A FEIRA DO LIVRO 2026, Jornalismo,
Perto do fim
Camila Appel encara os tabus que cercam a morte em ensaio de preparação para a despedida da mãe
10abr2026 • Atualizado em: 24abr2026 | Edição #105Caso ficasse sabendo que morreria logo, um anúncio raro, você conseguiria nomear seu último desejo? Tende-se a supor que o derradeiro seja grandioso, mas e se for prosaico? Tão prosaico quanto devorar um pastel de feira? A protagonista de uma das histórias da jornalista Camila Appel atendeu a este pedido: traficar para um paciente terminal um pastel da feira que, toda semana, ele espreitava da janela do seu quarto de hospital.
A médica paliativista, uma das personagens entrevistadas em Enquanto você está aqui, descreve como aquilo abriu um diálogo sobre o medo do fim e outros temas profundos com o doente. Recém-lançado pela Fósforo, o livro tem o mesmo poder de inaugurar conversas de um dos maiores tabus da humanidade: a morte.
Você
O “você” do título é Maria de Lourdes Torres de Assunção, mais conhecida como a dramaturga Leilah Assumpção, mãe de Appel. Autora de peças como Fala baixo senão eu grito e Intimidade indecente, Leilah tem 84 anos, sofre as consequências de um acidente vascular e vem manifestando, segundo a filha, um interesse na morte.
Enquanto você está aqui é um ensaio da preparação da autora — que quando menina foi “uma criança apavorada com a morte” — para a despedida da mãe. Substitui o diálogo verbal pela literatura da mesma forma que a própria Leilah, em 1998, fez em seu Na palma da minha mão (Globo Livros), um compilado de pensamentos e desabafos sobre a dificuldade de comunicação suscitada pela adolescência da filha. É coerente o retorno à mesma linguagem, morte e puberdade são dois marcos inevitáveis da vida.
Entre a limpeza de gavetas e a curiosidade pelo que as religiões dizem haver depois do último suspiro, Leilah está perdendo aos poucos os sentidos, e é a ela que Appel escreve e dedica seu livro. “Percebi que foi por isso que comecei a estudar esse tema em 2014. Para me preparar para a sua morte”, escreve. “Meu filho nasceu em 2014. Eu me tornei mãe, o ciclo caminhou, veio à tona a consciência da finitude.”
Também naquele ano, em outubro, começou a publicar o blog “Morte sem tabu” na Folha de S.Paulo, inspirada pelo antropólogo norte-americano Ernest Becker (1924-1974) e seu A negação da morte (Record, 1991), vencedor do Pulitzer de 1974. Para Becker, “tudo o que o homem faz no mundo simbólico é uma tentativa de vencer e negar seu destino grotesco”. Appel explica que interditar a morte do debate gera despreparo, e este cobra um preço alto. Portanto, ela toma o rumo contrário.
Leilah Assumpção está perdendo aos poucos os sentidos, e é a ela que Appel escreve e dedica seu livro
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A organização para quando Leilah deixar de estar aqui já começou, e tem até uma equipe definida. Na escalação está o carioca Osmair Cândido, sepultador aposentado desde 2023, formado em filosofia pela universidade Mackenzie, em São Paulo. Appel conheceu Fininho, “o coveiro filósofo”, no cemitério da Penha, em 2015. A relação se estreitou e durante a pandemia de covid-19 ele enviava à amiga áudios pelo Whats-App em que narrava a brutalidade de sua rotina. Hoje, dá aulas de ética na Associação Nacional de Necrópsia e fala sobre o respeito exigido pela morte.
É Fininho quem fechará o caixão de Leilah, aprende o leitor. Para esse momento, que Appel define como o mais delicado de um velório — “a ideia de nunca mais ver aquele rosto querido pode trazer desespero” —, o coveiro aposentado tem uma técnica:
Eu tenho que fazer com que você acorde para a hora. Você está embebida pela morte. Então eu tenho que dar um toque. Eu pego e seguro a tampa do caixão, sem pressa […]. Chegar e tampar o caixão é uma grosseria, uma estupidez. Pedir também é desagradável. Agora, quando eu pego a tampa, eu mostro.
Não há morbidez nesta nem em outras confidências da autora sobre suas escolhas, apenas responsabilidade e lucidez. São os mesmos atributos que guiam a apresentação do questionário de mais de vinte perguntas que, sugere o livro, pode ser compartilhado entre as figuras de afeto mais próximas para se preparar para a morte. A investigação vai desde a opção pela cremação ou por um enterro, pela ressuscitação cardíaca ou não, até a lista de convidados para a despedida. “Tem alguém que você não gostaria que fosse ao seu funeral?”, pergunta à mãe.
É a utilidade para o outro, o altruísmo contido em sua própria exposição, o maior trunfo de Enquanto você está aqui. A autora reconhece o risco. “Você poderia pensar que estou te matando antes do tempo”, escreve, antecipando a possibilidade do julgamento não só de sua destinatária, mas do leitor. E, ciente daquilo que o jornalista Pedro Bial define como “mais divertido que macabro” na orelha do livro, ela aceita o desafio.
Distanásia
Um dos principais temas de Appel é a abordagem da morte no ambiente hospitalar. Foi acompanhando o pai numa internação, em 2021, que a autora teve contato com a história de Anita Harley, a poderosa acionista das Pernambucanas, em coma há quase dez anos. Ao investigar a paciente do quarto ao lado, vigiado por seguranças, a roteirista descobriu a disputa pelo espólio que virou tema da série O testamento: o segredo de Anita Harley (Globoplay).
Em uma cultura que não sabe acolher nem o envelhecimento nem o fim da vida, como afirma Appel, a constatação de que a prática que impera nas UTIs brasileiras é a da distanásia — palavra grega que significa “afastamento da morte” — pode ser dolorosa. Em um dos trechos mais impressionantes e delicados, ela relembra o período de internação do sogro. Antes de poder migrar para um quarto confortável, onde aguardaria pela morte com serenidade plausível, foi preciso que a família o libertasse de uma UTI repleta de fios, luzes, sondas, bipes e até mãos amarradas à cama.
A ortotanásia, por sua vez — algo como “morte certa”, também do grego —, é a meta dos médicos paliativistas. Milena Reis, a responsável pelo pastel de feira e outros tantos desejos finais de pacientes terminais (casamentos, pedidos de perdão, visitas de animais de estimação), também faz parte da equipe a ser acionada quando Leilah morrer. “Milena não consegue dizer quantas, são incontáveis as vezes que viu um paciente enrolando a morte para esperar a chegada de alguém. Morriam no dia seguinte à visita, ou até no mesmo dia”, escreve.
Outros trechos da narrativa esgarçam mais um pouco o tema com descrições gráficas de uma autópsia, falam de pontos incômodos como a necrofilia, e terminam seguidos por interlocuções como “Mãe, acho que te assustei aqui”. Os recursos de retorno à estética de carta ajudam a autora a migrar entre tópicos sem que sejam exigidas grandes explicações. É uma saída simples, flagrante, mas confortável na fluidez que confere um estilo acessível a um relato tão denso que reverbera depois de terminada a leitura.
Appel pleiteia, ainda, o cuidado com o vocabulário da morte, evitando declarações como “perder a luta para um câncer”, por exemplo, e afirmações sobre uma morte “bonita” ou “boa”. “Acho perigoso começarmos a definir a morte como algo bom ou ruim, como se fosse uma competição. O nascimento natural ou de cesárea sofre com essa distinção”, aponta.
O livro relembra uma afirmação feita pela enfermeira australiana e cuidadora de pacientes terminais Bronnie Ware, autora de Antes de partir: os cinco principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer (Geração Editorial, 2012). Para ela, o que as outras pessoas pensam sobre nós no final da vida é irrelevante, um recado importante em tempos de validações de redes sociais. Appel transmite o mesmo tom ao lembrar uma dor comum a todos que já perderam alguém, a de que o mundo não para diante do abismo da dor da perda. Nesse debate, valeria que a autora se aprofundasse mais na abordagem religiosa de cada fé. Algumas práticas do judaísmo são esmiuçadas e são uma ótima adição. Quem sabe em um segundo volume?
No posfácio, a médica Ana Claudia Quintana Arantes, autora de A morte é um dia que vale a pena viver (Sextante, 2019), afirma que a abordagem de Camila Appel devolve humanidade ao fim, algo inestimável, dado que morrer “é também a última expressão daquilo que fomos”. Para o poeta português Fernando Pessoa, citado no livro, a morte é a curva na estrada, é apenas deixar de ser visto. Já para Fininho, o sábio filósofo conhecedor dos meandros do fim, a percepção da morte não é fácil para muitos, mas o viver bem é democrático e acessível:
Acorde bem-humorado. Aproveite as delícias da vida, aquilo que você acha bom. Faça o que você gosta de fazer. Você tem que estar próximo daquilo que deseja. Nem precisa ter aquilo que deseja. Você tem a expectativa. Na vida se pode ter expectativas, nunca certezas.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Perto do fim”
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.
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