Política,
Religião se discute
Michel Gherman e Ronilso Pacheco defendem que é preciso disputar com conservadores a complicada aliança entre fé e política
28abr2026 • Atualizado em: 07maio2026Em uma das cenas de Apocalipse nos trópicos (2024), filme de Petra Costa, Lula tem uma fala surpreendente: “O que levou o socialismo ao fracasso foi a negação da religião”. Mais do que um estrategista de olho nos votos de pessoas religiosas, o presidente está falando como alguém que crê. A esquerda lê essa declaração como um particularismo, no limite, equivocado; a direita simplesmente não acredita nele.
Essa dupla incompreensão atesta o difícil lugar da religião na política. Que função as religiões passaram a ocupar nas novas formas de autoritarismo? Diálogos em tempos difíceis: decifrando a gramática da nova extrema direita incide exatamente nesse ponto, que está no olho do furacão do que vivemos há quase vinte anos.
Como indica o título, o livro abre com uma longa conversa entre o historiador Michel Gherman e o teólogo Ronilso Pacheco, mediada pela jornalista Ana Luiza Albuquerque. Debatem a partir de um lugar desconfortável: Gherman é judeu, Pacheco é evangélico. Com Albuquerque, que se dedicou a compreender a recente ascensão mundial da extrema direita, os três se posicionam claramente à esquerda, e é a esse campo político que se dirigem.
A segunda parte do livro é composta por dois ensaios: “Sobre letramento e distopia na nova extrema direita”, de Gherman, e “Para vencer os extremismos e a política da opacidade”, de Pacheco. Há ainda um útil glossário ao final, que contribui para a obra alcançar um público além dos especialistas.
Os autores conversam a partir de um lugar desconfortável: Gherman é judeu, Pacheco é evangélico
Voltando à conversa, há alguns enigmas recentes que funcionam como disparadores da discussão. A não ser para um insider, a presença de bandeiras de Israel em atos bolsonaristas está longe de ser decifrável.
Além disso, a aliança entre Jair Bolsonaro e parte da comunidade judaica, selada no pavoroso discurso do então candidato a presidente no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, em 2017, que significado assume? O que viabilizou e o que representam as rodas de orações de evangélicos em espaços públicos e de poder, como o Congresso Nacional? Como compreender o gesto de Michelle Bolsonaro de falar em línguas ao comemorar a aprovação de André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, ao Supremo Tribunal Federal?
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O cotidiano político definitivamente mudou. Junto a todas essas manifestações, assistimos ainda à direita reivindicar a liberdade e a verdade como valores supremos.
Gramática da conspiração
A nova extrema direita surge, segundo os autores, com o fim do “fim da história”, quando se extingue a utopia liberal que previa um manso progresso aliando direitos sociais ao desenvolvimento capitalista. Agora, ao invés de uma visão linear rumo ao futuro, estaríamos assistindo à proposta de restaurar um “passado ideal”, que jamais existiu.
Nessa época de ordem, pureza, hierarquia e autoridade, os grupos étnicos “originais” teriam fruído de seus privilégios sem estar ameaçados pelos direitos hoje parcialmente reconhecidos às minorias. O culto ao passado hindu na Índia; a limpeza étnica promovida pelo ICE, a agência de imigração nos Estados Unidos; e o desejo de voltar à ditadura no Brasil são manifestações dessa “nova forma de sensibilidade política e moral” que vê nesse passado imaginário a direção a se seguir.
Michel Gherman diz que se trata da “agonia de uma branquitude ferida”, que enxerga tudo e todos como inimigos. Para esse grupo, as escolas e universidades (públicas, sobretudo) fariam parte de um “sistema educacional depravado”, segundo Ronilso Pacheco, onde se professariam a “cristofobia” e o “divisionismo” da educação antirracista. Essas avaliações fazem parte da própria lógica em que a extrema direita opera: trata-se de uma gramática da conspiração.
O complotismo, o segredo, a ameaça e a urgência fazem com que vejam traidores em toda parte, que desconfiem de todos e que estejam prontamente mobilizados para lutar por sua “guerra cultural”. A extrema direita criou para si um adversário modelo: o “marxismo cultural”, fonte de todas as artimanhas e subterfúgios da esquerda. Olavo de Carvalho é o grande formulador desse diagnóstico, que se espraiou para o conjunto do eleitorado conservador. Segundo ele, desde os anos 1990 estaria em curso uma revolução comunista no Brasil, invisível porque se trataria de uma tomada de poder cultural, e não de movimentos armados que assaltariam palácios de governo.
A tese é evidentemente falsa. No entanto, proveu a direita de uma explicação acerca do real, que compôs um “sistema de crenças” (segundo João Cezar de Castro Rocha) carregado de furor e, principalmente, nas palavras dos autores, munido de uma utopia mobilizadora ausente na esquerda. Acrescente a isso a gramática religiosa, e a extrema direita sai com um arsenal perigosamente vitorioso.
Causa da crença
Na articulação entre religião e política, a esquerda pode muitas vezes ser preconceituosa e simplista em relação a populações periféricas. Como se a pessoa pobre, desprovida do acesso a direitos e da presença do Estado, fosse passivamente receptiva a qualquer ideia que lhe chegasse, seja por um missionário, seja por um militante.
Carências materiais não são a causa da crença; aliás, se tais carências fossem eliminadas ou amenizadas, igrejas não deixariam de existir. Nas palavras de Pacheco, “comunidades de fé articulam coisas imateriais” e estabelecem “redes de afetividade” que não operam em uma lógica compensatória em relação à pobreza.
Importantes movimentos contestatórios e revolucionários do povo negro, como a Revolução Haitiana, o movimento de independência da Jamaica ou a Revolta dos Malês, no Brasil, tiveram a religião como força mobilizadora, segundo Pacheco. A ideia de que as religiões seriam sempre um braço do poder é eurocêntrica — as sublevações de antigas colônias mostram justamente o contrário.
Deus coach
A religião não habita somente o coração dos revoltosos em luta por independência, ela faz bombear as veias dos integrantes da nova extrema direita brasileira — e esta é a principal questão enfrentada pelo livro.
Os autores destacam o processo de autonomização da linguagem religiosa. Pablo Marçal seria exemplar dessa “nova gramática”, em que a narrativa religiosa é utilizada a despeito da religiosidade — ou melhor, quando a religiosidade se torna política.
Pacheco afirma que as referências de Marçal ao “Reino” traduzem uma ideia abstrata de “ordem, hierarquia, poder etc.”, podendo indicar o “Reino de Salomão”, um “Israel imaginário” ou qualquer espaço ideal. É a mobilização de um campo semântico no qual a ideia de Deus carrega apenas esse sentido organizativo — Deus seria um grande coach viril e bem-sucedido. O que impressiona é como essa linguagem se tornou verossímil: ainda que o candidato não pise em igreja alguma, sua palavra “cristã” é crível para eleitores.
Para Jair Bolsonaro, esse mecanismo se mostrou eficaz em um nível ainda mais impressionante. Durante as disputas eleitorais, dizer que o então candidato, a despeito dos seus discursos e de suas ações, não seguia uma vida cristã era imediatamente contestado por seus apoiadores. A linguagem religiosa fazia dele fiador de valores pelos quais dizia que iria lutar, mesmo que no seu cotidiano dissesse que iria “matar a petralhada”, que “deu uma fraquejada” por ter tido uma filha, que os quilombolas “não servem nem para procriar” e outras declarações abomináveis.
A gramática religiosa da nova extrema direita confere uma legitimação simbólica a um grupo social que até então não havia ocupado espaços de prestígio. Com Bolsonaro, os evangélicos ascenderam a Brasília e viram sua dimensão numérica representada no plano cultural e de poder. Um dos marcos desse processo pode ser o “batismo performático de Bolsonaro no rio Jordão” pelas mãos do pastor Everaldo, em 2016.
Filossemitismo
Além dos evangélicos, outro grupo “adentrou a branquitude” recentemente no Brasil: os judeus. Mas não todos os judeus. Michel Gherman foca sua análise no discurso de Bolsonaro na Hebraica em 2017. A partir dessa fala, e da adesão entusiasmada do público, Gherman esquadrinha a novidade representada pelo lugar do judaísmo na nova extrema direita.
No fascismo histórico, o judeu era visto como cosmopolita, socialista, revolucionário, liberal, mas também como um investidor desalmado e controlador da economia mundial. O antissemitismo clássico não conferia aos judeus nenhum passado: um povo sem raízes nacionais e sem Cristo.
A profunda e recente mutação explica a aliança, muito visível no Brasil, entre judeus e evangélicos comungando na extrema direita. O judeu passa a representar valores conservadores e é tido como anticomunista, hiperliberal, antiestatal, defensor do empreendedorismo e representante armado da luta contra o Oriente e o islã. Trata-se de um “filossemitismo” pró-Israel e sionista.
A gramática religiosa da extrema direita legitima um grupo que não ocupava espaços de prestígio
Se o fascismo histórico era claramente antissemita, segundo Gherman o filossemitismo atual também é. Porque a idealização do judeu — o judeu “verdadeiro” ou “imaginário” — reduz a comunidade a um tipo único: o branco. Daí ter-se aberto a “porta da branquitude” ao judeu, franqueando-lhe acesso a um espaço sempre negado. Assim se explicariam os gritos de “mito” dirigidos a Bolsonaro na Hebraica: as vítimas do racismo do Holocausto vibram com um discurso abertamente racista de quem viria a ser o presidente do Brasil.
Há um último traço desse antissemitismo atual. De povo sem nação e sem Cristo (de acordo com o fascismo histórico), os judeus passam a elemento fundante da civilização ocidental. Nesse ponto, não há mais ruptura entre cristianismo e judaísmo: o judeu imaginário é visto como um alargamento do passado cristão. Por isso configura-se como um filossemitismo antissemita, porque, nesse novo arranjo, “os judeus existem para deixar de existir”.
Seja no caso de parte dos evangélicos, seja no da parcela da comunidade judaica que aderiu a Bolsonaro, há uma secularização da religião que a transformou em linguagem política autônoma, que parte de um diagnóstico apocalíptico (portanto, ameaçador e urgente), passa pela identificação de inimigos onipresentes e termina por apontar um futuro utópico que se confunde com um passado idealizado.
À esquerda
Diante disso, que caminhos restariam à esquerda? Apesar da importância histórica da esquerda religiosa, sobretudo na América Latina, com a Teologia da Libertação, perdu-ra o senso comum de que a separação entre razão e fé seria um ponto cardeal da orientação política de esquerda. Nessa linha, à direita e aos conservadores caberia a exclusividade da complicada aliança entre religião e política.
Gherman e Pacheco defendem o contrário: a esquerda deve disputar o papel público da religião, e pensar como ela pode contribuir com valores democráticos. Para isso, é necessário não mais considerá-la de modo “extrativista”, instrumentalizando-a em momentos eleitorais, querendo dominá-la e, no limite, desejando que deixe de existir após uma boa explicação da realidade.
É preciso dialogar com a religião a partir das esperanças, ressaltando os valores comuns entre evangélicos e progressistas: “Educar, ter direito à saúde, ter direito à liberdade, ter direito à possibilidade de ver seus filhos nascerem”, crendo na utopia de que “crianças pretas tenham o mesmo nível de possibilidade de virar adultos que as crianças brancas no Brasil”.
Contra os afetos negativos da extrema direita, é preciso construir “afetos positivos” que congreguem e permitam sonhar conjuntamente — práticas comuns nas igrejas e outrora presentes no campo da esquerda, segundo os autores.
Não obstante essa posição, por vezes os autores mantêm o tradicional dualismo entre racionalidade e crença, o que não se alinha com as principais teses do livro, entre elas a interessante defesa da legitimação do campo dos afetos para a política, retirando-o do domínio da extrema direita. Por outro lado, o projeto afortunadamente escapa a artifícios encontráveis em textos de intelectuais que se dizem progressistas. Os autores não supõem ser parte de uma comunidade esclarecida, que lançaria luz sobre os ignorantes. Não querem falar para dentro. Talvez sua principal contribuição seja investigar a articulação entre política e religião sem considerar esta última como essencialmente mistificadora.
Diálogos em tempos difíceis dá elementos para um começo de conversa que traga para a esquerda a dimensão da utopia e do afeto insurrecional, hoje sequestrados pela extrema direita.