Flip,
Kamel Daoud: ‘Lemos romances porque eles restauram a vida em nós’
O autor franco-argelino e a luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida falaram sobre memória, herança e livros que existem mesmo sem ter sido escritos
24jul2026Pode um romance restaurar a vida em nós? Para Djaimilia Pereira de Almeida e Kamel Daoud, a resposta é sim. Convidados da mesa “Falo do que impede o sono”, da Flip 2026, os escritores falaram na noite de quinta-feira (23) sobre seus romances recentes, que tratam de morte, mas também de tentar restituir memórias perdidas e dar contorno a uma língua própria.
No caso da angolana radicada em Portugal, que lançou no ano passado O livro do meu pai (Todavia), a ideia do romance era recuperar a história de um livro que seu pai contou a vida toda estar escrevendo, mas que, após a morte dele, ela descobriu que nunca existiu.
“Descobri que não tinha sido escrita uma única palavra, o que me deixou atônita”, contou a autora, que assina a coluna “Onde queremos viver” na Quatro Cinco Um. “Mas percebi que um livro não existe só quando é escrito. Pode existir dentro da gente, do espírito de uma pessoa. Há livros que nunca foram escritos e não deixam de ser livros por isso.”
Ela contou que, ao reunir os pertences deixados pelo pai — um par de óculos, uma caneta, meia dúzia de fotografias numa pasta —, ficou triste e pensou que gostaria que ele tivesse deixado algo cuja memória perdurasse. “Então pensei em inventar a minha herança.” O livro do meu pai, disse a autora de romances premiados como Esse cabelo e A visão das plantas, marca um ponto de virada em sua carreira, já que ela não pretende escrever mais sobre a família.
Já para o franco-argelino Daoud, autor de Língua interior (trad. Bernardo Ajzenberg, DBA, 2025), um livro começa a ser escrito quando é inevitável. Língua interior, que narra as atrocidades da guerra civil na Argélia a partir do relato de uma sobrevivente para a filha que leva no ventre, não é um romance histórico sobre o país ou a guerra, segundo Daoud, mas o que ele chama de “um romance que começa pela morte e vai em direção ao nascimento”.
“Assim vai se construindo a história até a ressurreição. Lemos romances porque eles restauram a vida em nós”, disse.
Ameaças
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Também jornalista, Daoud ainda contou sobre como escrever romances lhe rendeu reconhecimento e intimidação. O caso Mersault (trad. Bernardo Ajzenberg, Biblioteca Azul, 2016) — no qual reimagina a história de O estrangeiro, de Albert Camus, a partir da perspectiva do argelino sem nome assassinado pelo protagonista — recebeu o Goncourt, principal prêmio literário do mundo francófono, mas também a perseguição governo argelino e ameaças de morte que forçaram o autor a se exilar na França com a família.
“Tenho dois mandados de prisão. Na Argélia, há muitas pessoas que mataram e continuam livres e eu só escrevi romances”, disse. “Um escritor não é um político, mas acaba se tornando [político] quando não há liberdade.”
Daoud foi aplaudido pelo auditório lotado ao dizer que continuará a escrever livros, porque as pessoas não lembram da perseguição a escritores promovida por Stálin, mas dos grandes romancistas russos.
Tradução
Ao comentar sobre O livro do meu pai ter um título diferente em Portugal, onde o romance se chama O livro da doença, Pereira de Almeida provocou risos na plateia. Segunda a autora, a sugestão do novo título foi de seu editor no Brasil. “Soou bem ter dois títulos. Senti como uma tradução. É a mesma língua, mas não exatamente a mesma língua.”
Além dessa mudança, a autora resolveu retirar capítulos da edição original que tratavam da doença do pai, segundo ela muito dolorosos para familiares e pessoas próximas. “Agora, quando tenho que dar o livro a uma dessas pessoas, dou a edição brasileira que ficou mais leve.”
Mediadora do debate, a jornalista Adriana Ferreira Silva revelou que a escritora havia pedido para não tratar de racismo durante a mesa — e Pereira de Almeida explicou a razão. “Gostaria de viver num mundo em que autores racializados como eu, Kamel e muitos outros pudéssemos ser frívolos, fôssemos chamados a falar sobre engenharia mecânica, habitação, saúde e não apenas de questões raciais”, disse, muito aplaudida.
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
