Flip,
Cármen Lúcia é aplaudida de pé na Flip ao defender mais mulheres na política
Só haverá igualdade com onze mulheres no Supremo, brincou a ministra, que lançou livro sobre a democracia
24jul2026Única mulher entre os atuais onze ministros do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia foi aplaudida de pé pela plateia do auditório principal da Flip 2026 ao defender a democracia e um número maior de mulheres na política.
“Quando vai haver igualdade? Quando houver onze mulheres [no Supremo], como hoje são [quase] onze homens. Eu até garanto cota para os homens, pelo menos 30%”, brincou a ministra, na sexta (24), durante sua apresentação no festival literário.
Ela acaba de lançar, com as historiadoras Heloísa M. Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto, Pela mão do povo: voto e democracia no Brasil (Bazar do Tempo), coletânea da qual é coautora e coorganizadora. Na conversa com a cientista social Paula Miraglia em Paraty, a ministra defendeu também que é preciso ter mais mulheres no Congresso para ser possível uma situação de equidade no STF.
“Quem tem a indicação é o presidente da República, mas quem fala com ele objetivamente é o Legislativo, onde temos cerca de 20% de mulheres entre os 513 deputados, a pior representação das Américas”, disse. “Não podemos olhar para o Supremo como se fosse isolado.”
A ministra usou sua fala para criticar ataques a direitos femininos consagrados e protestar contra a violência que atinge as mulheres do país. Instituições fortalecidas, afirmou, é que vão garantir que o país se liberte de um passado escravocrata em que mulheres foram e continuam sendo alvo de violências. “Parem de nos matar porque nós não vamos mais morrer!”, disse.
Cármen Lúcia demonstrou preocupação com o movimento, que vem ganhando projeção nos Estados Unidos, para acabar com o voto feminino. Segundo ela, a justificativa usada é de que as mulheres teriam menos obrigações e se dedicariam ao cuidado com a família. “Estamos cuidando também quando votamos, mas da sociedade.”
‘Causos’
Mais Lidas
Muito assediada nas ruas de Paraty por pessoas querendo tirar fotos, a ministra contou “causos” sobre a vida comum que diz levar. Ela divertiu a plateia com relatos sobre sua “vida besta” longe dos holofotes, citando o conterrâneo Carlos Drummond de Andrade.
Num deles, disse que uma senhora a abordou na saída de um supermercado em Belo Horizonte e pediu uma foto por achá-la muito parecida com “aquela Cármen Lúcia” de Brasília. Ao questionar a mulher sobre o que acharia se “aquela Cármen Lúcia” fosse ela, ouviu que isso seria improvável, porque a ministra do STF parece rabugenta e não estaria saindo com uma sacola de tomates do supermercado.
Transgressão
Numa fala marcada por referências a autores, como Machado de Assis, Dostoiévski, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Paulo Mendes Campos, a ministra lembrou a sua relação com a literatura e defendeu a arte como sintoma da saúde democrática de um país. “A arte é transgressora — o único espaço no Estado democrático em que se pode transgredir.”
Retornando ao tema do livro recém-lançado, Cármen Lúcia se disse otimista quanto aos avanços do Brasil, mas ressaltou, referindo-se aos ataques aos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, que as desventuras autoritárias não cessam em nenhum lugar do mundo. Citando Nelson Rodrigues, disse que temos que ter “a mesma ousadia dos canalhas”.
“Esses são os que atravessam a história e tentam tomá-la em benefício próprio. É preciso ter a força necessária para não permitir — não se compadecer com nenhum tipo de aventura antidemocrática.”
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
