Política,
O espelho estilhaçado
Em O massacre de Gaza, Gideon Levy mostra que, para entender a derrocada moral de Israel, é preciso observar as continuidades históricas
03jul2026 • Atualizado em: 02jul2026 | Edição #108A leitura de O massacre de Gaza: relatos de uma catástrofe, que compila uma década de colunas de Gideon Levy publicadas no Haaretz, foi um reencontro que tive com os textos do jornalista israelense. Sem exagero, me lembro perfeitamente da primeira vez que li uma coluna de Levy, que agora leio, pela primeira vez, em português.
Quando digo isso, me refiro a recordar não só exatamente onde eu estava, mas a sensação e os sentimentos que aquela leitura me causou. Ao ler o primeiro artigo, sentia que ele refundava, desvelava e escancarava uma Israel que, se eu já conhecia, teimava em esquecer que existia.

Por meio das páginas do jornal daquele agosto de 2002, eu era levado, de forma radical e desavisada, de uma Jerusalém ensolarada e moderna para a realidade cruel e infernal da ocupação israelense nos territórios palestinos.
Era um sábado de verão em Jerusalém quando eu, então um mestrando em sociologia da Universidade Hebraica de Jerusalém e recém-retornado a Israel, peguei a edição de shabat do Haaretz para ler sentado no famoso café Aroma da rua Emek Refaim, no sul da cidade. Esbarrei ali com seu conhecido e contundente artigo “Apenas uma pequena pancada na asa”.
No texto, Levy dissecava a reação do então comandante da Aeronáutica israelense à pergunta de um jornalista sobre sua sensação ao jogar mísseis em áreas superpopulosas da cidade de Gaza. “Sinto apenas uma pancadinha na asa direita”, foi o que disse Dan Chaluz, referindo-se ao que sentia a bordo do avião e expondo o processo de desumanização dos palestinos pelos militares israelenses.
Lembro como se fosse hoje que eu não entendia como depois daquilo as pessoas continuavam a tomar seus cafés alegremente enquanto, em Gaza, na segunda intifada, palestinos eram tratados como invisíveis, morrendo entre mísseis e bombas. Levy me ensinou, efetivamente, a enxergar a ocupação, sem máscaras ou subterfúgios.
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O massacre de Gaza: relatos de uma catástrofe chega ao Brasil como testemunho de alguém que acompanha, nas últimas décadas, o que acontece nos territórios palestinos ocupados por Israel, principalmente na Faixa de Gaza.
Corrida no parque
Na impressionante introdução, o jornalista faz uma crônica típica do israelense que é. Ele aproveita o shabat de um feriado religioso de 2023 para correr no parque Hayarkon, em Tel Aviv. No meio de sua ginástica matinal, é interrompido por sirenes e avisos de bombardeio. Nada poderia ser tão diferente, imaginava, do que estavam acostumados israelenses e palestinos a passar na rotina de ataques, guerras e ocupação.
Quando percebe que o que ocorre nesse 7 de outubro é, sim, distinto de tudo que já passou no país, Levy tenta negar. Cem mortos em Israel? Aquelas fotos deviam ser falsificadas, “deviam ser imagens do Afeganistão”, ele escreve. Quando percebe que os vídeos não são de Cabul, mas de Sederot, e que há muito mais do que os iniciais cem mortos, muitas são as sensações que o jornalista descreve ter naquele momento.
Entre esperança e pânico, Levy descreve o choque com o nível de violência do ataque de palestinos de Gaza nas cidades e kibutzim da fronteira. O jornalista visita a região, vê o resto de vida que ficou na mesa de casas destruídas nas cidades fronteiriças de Israel. Depois do susto inicial, ele confessa, se a falha de segurança que permitiu a entrada de centenas ou milhares de palestinos no território israelense o surpreendeu, o nível de violência que ele viu não foi uma surpresa. Afinal, a humilhação e a dor que a ocupação infringia, por décadas, aos palestinos não poderia produzir outra coisa que não essa violência crua.
Os gritos por vingança em Israel, relata Levy, acabaram por produzir uma gramática genocidária
Levy parece também não se surpreender com o nível desproporcional da resposta israelense. Depois de anos de ocupação e brutalidade do exército israelense em Gaza, no
pós-7 de outubro os israelenses pareciam estar convencidos de que mais violência, brutalidade e ocupação os salvariam do Hamas. Os gritos por vingança em Israel, relata, acabaram por produzir uma gramática genocidária e a demanda por destruição.
Ao contrário do que acontecia em outras operações e guerras, desta vez a população parecia continuar apoiando a matança. Mais mortes, mais destruição — era o pedido de parte majoritária dos israelenses. Membros do governo chegaram a pedir uma nova Nakba, um genocídio em 2023 que reproduzisse, de maneira cruel, o que os palestinos sofreram em 1948.
O choque com os ataques de 7 de outubro e o pavor com a reação desproporcional e genocidária de Israel são sentidos pelo autor com especificidades, mas também com a sensação de continuidade, pois acompanhou os desdobramentos da ocupação israelense na última década.
Diagnóstico
A coletânea de Levy não é apenas um registro jornalístico; é o diagnóstico de uma patologia social crônica. O jornalista opera como um legista da consciência israelense, dissecando os mecanismos de negação, desumanização e fascistização que tomaram conta não só da extrema direita, mas do centro hegemônico da sociedade de Israel.
Nesse contexto, o autor propõe que é necessário olhar as continuidades históricas para compreendermos a magnitude da tragédia que culminou na guerra e no massacre pós-7 de outubro. E nos convida a rejeitar a narrativa de que a atual catástrofe é um raio em céu azul.
Eixo central da compilação de Levy é a desconstrução da ideia de “gestão do conflito”, ou seja, a ilusão alimentada por sucessivos governos israelenses de que é possível aprisionar 2 milhões de pessoas indefinidamente, sem que se pague um preço por isso. O jornalista denuncia a arrogância intrínseca da política colonial de ocupação — a crença de que Israel pode sitiar, expropriar, prender sem julgamento e bombardear periodicamente a Faixa de Gaza, enquanto sua população segue a vida em Tel Aviv como se nada estivesse acontecendo.
O que torna a crítica de Levy sociologicamente contundente é o foco na cumplicidade da sociedade israelense, de seu centro político com as perspectivas da extrema direita, ora no poder. Em ensaios agudos, ele demonstra como figuras outrora vistas como alternativas — como Yair Lapid e Benny Gantz — não oferecem qualquer oposição real à estrutura da ocupação.
Quando se trata de massacrar Gaza ou de manter a supremacia estrutural de colonização, na qual milhões de palestinos não têm direito a voto, a política israelense converge para uma uniformidade assustadora. Nesse contexto, segundo o autor, o centro político “caiu na real” no pós-7 de outubro, abandonando qualquer verniz de direitos humanos para endossar um consenso belicista pautado na vingança.
Outro elemento fundamental que Levy trata é o papel da imprensa e da hasbará (diplomacia pública israelense) na construção desse abismo moral. No cenário de conflito agudo e massacre em Gaza, a mídia israelense atua como agente de propaganda voluntário, blindando a sociedade das imagens de destruição e morte do outro lado da fronteira. Os israelenses não veem as crianças retiradas dos escombros em Jabalia; não escutam os gritos de pessoas com deficiência abandonadas para serem dilaceradas pelo exército. Tudo não passa de uma pequena “pancada na asa”, necessária para a vitória total vendida pelo governo de Israel.
O apagamento do sofrimento palestino cria o terreno fértil para a “normalização do mal”. Quando propostas abertamente genocidas — como a do general Giora Eiland, de espalhar epidemias e fome em Gaza — passam a ser debatidas de forma legítima na televisão, estamos diante do colapso da fronteira civilizatória. Levy mostra que a incitação ao extermínio deixou de ser monopólio de lunáticos marginais e foi abraçada pelo chamado “centro do poder”. Ao transformar o palestino em “pó humano”, a sociedade israelense destrói sua própria humanidade.
Espinha dorsal
Embora o título tenha Gaza como foco, o livro é brilhante ao conectar o bloqueio da região com a escalada do terrorismo de Estado e dos colonos na Cisjordânia. Levy relata visitas a comunidades de pastores no sul do monte Hebron, onde colonos armados, muitas vezes vestindo uniforme militar, promovem verdadeiros pogroms e limpeza étnica sob a cortina de fumaça da guerra. O relato de um jovem com deficiência intelectual, Tariq, baleado por soldados enquanto vendia pirulitos, ou do assassinato indiscriminado em campos de refugiados como Nur Shams e Jenin ilustra um padrão: a violência estrutural é a espinha dorsal da ocupação, não um desvio de conduta.
Para Levy, o terrorismo palestino, embora brutal, é a resposta previsível — e a única linguagem que Israel parece escutar — de um povo sufocado que luta por sua liberdade. O autor ousa dizer o indizível na sociedade israelense: “O caminho do terror é o único caminho aberto aos palestinos para lutarem por seu futuro”, pois, quando fazem silêncio, o mundo e Israel simplesmente os esquecem.
O jornalista mostra que a incitação ao extermínio deixou de ser monopólio de lunáticos marginais
Em um dos textos mais sombrios da coletânea, escrito perto do fim de seu escopo temporal, Levy questiona se os israelenses estão dispostos a viver em um país que “vive de sangue”. O autor demonstra que Israel foi aprisionada por sua própria arrogância militarista. A nação emergiu do 7 de outubro traumatizada e ensanguentada, mas optou por responder mergulhando em um sadismo sem precedentes, abdicando da moralidade para se tornar, aos olhos do mundo, um Estado pária.
Ler O massacre de Gaza é defrontar-se com um espelho estilhaçado. Levy lembra que o sionismo hegemônico atual, ao basear sua sobrevivência na submissão brutal e permanente do povo palestino, cavou um poço de onde é difícil sair. A paz, a cura e a verdadeira democracia só serão possíveis quando a sociedade israelense romper seu cerco psicológico, enxergar a humanidade do outro e entender que não há segurança que brote das ruínas de um povo massacrado.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “O espelho estilhaçado”
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