, ao migrar da voz para a letra, o pacto literário precisasse neutralizar a radicalidade do compromisso do movimento negro com a multiplicidade.
Escuta
Quando escrevi o prefácio de Sobrevivendo no inferno (Companhia das Letras, 2018), um questionamento recorrente era sobre a necessidade de se publicar um volume com as letras dos Racionais. Não seria redundante? A pergunta é interessante por si só e levanta questões, em especial as que dizem respeito à relação entre letra de música e poesia. O êxito do projeto editorial junto ao público periférico oferece uma resposta eloquente à pergunta. Ainda poderíamos, contudo, indagar: o que há de específico nos trabalhos dos Racionais para que, com frequência, sejam tidos como relevantes literariamente?
Logo no texto de introdução, Brown afirma que uma das principais motivações para a criação do podcast foi o desejo de construir um “espaço seguro” no qual pessoas negras pudessem falar livremente. Um espaço em que a dimensão epidérmica não fosse um entrave à possibilidade da escuta verdadeira. Entre outras coisas, isso significa criar um ambiente em que as contradições do nosso povo possam circular em toda a sua complexidade. O oposto, portanto, das dinâmicas beligerantes das redes sociais.
Por isso, não surpreende que Karol Conká — artista à época “odiada”, eliminada do BBB com 99% de rejeição — tenha sido a primeira convidada do programa. No Mano a Mano, Karol encontraria, enfim, um espaço em que poderia falar para além de sua cor. Não se trata de “passar pano” ou ignorar os erros, mas compreender que, em um mundo que sobrevive ao nosso extermínio, colaborar com os leões é acelerar nossa morte.
Mais que exaltação do ‘negro ideal’, o projeto oferece exemplos concretos para enfrentar o racismo
Esse princípio confere força literária ao projeto de Brown. No conjunto de entrevistas, as contradições das personagens emergem a cada página, compondo um mosaico denso e complexo da multiplicidade da experiência negra no país, que atravessa todos os espectros raciais. Esse mosaico evidencia a sagacidade tática do nosso povo nas mais variadas áreas — literatura, filosofia, música, esporte, religião e ativismos diversos —, especialmente nas formas de se posicionar e driblar o racismo.
De um lado, o pensamento em alta voltagem de figuras como Sueli Carneiro e Conceição Evaristo intensifica as tensões raciais, conduzindo Brown a um reencontro com o radicalismo que está na raiz do movimento hip-hop. De outro, figuras como Gilberto Gil, de inclinação mais liberal, tensionam a perspectiva dos entrevistadores ao apostar nas possibilidades utópicas da mestiçagem, sem, contudo, descuidar das dimensões de violência que caracterizam as relações raciais no país.
Enquanto as redes tendem a valorizar representações destituídas de complexidade e o posicionamento político é reduzido a uma espécie de horóscopo diário, a existência de um espaço textual que escape às dinâmicas autoindulgentes de celebração, ainda que honrando os grandes mestres que caminham entre nós, é um feito a se celebrar. Sobretudo em um país de matriz escravocrata, que insiste em negar à população negra o estatuto pleno de racionalidade.
Manual de guerrilha
Ao compilar experiências, conceitos, pensamentos e estratégias de sobrevivência, Mano a Mano se configura como um consistente trabalho de resgate da memória negra, capaz de construir um repertório histórico para orientar ações no presente. Mais do que exaltar de forma acrítica certo imaginário sobre o que seria ou não o “negro ideal”, o projeto oferece exemplos concretos e aplicáveis de enfrentamento do racismo, o qual, entre outras coisas, opera ativamente como uma política de esquecimento.
Mano a Mano é consistente como literatura voltada ao público em geral. Mas vai além: pode funcionar como uma espécie de manual de guerrilha para a juventude preta periférica, oferecendo um conjunto afiado de lições: não baixar a guarda, manter o pensamento incendiário, driblar o canto apaziguador das sereias, exaltar as conquistas do nosso povo, evidenciar o caráter negro de nossas vitórias, exercitar a lucidez dos diagnósticos e reconhecer as armadilhas oferecidas aos derrotados da vez.
Sobretudo, parte-se do pressuposto de que estamos em guerra e de que qualquer passo em falso representa uma ameaça de cancelamento: metafórico, para os brancos; literal, para os nossos.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “O quinto elemento”
