Angela Davis na Flip 2026 (Ana Slade/Reprodução/Boitempo)

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Angela Davis pede que Brasil não permita intervenção dos EUA nas eleições

Sem citar os Bolsonaros, a ativista disse que o desafio dos brasileiros é não permitir que ‘o filho daquele’ seja eleito

26jul2026

Uma das mesas mais aguardadas da Flip 2026 ocorreu fora da programação oficial e distante do centro histórico de Paraty. Mais de uma hora antes do horário marcado, na noite de sábado (25), uma grande fila se estendia por dois quarteirões em frente ao Sesc Caborê para a apresentação da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis.

Fila para mesa de Angela Davis na Flip 2026 (Amauri Arrais)

O entusiasmo da plateia de cerca de setecentas pessoas, que esgotou os convites disponibilizados pela instituição em poucos minutos, podia se sentir antes de Davis subir ao palco. Convidadas pela organização do evento, as escritoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves foram muito aplaudidas enquanto ocupavam seus lugares na primeira fila. A mesa foi transmitida em dois telões na Casa Sesc, no centro histórico, e uma multidão tomou a rua.

Davis apareceu no palco com meia hora de atraso, saudada por muitos gritos de “I love you” e “rainha”. Incomodada com a tradução simultânea, saudou a plateia com um “bom dia” e disse estar tentando aprender português. A organização, então, optou por chamar uma tradutora ao palco para converter ao inglês as perguntas da mediadora, a jornalista Flávia Oliveira.

Comentarista da Globo News, ela anunciou que faria perguntas inspiradas no pensamento de intelectuais negros brasileiros, como Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Milton Santos. Oliveira lamentou a ausência do nigeriano Wole Soyinka, de 92 anos, que cancelou sua participação no evento dias antes, por problemas de saúde.

Aplaudida a cada fala, Davis disse que o fascismo está em ascensão nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, mas não entre o povo. “Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. Não temos consciência da nossa força porque nossa concepção de poder está ligada àqueles que elegemos”, disse.

Flávia Oliveira e Angela Davis (Ana Slade/Reprodução/Boitempo)

Sem citar o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro ou do seu filho Flávio, oficializado no mesmo dia candidato à Presidência pelo PL, a filósofa disse que o desafio dos brasileiros é não permitir que “o filho daquele” seja eleito. Ao ouvir da mediadora que se referia a Bolsonaro, Davis explicou por que se recusa a pronunciar o nome dele.

“Há uma tradição africana que diz que o ato de nomear alguém dá poder. Então me recuso a nomeá-lo.” Também sem nomear Donald Trump, a ativista norte-americana disse que o Brasil não pode permitir que os Estados Unidos interfiram nas eleições deste ano.

Conhecida por seu ativismo pelo abolicionismo penal, Davis relembrou sua trajetória e o período que passou na prisão por sua ligação com o Partido Comunista dos EUA e o grupo Panteras Negras. “Por mais difícil que tenha sido enfrentar o risco de pena de morte, quando olho para trás, penso que minha prisão foi também um presente, porque moldou o resto da minha vida”, disse.

Instigada pela mediadora, a autora de Mulheres, raça e classe (trad. Heci Regina Candiani, Boitempo, 2016) citou Marielle Franco ao comentar o aumento dos casos de feminicídio no Brasil. Segundo Davis, não se pode combater a violência contra mulheres de forma isolada. “Marielle Franco entendeu isso porque lutou contra a violência militar, nas comunidades. Ela entendeu a conexão que há entre a violência de Estado e a cometida na intimidade porque um ato encoraja outros.” A plateia reagiu com gritos de “Marielle presente”.

Gentrificação
A filósofa ainda criticou a gentrificação e o racismo ambiental que, segundo ela, vem atingindo comunidades pobres de Paraty. “Empreendedores aqui de Paraty estão tentando lucrar mais tirando as pessoas de suas terras ancestrais; estão envenenando a terra”, disse ela, que antes da apresentação havia visitado um território quilombola na cidade.

Ao se referir à sua ligação com Lélia Gonzalez (1935-1994), Davis disse que precisamos da crítica ao capitalismo feita pela filósofa e antropóloga mineira hoje em dia, quando vemos surgir o primeiro trilionário do planeta. 

“Especialmente porque bilionários ou trilionários ficam mais ricos explorando o planeta ao máximo sem ligar para as consequências”, disse ela, se recusando a citar também o nome do empresário Elon Musk. “Vocês sabem quem é.”

Inspiração

A filósofa e ativista se dirigiu algumas vezes a Conceição Evaristo na plateia. “Você tem inspirado pessoas ao redor do mundo. Muito obrigado por sua linda literatura”, disse. Flávia Oliveira revelou que, no camarim, a mineira havia dito que nos anos 1970 cultivou um penteado black power inspirada numa foto de Davis. 

Davis também contou que Evaristo havia dito que, numa próxima encarnação, queria ser uma mistura da cantora Nina Simone e a Nobel de Literatura Toni Morrison. “Eu coloco você no mesmo nível de Nina Simone e Toni Morrison. Queria ser a junção de vocês três”, afirmou a norte-americana.

Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista, editor da Quatro Cinco Um e mestrando em Teoria Literária na USP.