Apoiadores do Bharatiya Janata Party em um protesto contra a violência policial em Calcutá, na Índia, em 27 de julho de 2026 (Debarchan Chatterjee/NurPhoto via Getty Images)

Política,

Democracia das baratas

A juventude indiana se insurge contra o governo e conta consigo mesma para alcançar direitos básicos

01set2026 | Edição #109

Pela primeira vez em anos, ser indiana é uma maravilha. Justo quando toda esperança parecia perdida, elas vieram. Jovens baratas trazidas pela chuva. Frutos do profano abraço entre um juiz e uma piada.

A história é conhecida, mas ei-la aqui, para que fique registrada. Em resposta a uma declaração arrogante e desdenhosa do presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, na qual ele chamou de baratas alguns jovens indianos desempregados, Abhijeet Dipke, universitário morador de Boston, postou no Instagram o seguinte comentário: “E se todas as baratas se unissem?”. Milhões responderam. Assim nasceu o Cockroach Janta Party [Partido Popular das Baratas, um projeto satírico de partido político].

Dipke tornou-se o flautista de Hamelin das baratas. Sua primeira exigência foi a renúncia de Dharmendra Pradhan, ministro da Educação, confortavelmente acomodado na liderança de um ministério corrupto e podre, no qual vazamentos de exames e concursos públicos são frequentes. Estima­-se que 152 tenham vazado desde 2014, segundo os partidos da oposição. Esses vazamentos destruíram a vida de milhões de jovens que gastaram anos se preparando para os exames e cujos pais foram, em alguns casos, obrigados a vender suas terras ou moradias para financiar os estudos dos filhos e pagar a taxa de inscrição. Uma nova forma de extorsão legal. Após o vazamento recente da prova do National Eligibility cum Entrance Test (NEET, o exame unificado de admissão para cursos de graduação em medicina), doze estudantes abalados e devastados tiraram a própria vida.

Enquanto a raiva das baratas crescia até se transformar num verdadeiro tsunâmi digital, Dipke voltou de Boston em 6 de junho e do aeroporto foi direto para Jantar Mantar, o famoso local de protestos em Délhi. Sonam Wangchuk, conhecido ativista ladakhi e defensor da reforma da educação, juntou-se a ele e declarou greve de fome por tempo indeterminado. Seis estudantes universitários — Neha Bora, Manish Kumar, Ameen Amitosh, Danish Ali, Hrishikesh e Deepak, integrantes da união estudantil All India Students’ Association (AISA), braço estudantil do Partido Comunista Indiano — também declararam greve de fome e foram se instalar num palco adjacente. Protestos começaram a ocorrer em outras cidades.

Pela primeira vez em anos, ser indiana é uma maravilha. Quando toda esperança parecia perdida

Conforme a condição dos jovens em greve de fome se deteriorava, as jovens baratas que haviam invadido a internet começaram a aparecer em carne e osso em Jantar Mantar. O Cockroach Janta Party anunciou que, em 20 de julho, abertura da sessão parlamentar da monção, iria marchar até o Parlamento. Dois dias antes da data marcada para o protesto, a polícia arrancou Sonam Wangchuck do palco e o prendeu, primeiro num hospital do governo e depois, por insistência de sua esposa, num particular. Enquanto escrevo, em 22 de julho, ele segue em greve de fome. Na manhã de 20 de julho, dia do protesto, os estudantes da AISA encerraram a sua.

Índia unida

As baratas tomaram de assalto a capital. Vieram de trem, ônibus, avião e metrô, mais numerosas a cada hora que passava. Horas antes de os primeiros raios de sol clarearem os céus da monção em Délhi, elas começaram a ocupar Jantar Mantar às dezenas de milhares. Quando o dia raiou, estava nítido que uma geração inteira de jovens desesperados e enfurecidos, cujo futuro foi apagado bem diante dos seus olhos, tinha vindo tomar de volta aquilo de que as gerações de seus pais e avós haviam abdicado: nossa dignidade como povo e como país. Nossos direitos como cidadãos de uma democracia.

Com sua imensa coragem e elegância — e com seu bom humor também —, os manifestantes exorcizaram o medo corrosivo que passou a fazer parte da natureza de todos nós. Ao final do dia, ficou claro que o protesto havia ultrapassado em muito aquilo que eles e seus líderes reivindicavam. Dharmendra Pradhan agora é peixe pequeno. O que está em jogo é algo muito maior. A podridão entranhada de alto a baixo no sistema de governo está agora exposta e começou a empestear o entorno, como um cadáver em decomposição. Mesmo as menores baratas, algumas com apenas sete ou oito anos de idade, foram capazes de articular isso com clareza.

A escritora e ativista Arundhati Roy em Jantar Mantar, em Délhi, em 27 de julho, após a retirada da manifestação de jovens de 36 dias liderada pela Cockroach Janta Party (Vipin Kumar/Hindustan Times via Getty Images)

Apesar da rápida e quase clandestina nomeação de um novo chefe de polícia dias antes do protesto, e apesar dos cochichos preocupados sobre a temida eficácia de nosso aterrorizante ministro do Interior, tanto a polícia quanto o Ministério do Interior erraram feio ao estimar a escala do tsunâmi que engolfou Délhi no dia 20 de julho. Eles tentaram de tudo. Bloquearam ônibus, estradas e estações de metrô. Não adiantou. Tentaram congestionar a internet. Mas as jovens baratas — crias da era digital — deram um jeito de subverter essa tentativa com uma enxurrada de memes e vídeos capazes de, ao mesmo tempo, fazer rir e chorar.

Em Délhi, o último lugar do mundo onde isso seria possível, jovens mulheres participantes do protesto afirmaram se sentir seguras no meio da multidão, ainda que algumas tenham acusado a polícia de tê-las apalpado. Vimos muçulmanos, hindus, cristãos, sikhs, budistas, pessoas de todas as castas e de todas as classes se unindo, se ajudando, se protegendo para enfrentar a polícia. Em vez de fazer sermões ou discursos grandiosos, nos mostraram, na prática, a Índia possível, a linda Índia com a qual sonhamos.

Para lidar com esse perigo, a polícia soldou suas barricadas de metal amarelo, umas nas outras, e trouxe seus expedientes de eficácia comprovada: caminhões cheios de pedras e veículos previamente danificados, para fazer parecer que os jovens tinham apelado para a violência e que, portanto, a polícia podia agir em legítima defesa. Trouxe também um exército de capangas à paisana, armados com cassetetes e porretes. Em preparação para a ação, a força de choque (Rapid Action Force, a RAF) removeu da farda o nome dos agentes.

Os canais televisivos fiéis ao Estado estavam a postos, prontos para noticiar as mentiras. (Alguns se anteciparam e noticiaram coisas que ainda não tinham acontecido. O jornalismo indiano tende a tratar do futuro, não do presente.) Nada funcionou. A polícia e a RAF  brandiram com violência seus lathis, fraturando membros e o crânio de crianças. Soltaram gás lacrimogêneo. Mas os jovens seguiram marchando. Direto rumo ao Parlamento. Direto rumo aonde tinham dito que iriam.

Conforme se aproximavam, as forças de segurança se posicionaram, com seus AK47 apontados para os estudantes desarmados. Mesmo assim, as baratas continuaram marchando. Enquanto marchavam, despiam qualquer resquício da luva de pelica que escondia o punho de ferro do Governo e expunham o atual regime como aquilo que é e sempre foi. Um punho de ferro fascista. Uma confederação de brutos, absolutamente incapazes de compreender a história e a diversidade do país que governam. Pessoas que só sabem odiar, que não têm a menor ideia de como amar. Nem de como pensar.

Conforme as baratas marchavam, exibiam o punho de ferro fascista do governo

À medida que os manifestantes se aproximavam, nosso valente e ufanista primeiro-ministro foi transferido secretamente para um local seguro. Parlamentares foram impedidos de deixar o prédio novo e reluzente do Samvidhan Sansad, cujo único propósito parece ser solapar diariamente a Constituição.

Ao cair do dia, a polícia já havia desmantelado o epicentro do protesto. Quando anoiteceu de vez, o povo o tomou de volta. Na hora em que a polícia se retirou, para voltar no dia seguinte, as baratas a aplaudiram de pé. Por ter espancado crianças. “Wah Modi ji! Wah!”

Sentido

É tolice esperar que tudo isso traga qualquer mudança política importante. Mas descartar o ocorrido como apenas um rompante de exaltação seria estupidez. Não é de espantar que agências de notícias e canais de TV estejam tomados por um frenesi de fofocas, insinuações e teorias da conspiração sobre financiamento estrangeiro e complôs da CIA.

Na condição de orgulhosa andolanjeevi (que é como Narendra Modi chama, com derrisão, pessoas como eu), confesso que, quando tudo começou, também fiquei ressabiada. Temi que estivéssemos rumando para outro momento Anna Hazare, o suposto movimento popular anticorrupção de 2011, que, apesar das intenções iniciais, acabou nos presenteando com três mandatos de um governo liderado por um partido que destruiu todas as instituições deste país, que parece não ver separação entre a sua condição de partido político e o Governo nacional, que não respeita nem o país nem seus cidadãos, e que nos envergonhou internacionalmente e deixou a Índia na pior.

Mas as minhas desconfianças em relação ao Cockroach Janta Party se tranquilizaram quando vi a hostilidade da mídia mainstream em relação a seus integrantes. Para mim foi o primeiro sinal — e o mais reconfortante. Fiquei animadíssima com o fato de Abhijeet Dipke ser originário de uma comunidade dalite e mais animada ainda com o fato de ninguém prestar atenção nisso. Tudo mudou quando o ouvi dizer: “Se eu me chamasse Khalid ou fosse muçulmano, a esta altura já estaria preso”.

Ele teve a coragem de escancarar a vulgaridade com que as coisas acontecem na Índia: no nosso país, nada (inclusive e especialmente as leis) se aplica da mesma forma a todo mundo. Tudo depende de religião, casta, classe, etnia e gênero. Foi uma observação profunda, mas feita de forma simples. O fato de ele ter declarado isso publicamente — quando os políticos de oposição só fazem dizer “comunidade minoritária” em vez de “muçulmanos” por medo de uma “reação hindu” — me fez partir na mesma hora em direção a Jantar Mantar.

Eu sabia também que, ao escolher o nome Khalid, Dipke poderia muito bem estar se referindo a Umar Khalid, acadêmico da Universidade Jawaharlal Nehru (JNU) preso sem julgamento há quase seis anos, junto com Sharjeel Imam e muitos outros. Seu crime? Instar manifestantes à não violência durante os protestos de 2020 contra a Lei de Emenda à Cidadania, quando Délhi estava tomada por uma onda de incêndios criminosos, assassinatos e destruição de mesquitas instigada por integrantes de milícias hindus e observada por uma polícia complacente e, em alguns casos, participante. Vários recursos para obter liberdade condicional foram indeferidos por juízes que parecem ter perdido a coragem de fazer, ou mesmo de compreender, o correto.

No nosso país, nada (inclusive e especialmente as leis) se aplica da mesma forma a todo mundo

Enquanto as baratas marchavam e seu contingente crescia, peguei-me pensando: ainda bem que elas não são majoritariamente muçulmanas, nem sikhs, cristãs ou adivasis. Teriam sido aniquiladas, mortas, abatidas a tiros, presas. Graças aos céus não são caxemirenses. Poderiam ter sido cegadas (embora algumas tenham sofrido seu quinhão de ferimentos por balas de borracha). Felizmente a maioria é hindu. É essa a magnitude da tristeza do momento atual na Índia. Mas as coisas podem mudar de um minuto para o outro. Estamos em plena “situação em andamento”, como se diz. Há relatos de que milhares de soldados paramilitares estão sendo trazidos de avião de outros estados. Não sabemos o que os próximos dias nos reservam.

Aonde isso tudo nos leva? Em contraste com o movimento Anna Hazare, alvo de uma cobertura histérica por centenas de canais de TV corporativos, 24 horas por dia, sete dias por semana, o Cockroach Janta Party só pode contar consigo e com a internet. Ao contrário do movimento Anna — infiltrado e dominado pela Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS) enquanto o partido Bharatiya Janata Party (BJP), de Modi, aguardava de fora, pronto para capitalizar eleitoralmente o frenesi televisivo —, as baratas não têm nenhum partido de oposição organizado, preparado para levar o movimento adiante.

A raiva espontânea que estamos testemunhando irá se dissipar, a menos que algum trabalho político real se inicie. A menos que os adultos e partidos de oposição deixem de lado suas manobras e rixas sem importância e demonstrem um pouco de solidariedade. O Governo sabe que isso é improvável. Não se deixa abalar, pois sente que tudo que precisa fazer é aguardar. Estados têm o poder de aguardar. Pessoas não.

No presente momento, o levante das baratas é um de vários protestos em curso Índia afora. Adivasis de Madhya Pradesh protestam contra o projeto de interligação dos rios Ken e Betwa. Aldeões de Uttarakhand protestam contra o desmatamento em massa. Pessoas protestam contra a degradação ambiental das ilhas Nicobar. Manipur está em polvorosa. Os empregos estão sumindo. Os preços, disparando. A fúria está aumentando. E o jogo de “Deus” do BJP-RSS está sendo desmascarado como o que sempre foi. Uma farsa. Uma corrida ao ouro comandada por gângsteres.

Os saques ao Templo de Ram, em Ayodhya, nos proporcionaram um roteiro de Bollywood de péssima qualidade, agora encenado diante de nossos olhos: religiosos elegantes e políticos corruptos construindo hotéis, acumulando imóveis, andando por aí em carrões, cevados à custa da fé dos pobres e desavisados. Os tentáculos da corrupção e os roubos em plena luz do dia se insinuando até os mais altos escalões.

Será que a energia das baratas conseguirá nos tirar dessa vala? Não vai ser fácil. Um rápido apanhado do desfecho dos movimentos populares na Índia não é animador. É um resumo de ambições frustradas e sonhos destruídos. Nas décadas de 1960 e 70, movimentos diversos — entre os quais a rebelião armada naxalita — reivindicaram redistribuição de riqueza e reforma agrária. Foram esmagados. Nos anos 80 e 90, movimentos sociais — dos quais os mais famosos foram o Narmada Bachao Andolan e, mais tarde, os maoistas de Andhra Pradesh, Chhattisgarh e Jharkhand — lutaram contra a expulsão de agricultores e povos indígenas de suas terras. Em outras palavras, pediam para aquilo que restava aos pobres não lhes ser arrancado. Foram esmagados também.

Nos anos 2000, já tinham sido reduzidos a manifestar gratidão pela Lei Nacional de Garantia de Emprego Rural (NREGA). O direito a três meses de trabalho remunerado com o salário mínimo, quantia equivalente ao preço de uma boa refeição num restaurante caro. Até mesmo essa lei foi engavetada pelo atual regime e substituída por cestas básicas que mal dão para sobreviver — sacolas de mantimentos estampadas com a cara de Modi —, atiradas com desprezo em troca de gratidão e votos, como esmola lançada para mendigos de carros em movimento. Com a economia em crise, inclusive isso está ameaçado.

Cidadania

Hoje, em 2026, fomos limitados a lutar por nosso direito ao voto e por nossa cidadania. A Lei de Emenda à Cidadania (CAA), aliada ao Registro Nacional de Cidadania (NRC), é a versão do Estado hindu para as Leis de Nuremberg, na Alemanha nazista, em 1935, por meio das quais o Terceiro Reich outorgava cidadania às pessoas a depender da sua “documentação de ancestralidade”. (Quantos na Índia possuem tal documentação?) O momento anti-CAA-NRC perdeu força depois que protestos em massa levaram ao assassinato de manifestantes e à prisão de ativistas.

Apesar disso, os protestos fizeram o Governo diminuir o ritmo de implementação dessas novas leis. Agora, porém, a CAA-NRC, que muitos julgavam corretamente estar direcionada sobretudo a muçulmanos, voltou disfarçada de SIR (Revisão Intensiva Especial), que recai sobre os cadastros eleitorais. Fomos casualmente informados que nem nossos passaportes servem como prova de cidadania.

Milhões de pessoas estão sendo removidas dos cadastros. O país inteiro está desesperado atrás de seus “documentos de ancestralidade”. Não sabemos em que pé estamos. Somos legítimos? Ilegítimos? Temos direitos? Quais de nós irão parar nos imensos centros de detenção que estão sendo construídos para “cidadãos duvidosos”? Será que passaremos nossos dias correndo de um tribunal a outro? Fascistas adoram caos e confusão.

Nosso pânico e nossa angústia talvez nos levem a depositar esperança demais no levante das baratas. Alguns já o compararam ao levante de jovens que conduziu à mudança de regime em Bangladesh, Nepal e Sri Lanka. Mas a Índia é um país grande demais para isso acontecer. Outros o comparam ao movimento liderado por Jayaprakash Narayan, que derrubou Indira Gandhi, em 1977. Essas comparações não ajudam em nada.

O Cockroach Janta Party não é nenhuma dessas coisas. É algo único. Um produto singular de seu tempo. São jovens em situação de vulnerabilidade contra um governo cruel e vingativo, que se mostrou implacável com quem a ele se opõe. A vingança com certeza está sendo tramada e será levada a cabo contra aqueles que forem considerados os principais instigadores.

Será que a energia das baratas conseguirá nos tirar dessa vala? Não vai ser fácil

Como um regime que, a olhos vistos, está se tornando altamente impopular se sente seguro a ponto de não fazer qualquer concessão às pessoas que o elegeram? Decerto por sentir ter conseguido manipular com sucesso o processo eleitoral. O regime capturou a máquina. A Comissão Eleitoral é falha na sua própria composição e não se pode mais contar com a sua neutralidade.

As urnas eletrônicas foram manipuladas; o cadastro de eleitores agora exclui milhões de pessoas reais e inclui milhões de nomes-fantasmas; a burocracia eleitoral revelou-se absolutamente cúmplice; provavelmente os tribunais irão atrasar ou fingir não ver delitos flagrantes; a polícia não faz ideia do que seja neutralidade; a imprensa se ajoelha a cada vez que alguém no poder estala os dedos. Distritos eleitorais serão remapeados para garantir que o BJP tenha sempre vantagem.

O que o partido da situação tem a temer? Por que deveria ouvir quem quer que seja? Ele é o partido político mais rico da face da Terra, apoiado pelos mais ricos industriais do mundo. Pode comprar qualquer coisa. Ou assim acredita.

Mas será que esse jogo pode durar para sempre? É possível enganar todo mundo o tempo todo? É possível um país com 1,5 bilhão de pessoas ser arrastado para sempre como um cadáver? Não, não é. As baratas chegaram. Agricultores começaram novamente a marchar rumo a Délhi, desta vez para protestar contra o acordo comercial entre Índia e EUA, a sentença de morte que o Governo da Índia servilmente aceitou assinar. Os limites da cidade foram bloqueados, mas é improvável que isso os detenha. Talvez o restante de nós possa aprender, com os agricultores e as baratas, algo sobre como se tornar um pouco perigoso. Os jovens nos deram um presente. Cabe a todos e a cada um de nós fazer com que suas ações tenham importância.

Quando um primeiro-ministro foge fisicamente, sua fuga política não deve demorar muito. Mas esse regime não irá embora com facilidade. Não irá tolerar ser humilhado nas ruas da capital. É provável vermos sangue. O pavio dos jovens está se encurtando. Quanto tempo falta para alguém no meio dessa multidão jovem e exaltada perder o controle e dar à polícia um pretexto para abrir fogo? Eles farão tudo que puderem para nos esmagar. Temos de fazer tudo que pudermos para não deixar isso acontecer.

(Tradução de Fernanda Abreu)

Nota da redação
Este texto foi originalmente publicado em 22 de julho de 2026, no jornal indiano independente The Wire.

Quem escreveu esse texto

Arundhati Roy

Escritora e ativista, é autora de O Deus das pequenas coisas (Record), vencedor do Booker Prize.

Matéria publicada na edição impressa #109 em setembro de 2026. Com o título “Democracia das baratas”

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