Nascido no Egito, o autor Omar El Akkad tem cidadanias canadense e estadunidense (Kateshia Pendergrass/Divulgação)

Política,

O privilégio de desviar o olhar

Jornalista egípcio radicado nos EUA reflete sobre horror em Gaza em ensaios que unem memórias como imigrante racializado e críticas ao liberalismo ocidental

16mar2026 • Atualizado em: 13mar2026 | Edição #104

Omar El Akkad nasceu no Cairo, no Egito, e foi educado na Escola Americana de Doha, no Catar, onde cresceu escondendo livros e filmes ocidentais da censura e imaginando o outro lado do mundo como o avesso da repressão no Oriente Médio. Aos dezesseis anos, emigrou para o Canadá e continuou se esforçando para se adequar à cultura estrangeira, mesmo ao ser parado na fronteira ou ver a interrupção no processo de visto do pai após o 11 de Setembro. Ou quando, como repórter do jornal canadense The Globe and Mail, testemunhou atrocidades na invasão do Afeganistão e em julgamentos em Guantánamo. Foi só após outubro de 2023, já com a dupla cidadania de Canadá e Estados Unidos, que ele diz ter virado as costas para o que chama de liberalismo de esquerda ocidental, cuja cumplicidade com o genocídio em Gaza o escritor escancara no recém-lançado Um dia todos dirão terem sido contra

Vencedor do National Book Award 2025 na categoria de não ficção nos Estados Unidos, onde El Akkad vive há treze anos, o livro mistura reflexões sobre a destruição de Gaza desde 2023 e suas próprias experiências como imigrante racializado e jornalista de conflitos. Não por querer se colocar no lugar da vítima, pelo contrário. Sua história mostra como ele muitas vezes repetiu a “concepção centrista do liberalismo ocidental”, que se recusa a nomear o horror e busca o “meio-termo”. Concepção que está, segundo o escritor, na linguagem esterilizada de jornais progressistas como The New York Times e The Guardian e na postura polida e esquiva de políticos do Partido Democrata, círculos intelectuais e organizações culturais. 

El Akkad se inclui entre aqueles que, como afirma no livro e repete nesta entrevista por videochamada, têm “o privilégio de poder desviar o olhar”. Apesar de reconhecer décadas de violência contra os palestinos, o escritor de 44 anos diz que a imediatez e a intimidade com que assistimos ao atual genocídio em Gaza e nossa cumplicidade o fizeram romper com o liberalismo ocidental. Ainda assim, afirma que não há nada de revolucionário nos seus ensaios para alguém do Oriente Médio. “É um livro profundamente americano”, diz — e apesar de a tradução do livro adotar o termo “estadunidense” para American, aqui não parece haver outro adjetivo possível.

Em que momento decidiu escrever sobre o genocídio em Gaza e unir essas reflexões à sua experiência de imigrante e jornalista de conflitos?
Comecei a fazer anotações sobre Gaza em outubro de 2023, porque suspeitava de que muitas das coisas grotescas que estava testemunhando desapareceriam num buraco da memória. Além disso, desde muito jovem, escrever é uma forma de me demorar em questões difíceis de compreender. Comecei a estruturar o livro em novembro, mas não achava que ele seria publicado. Por isso me dei ao luxo de escrever exatamente o que queria. Em relação à forma, sentia que não havia nada que eu questionasse sobre o liberalismo ocidental do qual eu não fosse cúmplice direto. Passei a maior parte da vida tentando ser exatamente o tipo de pessoa aceitável para essa ideologia e fui muitas vezes recompensado. Não tratar disso me parecia desonesto. 

Como repórter, El Akkad testemunhou atrocidades na invasão do Afeganistão e em Guantánamo

A crítica central do livro é ao que você chama de liberalismo de esquerda ocidental, não apenas em relação a Gaza, mas ao Oriente Médio em geral e às concepções de terrorismo e imigração. Quem seria esse liberal de esquerda?
Penso em alguém cuja capacidade de alienação lhe permitiu ignorar o abismo entre a forma como realmente se comporta no mundo e como deseja ser visto. Especialmente nos Estados Unidos, onde há um liberalismo convencional por excelência, há sempre um elemento de polidez e civilidade e um sentido de profunda preocupação com o abstrato acompanhados por uma ausência real de preocupação com o que o país faz no mundo, com seres humanos do outro lado do planeta sendo aniquilados por mísseis que paguei com meus impostos. Por isso, sempre retorno a essa noção da capacidade de desviar o olhar do abismo entre quem se é e como se deseja ser percebido.

Você conta que cresceu com a ideia do Ocidente como o negativo de tudo que odiava no Oriente Médio. Como viu que não era bem assim?
É semelhante a como os personagens de Hemingway vão à falência: aos poucos e, depois, de uma vez só. Era adulto durante o 11 de Setembro e os anos da Guerra ao Terror. Vi coisas como jornalista que, se eu fosse menos alienado ou menos leal a essa ideologia, me teriam feito chegar a essa conclusão muito mais cedo. Ou se fosse menos covarde ou mais perspicaz. O que Gaza fez foi aniquilar qualquer tipo de defesa remanescente contra essa visão ideológica a que eu aderi a maior parte da vida. 

É muito difícil ler este livro e não ter uma boa noção do quanto fui impregnado dessa ideologia. E até hoje, mesmo quando falo sobre ter virado as costas completamente para a concepção centrista do liberalismo ocidental, vez ou outra me vejo numa sala onde há poder e sinto o impulso de sorrir, de ser o amigo legal de pele morena. Estou mais consciente disso, mas não vou fingir que poderia simplesmente apagar tudo da noite para o dia.

Ataque aéreo israelense na Faixa de Gaza durante a Guerra Israel-Hamas, em 2024 (Jaber Jehad Badwan/Reprodução)

O que mudou em outubro de 2023 para que sua percepção também mudasse, já que você afirma que a violência contra os palestinos começou antes de o Hamas existir?
O genocídio em Gaza foi um estopim por três motivos: imediatez, intimidade e cumplicidade. As coisas que tenho visto por mais de dois anos não são apenas as piores que já vi na vida; eu as vejo quase no momento em que acontecem. E não é de uma câmera de visão noturna granulada da cnn, a um quilômetro e meio de distância. Eu assisto à gravação de um celular do que aconteceu com os filhos de alguém quando a bomba paga com meu imposto destruiu seu bairro. Existem uma imediatez e uma intimidade nisso que são impossíveis de ignorar. 

E finalmente chego à noção de cumplicidade, porque eu estou fazendo aquilo. Eu matei aquela criança. As mesmas forças que me fazem nunca duvidar, ao apertar o interruptor, de que a luz vai acender, ou de que, ao pedir minhas encomendas na Amazon, elas chegarão muito rápido, estão entrelaçadas com as forças que estão aniquilando linhagens inteiras de seres humanos que nunca tiveram e jamais terão esses mesmos privilégios. 

Então, por causa destas três coisas — da imediatez, da intimidade e da cumplicidade —, algo se rompeu dentro de mim. E, sim, deveria ter se rompido muito, muito antes.

Você começa cada capítulo com uma breve, mas terrível, cena de Gaza e em seguida conta algo da sua história, para então refletir sobre o genocídio, a política e o jornalismo. Como chegou a esse formato?
Em geral, sou muito lento, mas escrevi este livro num fluxo e com muita, muita raiva. E essas duas coisas não costumam originar uma boa escrita. Então, criei uma estrutura que me permitiu incluir formalmente o pessoal, o político e o filosófico. 

É interessante que as reações às seções no início de cada capítulo variaram enormemente dependendo do lugar do mundo. Este é um livro profundamente americano. Mas, quando recebo cartas de leitores americanos, há um verdadeiro choque diante das descrições, porque muitos deles nunca precisaram pensar nos palestinos ou apontar a Palestina no mapa. Quando estive na Jordânia, ninguém se incomodou com nada. Não havia nada remotamente profundo ou revolucionário para eles em qualquer parte do livro. E isso foi um lembrete chocante do tamanho dessa desconexão da realidade.

Há um capítulo sobre a linguagem, em que você fala sobre como políticos e jornalistas “esterilizam a violência”. Você cita um memorando do The New York Times que pede cautela com a palavra “palestino”. Recentemente, o Museu Britânico removeu a palavra “Palestina” das exposições. Como vê esse apagamento?
O trabalho jornalístico que mais me influenciou a pensar sobre como a linguagem pode fazer o oposto do que deveria fazer foi cobrir os julgamentos militares de Guantánamo. Lá diziam coisas como: “Não temos prisioneiros aqui. Temos detentos”. “Ninguém é interrogado. Eles têm audiências.” A questão da linguagem é mais gritante em tempos de guerra e quando se tenta esterilizar a violência física, mas eu vi isso em todas as facetas na minha carreira no jornalismo. E sempre fiquei espantado com o quanto estávamos prontos, como sociedade, para permitir que essa linguagem fantasma, zumbi, tomasse conta do nosso cotidiano. 

‘Nos EUA, há uma ausência de preocupação com seres humanos sendo mortos por mísseis pagos com impostos’

O estrago que as maiores organizações de mídia fizeram consigo mesmas com a cobertura do genocídio é geracional. Jovens desconfiam do jornalismo tradicional porque, todos os dias, por mais de dois anos, viram a realidade por meio de imagens granuladas de celulares e, em seguida, viram a versão higienizada disso nos noticiários — e simplesmente foram incapazes, tanto em nível prático quanto moral, de aceitar essa discrepância. Nas manchetes, é como se um hospital em Gaza tivesse explodido por conta própria, como se tivesse havido um vazamento de gás. É impossível ignorar.

O título Um dia todos dirão terem sido contra vem de um post seu que viralizou em 2023, mas essa frase não aparece no texto. Por quê?
O título original era The Glass Coffin (“O caixão de vidro”). Pensava que, nos casos de muita opressão e assimetria de poder, uma das coisas mais perigosas que os oprimidos podem fazer é mostrar o corpo, simplesmente mostrar o que acontece. Depois que o livro já estava pronto e vendido, uma das minhas editoras na [editora] Knopf disse que eu deveria usar aquele tuíte como título. Logo ficou claro que era o mais apropriado. O problema é que agora muitas pessoas acham que eu apenas expandi um tuíte.

Você terminou de escrever quando Joe Biden havia desistido de disputar as eleições, antes de Donald Trump ser eleito. Como a postura dos Estados Unidos em relação a Gaza mudou no último ano? 
Assim como Gaza foi um marco zero para a forma mais intensa de colonialismo nos últimos dois anos, de uma violência física avassaladora, agora é um marco zero para a próxima fase, mais fria, que são o esquecimento e a exploração intermináveis. Uma das coisas mais frustrantes de assistir à opressão da Palestina nos últimos 75 anos, e especificamente agora, é que não há nada único em relação à trajetória do colonialismo. Na história, todo ato colonial dependeu ativa ou passivamente da aniquilação de um povo. 

Hoje, se você vai para uma leitura de poesia, ela começa com um reconhecimento de terra: “nós reconhecemos com gratidão que estamos no território não cedido dos povos Anishinaabe”. Eles foram massacrados, mas há muito tempo, então agora é seguro reconhecer isso. Daqui a cem anos, não tenho dúvida de que alguém fará uma leitura de poesia em Tel Aviv que começará da mesma forma. 

Como uma pessoa de “pele morena”, como diz no livro, você sentiu os efeitos das políticas de Trump?
Muitas coisas que eram sussurradas agora estão sendo gritadas. É muito difícil impedir que essa enxurrada de atrocidades afete a vida cotidiana. Seja decidir se andar com o passaporte quando sai a pé — como nas regiões do Oriente Médio onde cresci, onde você sempre leva seus documentos — ou se quer protestar contra o ice [agência federal de imigração dos EUA], porque já viu pessoas serem mortas por fazer isso — o que também acontece nas partes do mundo onde cresci.

Pessoalmente, ainda estou bem protegido por causa da minha faixa salarial; por ter um selo do National Book Awards no meu livro. Quando voltei do Palestine Book Awards, em Londres, fui encaminhado para a inspeção secundária no aeroporto. Ele [o agente de imigração] foi para outra sala e tenho quase certeza de que pesquisou meu nome no Google. E talvez isso tenha me tornado mais seguro ou aceitável, realmente não sei. Mas há uma sensação de dissimulação no ar muito mais explícita do que qualquer coisa nos treze anos em que vivi nos Estados Unidos.

Também há desespero e esperança no livro: a ideia de que, se todos os palestinos desaparecerem, haverá a ilusão de que eles nunca existiram, mas também o reconhecimento de uma resistência, ainda que em pequenos atos. Como convive com esses dois sentimentos?
Não sei como responder, porque este é um problema real para mim. Sempre soube que monstros existem. Acho que subestimei o quanto pessoas aparentemente boas e civilizadas são capazes de desviar o olhar. E isso me perturba. Então há dias em que essas forças parecem tão avassaladoras que eu não quero sair da cama. Ao mesmo tempo, entendo o enorme privilégio de estar sentado aqui e dizer, do coração da nação mais violenta que já existiu, o quanto fico desanimado quando não é o meu bairro sendo apagado da face da Terra, quando não é a minha linhagem sendo apagada. Então, esta é minha maneira muito indireta de dizer que eu não sei. Mas é algo contra o que luto todos os dias.

Quem escreveu esse texto

Suzana Velasco

Jornalista, escritora e doutora em relações internacionais, publicou Pra onde quer que eu vá será exílio (Cobogó).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “O privilégio de desviar o olhar”