Literatura brasileira,
Melancolia realista
Em seu segundo livro de contos, escritor e crítico literário aborda, com honestidade sedutora, problemas da contemporaneidade
07set2026 • Atualizado em: 04set2026Em Mimesis, clássico de crítica e história literária, de 1946, Erich Auerbach afirma que Stendhal pôde fundar o realismo moderno porque estava perdido em meio às mudanças aceleradas que tomavam a França e a Europa desde o fim do século 18. O francês, escreve o crítico alemão, trouxe então esse sentimento de descompasso entre indivíduo e história à sua obra, que atingiu sua forma mais perfeita em O vermelho e o negro, de 1830.
No início do século 19, continua Auerbach, todos os europeus eram atingidos “muito mais rápida, mais consciente e mais uniformemente pelos mesmos pensamentos e acontecimentos”, o que permitia profetizar um tempo de “uniformização da vida dos homens sobre toda a Terra”. O crítico arremata com a sugestão de que, naqueles anos 1940, essa uniformização “já foi atingida”. Me pergunto o que ele diria da nossa vida em 2026, e o que Stendhal faria dela.
Odorico Leal, assim como seu antepassado oitocentista, também está perdido — que bom. As perguntas agora são outras, ou talvez sejam apenas diferentes versões da velha questão moderna: como trazer a realidade do nosso tempo, e a experiência que temos dela, à narrativa literária? E mais especificamente: como e o que escrever quando, ao alcance de todos nós, há ferramentas tecnológicas que escrevem quase como humanos?
Em Nostalgias canibais (Âyiné), o excelente volume de contos de 2024, Leal também lidava com problemas contemporâneos, mas conseguia guardar alguma distância reflexiva em relação a eles. O resultado foi uma prosa elegante e bem-humorada. Em Sonhos da pessoa física, o efeito é mais desconjuntado, e a melancolia, que já se via entremeada ao humor no livro anterior, agora ocupa mais espaço, ainda que Leal saiba que o tom engraçado redobra a seriedade de seus temas.
É difícil decidir se esse aspecto desconjuntado é trunfo ou problema do livro. Chegou o prazo de entregar a resenha e ainda não cheguei a uma conclusão nesta ou naquela direção. Há de fato, nas páginas, uma honestidade — até mesmo uma vulnerabilidade — muito sedutora, que nos melhores contos nos conquista totalmente e derruba a carapaça da postura intelectual escrutinadora.
É o que acontece, por exemplo, no conto central, “Luds”, do qual sai o título do livro. Fica bem claro ali que a “pessoa física” que sonha tem como contraponto não a jurídica, mas a não orgânica. Pessoa física é a animal, humana ou não: os gatos do narrador dormem “cheios de intenções, premonições, anseios inarticulados”, enquanto Vinci, um chatbot dedicado a criar imagens, quando desligado, “cessa de existir” — o que não o impede de tomar o lugar dos artistas visuais, que se veem sem função depois da evolução da inteligência artificial. (Temos o ponto de vista de Vinci em outro ótimo conto.)
O que resta de nós, proletários das artes e das ideias, quando as máquinas tomam nossas funções?
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Em “Luds”, o conto mais longo do livro, Leal mistura uma falsa história de detetive a uma história de amor e amizade traídos. O enredo duplo esconde a interpelação acerca do sentido da vida para além do trabalho formal e um (sempre bem-vindo) exame irônico das tendências da arte na contemporaneidade. A pergunta que organiza o conto é: o que resta de nós, proletários das artes e das ideias, quando as máquinas tomam nossa função — no caso do protagonista, a ilustração de quadrinhos — e recebemos uma bolsa para sobreviver?
Jogos
As questões principais do livro — tanto temáticas quanto formais — estão contidas ali, e são ótimas e urgentes: o domínio da inteligência artificial e seus efeitos, sim, mas também a relação entre trabalho e subjetividade, o lugar da arte e da criatividade neste século, a pergunta sobre como narrar e, não menos ótima e urgente, a investigação sobre questões masculinas — sobretudo a amizade entre homens e a perplexidade a respeito do que move o desejo das mulheres.
As duas últimas — a questão metaliterária e a de gênero — aparecem em “Luds” como forma e como tema: Leal faz uma homenagem à literatura de autores latino-americanos como Ricardo Piglia ao estruturar o conto a partir de um assassinato a ser desvendado, que serve de pretexto para outros problemas. Há ainda o herói de uma hq chamado dr. Macedônio, que volta como personagem lateral de outro conto. Mas “Luds” também ecoa, intencionalmente ou não, a ficção científica engraçado-melancólica de Kurt Vonnegut, mais até do que a de Bioy Casares, referência mais óbvia.
Algo de crônica também surge nas vozes: certo despojamento formal compartilhado por quatro das sete narrativas que compõem o volume. Em algum grau, aliás, é difícil diferenciar os narradores desses contos, como se o autor se sobrepusesse às suas criações. Em outro tipo de livro, seria um problema mais grave, mas aqui funciona, na medida em que a homogeneidade nos joga no universo proposto, em que o inquietante habita detalhes (“História da beleza”), a solidão é redobrada pela tecnologia (“Luds”, “Arquivo de mundos inventados”), e até os sonhos correm perigo (“A vida onírica dos grandes mamíferos”).
Talvez os desfechos afirmem algo sobre a sensação de estarmos sempre passando stories
Há, porém, outra estratégia mais explícita a circunscrever os contos de Sonhos da pessoa física: eles estão implicados uns nos outros como em um jogo. Os protagonistas do primeiro, “Escritor argentino”, sonham ser Borges, e são eles os autores de “Os gigantes”, que imita o autor portenho na dicção mítico-ensaística, ao mesmo tempo que explora a questão da estranheza física.
Desde Nostalgias canibais, Leal se interessa pela relação do homem com sua aparência. Na coletânea de 2024, um ponto alto era “História da feiura”, que ganha contraponto agora, em “História da beleza”, no qual um homem extraordinariamente belo, mas um pouco histérico, somatiza inseguranças em uma inexplicável dor nos testículos. Fica a impressão, contudo, de que a ideia precisava de maturação e de que o desfecho foi escrito mais para se livrar do personagem do que para resolver a história. Os finais, de resto, não são o forte do livro e, embora alguns tenham o charme torto do clichê, parecem em geral apressados.

Outro homem excessivamente bonito é o centro de consciência do ótimo “Arquivo de mundos inventados”, mais um conto futurista, que por sua vez explora um mundo em que as pessoas têm acesso potencial (ainda que nada fácil) a experiências (cenários, ideias, eventos) criadas por meio de um capacete de realidade virtual. Mais uma vez — mas de modo diferente — adentramos debates que vão da criação artística à amizade masculina. Nepo, o protagonista, é um cara legal, e o desfecho do enredo é bom, mas de novo Leal parece resolver a história rápido demais.
A exceção na questão dos finais é o curto e lindo “A vida onírica dos grandes mamíferos”, que encerra o livro em sua nota mais sombria. É sobre elefantes em cativeiro — sobre pessoas físicas e seus sonhos, que perdem espaço, desejo, ambição. Isso me faz pensar se a ansiedade em terminar os outros contos tem a ver com a ansiedade que a matéria deles causa ao autor (e a nós). De repente, repenso a crítica aos desfechos: talvez afirmem algo sobre a experiência humana neste 2026, sobre a sensação de estarmos sempre passando stories. Talvez, porque mais estranho e desengonçado, Leal tenha achado, com este livro, um modo mais atual de ser realista. Eu também gostaria de terminar melhor esta resenha, mas já estourei duas vezes o prazo.
Calor da hora
Então, um epílogo. Auerbach escreveu sobre Stendhal quase 120 anos após a publicação de O vermelho e o negro. Eu escrevo sobre Sonhos da pessoa física no calor da hora — da publicação e do salto brutal da inteligência artificial —, o que me coloca numa posição terrivelmente precária para fazer uma leitura definitiva. Além disso, é claro, tem o problema bastante sério de eu não ser nenhum Auerbach. E só o tempo e os livros futuros dirão se Odorico Leal será um Stendhal e se terá sido um dos fundadores do (então já velho) novo realismo.
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