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A sul-africana Zukiswa Wanner lança relato da tentativa de ida a Gaza em uma flotilha
08jul2026 • Atualizado em: 07jul2026 | Edição #108O que uma escritora filha de pais exilados pelo apartheid sul-africano tem a dizer sobre a Palestina hoje? Para Zukiswa Wanner, desde que, em 2023, visitou o território a convite de um festival literário, não há muito o que dizer; é preciso agir.
Foi o deslocamento da escrita para a ação que a levou, dois anos depois, a embarcar na Flotilha Global Sumud, uma tentativa internacional de romper o bloqueio a Gaza. A experiência deu origem a Diário de uma flotilha por Gaza, traduzido por Jemima Alves e lançado agora, no Brasil, pela Periferias, quinto título da autora no país. Aqui, já foram publicados Relatos da vida palestina sob estado de apartheid (2023) e Amar, casar, matar (2025), ambos pela mesma editora e traduzidos também por Jemima Alves; além de Madames (trad. Luciano Cardón, 2024) e Homens do sul (trad. Julio Silveira, 2025), estes pela Ímã.
Para Wanner, a imagem do barco não é casual. “Fazer um barco sair do seu porto, se desestabilizar para então se movimentar, parece ilustrar o que há de mais desafiador nos movimentos”, escreve. Ela também ironiza o engajamento que se limita ao ambiente digital:
As pessoas que se angustiam no oceano virtual, mantendo seus barquinhos-celulares atracados em compartilhamentos infinitos […], nadam, nadam, nadam, e muitas vezes parece que nada.
A travessia — literal e política — reconfigura sua leitura do apartheid. Nascida na Zâmbia, em 1976, criada no Zimbábue (país de sua mãe) e filha de um político sul-africano exilado, Wanner construiu sua obra a partir da experiência da segregação racial em seu país. Mas, ao chegar à Palestina, encontrou algo que descreve como ainda mais brutal. “Assim como aconteceu com as pessoas negras sul-africanas […] também, ou pior, acontece com as pessoas palestinas”, escreve em Relatos da vida palestina sob estado de apartheid.
Se a experiência palestina radicaliza sua atuação pública — a ponto de devolver, em 2024, a medalha Goethe, concedida pelo governo alemão, que pela primeira vez o outorgava a uma mulher do continente africano —, ela também ilumina retrospectivamente sua ficção. Em Amar, casar, matar, seu romance mais recente, relações íntimas e estruturas de poder se entrelaçam de forma incômoda. Ao tensionar a narrativa heroica em torno de Nelson Mandela, Wanner escreve:
Mais Lidas
Mas esses vinte e sete anos ganham um novo sentido quando se descobre que, nos últimos anos, o cara não só estava em uma casa particular […] como também tinha um chef particular e um motorista.
Violências
Wanner defende sua coerência. Em diferentes registros, do diário político à ficção, ela investiga as formas como a violência se organiza, se justifica e se perpetua. E, em sua ação, a escritora constrói alternativas concretas a esse sistema tão opressor: fundou sua própria editora, a Paivapo — dedicada à circulação de autores africanos em várias línguas —, e participa de iniciativas literárias no continente.
Em 2020, durante o confinamento da pandemia, ela criou e fez a curadoria do Afrolit Sans Frontières, um festival literário virtual que reuniu escritores de diferentes países africanos e da diáspora em transmissões ao vivo. Com cinco edições realizadas em poucos meses, o festival conectou autores como Maaza Mengiste, Chris Abani, Jennifer Nansubuga Makumbi, Ondjaki, Lola Shoneyin, Yvonne Adhiambo Owuor e Conceição Evaristo. O Afrolit ajudou a consolidar uma rede transnacional de circulação literária africana, aproximando escritores, leitores e mercados editoriais.
Entre o testemunho e a ação, entre a escrita e o mundo, sua obra insiste numa pergunta: o que fazemos com aquilo que sabemos? “Falhar com Gaza e com toda a Palestina não é uma opção, porque o fracasso são as badaladas fúnebres da humanidade.”
Em sua agenda lotada de participação em eventos para lançar Diário de uma flotilha por Gaza no Brasil, em maio, Zukiswa Wanner respondeu à reportagem da Quatro Cinco Um por mensagens de telefone.
Você visitou a Palestina pela primeira vez em 2023 e depois participou da Flotilha Global Sumud, por Gaza. Como essa experiência te transformou?
A primeira visita, em 2023, me mostrou os paralelos entre a África do Sul e a Palestina. Uma citação que encapsula perfeitamente isso, que uso em Relatos, é do meu amigo Eusebius McKaiser: “o apartheid foi aperfeiçoado na África do Sul e exportado para Israel”. Aquela viagem esclareceu de forma prática o que eu conhecia em teoria: a capacidade de ser cruel e desumanizar outros seres humanos crendo que uns são mais importantes que outros. A viagem — também inspirada na viagem que fiz ao Brasil em junho do ano passado, quando visitei a favela do Moinho enquanto moradores estavam sendo removidos, ao mesmo tempo que algo semelhante acontecia na Cidade do Cabo, por conta da gentrificação — fortaleceu minha convicção na nossa interconectividade.
‘Injustiça é injustiça em todo e qualquer lugar; nosso dever é cuidar uns dos outros como irmãos’
A inação de nossa parte, cidadãos globais socialmente conscientes, enquanto Gaza continuava a queimar, me pareceu o resultado de como o capital global fabrica o consentimento para sermos indiferentes e o sentimento de impotência. Fui sequestrada e passei alguns dias numa prisão israelense, o que me deu uma pequena visão do que sofrem os reféns palestinos. Se o Estado israelense foi tão duro conosco, pessoas que logo teria de liberar — nos espancaram, nos violentaram sexualmente —, o que então não faz com os palestinos presos? Minha maior lição política foi: injustiça é injustiça em todo e qualquer lugar; nosso dever é cuidar uns dos outros como irmãos globais.
Em algum momento você pensou em não ir? Ou a urgência da missão falou mais alto?
Para participar da Flotilha Global Sumud, eu vinha observando flotilhas anteriores. A Freedom Flotilla, a Handala e as Thousand Madleens tentaram romper o cerco, sem sucesso. Parecia que a FGS era a maior possibilidade de conseguir isso; nunca considerei não ir. Na verdade, senti que era uma honra absoluta ter sido selecionada, dado que 30 mil pessoas do mundo inteiro haviam se candidatado para participar. E a esperança que me mantém escrevendo é a mesma que me fez acreditar, apesar da baixa probabilidade de que chegássemos a Gaza. Eu e as pessoas que se tornaram minhas irmãs naquela viagem ainda fantasiamos sobre o que teria acontecido se tivéssemos conseguido chegar ao porto de Khan Yunis, em vez de sermos interceptados a 28 milhas náuticas de Gaza.
Você escreve há anos sobre o apartheid na África do Sul. O que te surpreendeu na realidade palestina?
O apartheid praticado contra os palestinos é mais brutal, mais controlado do que qualquer coisa que já vi. A experiência em Hebrom me assombra diariamente. Lá, armas eram apontadas para crianças entre a ida de casa para a escola e vice-versa, num posto de controle que, ainda por cima, as fazia caminhar dois quilômetros em vez de duzentos metros.
Na prisão de Ktzi’ot, você leu mensagens de prisioneiros palestinos nas paredes. Isso mudou como você pensa a escrita?
Acho que menos mudou e mais enfatizou por que eu tenho que continuar fazendo o que faço. Tornou mais clara do que nunca aquela ideia de James Baldwin do escritor como testemunha.
Você tomou a decisão de devolver a medalha Goethe, em protesto. Quais são os impactos da devolução?
Devolver a medalha Goethe ao governo alemão foi um ponto de virada pessoal e político. Não era eu apenas me posicionando contra algo, mas colocando minhas ações onde minhas palavras estavam. Isso me prejudicou financeiramente, já que a condecoração me renderia muitos trabalhos na Europa. Mas entendi que estamos onde estamos porque muitos de nós somos controlados pelo capital — ficamos preocupados com contas e compras, enquanto a humanidade sangra. O vencedor da medalha Goethe de 2022, Mohamed Abla, do Egito, um artista que eu respeito muito, devolveu sua medalha 24 horas após eu devolver a minha e me mostrou que eu tinha feito a coisa certa.
Seu trabalho muitas vezes combina um humor afiado com temas extremamente pesados.
Pegamos mais moscas com mel do que com vinagre. O humor é uma ferramenta que uso para mergulhar em temas profundos — espero que o leitor possa rir ao ler, mas refletir depois.
Amar, casar, matar aborda a cumplicidade, especialmente entre mulheres no patriarcado. Como você vê a ficção que faz?
Uso a ficção como um espaço para explorar verdades incômodas que talvez encontrem mais resistência em debates políticos. É meu método em todos os romances. A ficção também me protege de processos judiciais, de uma forma que a não ficção não poderia. A ficção é muitas vezes mais honesta do que a não ficção.
Você criou sua própria editora, a Paivapo, e tem trabalhado com diferentes línguas africanas. O que significa ter controle sobre a publicação — e sobre a língua?
Parte dos nossos mal-entendidos, como humanos, vem de considerarmos diferentes as pessoas que não estão em nossos círculos. Traduzir obras de línguas diversas ajuda a entender quão parecidos somos. Todos amamos, rimos e buscamos a felicidade. O controle sobre as obras é muito importante porque esse é o único legado que tenho para deixar ao mundo. Sabemos sobre a Inglaterra elisabetana porque Marlowe e Shakespeare existiram. A história do mundo é escrita na arte, não importa o que os políticos pensem sobre sua própria importância.
Pode falar mais sobre o contexto literário africano?
Linguisticamente, a maioria dos autores que ficam conhecidos fora de seus países são aqueles que escrevem em inglês, francês, português e, em menor medida, espanhol — resultado da nossa história colonial.
‘Não era eu apenas me posicionando contra algo, mas colocando minhas ações nas minhas palavras’
Existem mais de 2 mil línguas na África e muitos escritores escrevendo nelas, mas infelizmente há barreiras linguísticas. Também estamos escrevendo amplamente em diversos gêneros: crime, fantasia, romance, ficção literária, viagem, memórias, poesia etc. E, mesmo dentro de um único grupo linguístico, o panorama mudou muito desde quando meu primeiro romance foi publicado, há vinte anos. Naquela época, eu conhecia quase todos os escritores em inglês e conseguia lê-los em seis meses, lendo um livro por semana. Agora, ler no mesmo ritmo apenas os livros publicados na África do Sul em um único ano poderia me tomar dois anos. Eu costumava conhecer todo mundo. Agora estou constantemente encantada em descobrir novos nomes na literatura.
Seus livros estão chegando a leitores brasileiros, muitos deles em contextos marcados pela violência de Estado e pela desigualdade. O que você espera que ressoe aqui?
Acho que parte da razão pela qual meus livros ressoam no Brasil é por causa dos paralelos entre nossos países. Costumo dizer que, se os países tivessem imagens espelhadas, de certa forma o Brasil seria isso para a África do Sul. O mito da democracia racial, nossa familiaridade com termos socialistas enquanto vivemos no neoliberalismo, a criminalização dos pobres sem um questionamento mais profundo sobre quem fabrica e quem leva as armas para as comunidades pobres etc., etc., etc.
Você fala sobre arte e ativismo, escrita como testemunho, ação como parte da nossa humanidade/cidadania global. Pode desenvolver isso? Porque muitos artistas dizem que a arte é um mundo à parte.
Acredito que a arte pela arte é uma saída fácil. Nas instituições de ensino superior ao redor do mundo, toda arte é abrangida dentro das humanidades. Então, como eu, que amo e produzo arte, poderia separar a parte humana das humanidades? Nós reagimos à arte — amamos, odiamos ou somos indiferentes a ela — porque ela movimenta algo em nós. Portanto, na verdade, seria uma falha como artista se eu não tivesse empatia e não conseguisse criar com humanidade.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Palavras e navegação”
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