Flip,
Precisamos da imaginação para construir o Brasil do futuro, diz Marina Helou
A deputada e a atriz marajoara Isabella Miranda discutem como a literatura pode ser antídoto para um mundo hiperconectado
23jul2026Uma conversa sobre como a leitura e a imaginação podem ser antídotos para o vício em celulares e a fragmentação da atenção abriu a programação da CAsaDELAS, durante a 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A primeira mesa dos debates organizados pela psicanalista Vera Iaconelli e a jornalista Carol Pires reuniu a deputada estadual Marina Helou (PSB-SP) e a atriz marajoara Isabella Miranda na manhã desta quinta-feira (23).
“Meu livro não é contra a tecnologia, mas para trazer consciência sobre nossas escolhas”, disse Helou, que estreia como autora com a publicação de Quem está formando os nossos filhos? (Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um). No livro, ela cruza evidências científicas e sua experiência com famílias, escolas e políticas públicas para analisar o impacto das redes sociais na infância e adolescência.
“Meu papel como política é imaginar futuros possíveis. A imaginação ajuda a construir coletivamente o país que a gente quer ser”, completou.
Miranda, que também faz sua estreia na literatura com a publicação do infantil Anete e o peixinho Bambo (Companhia das Letrinhas, ils. Michelle Cunha), falou da importância das histórias contadas de forma oral na sua infância em Cachoeira do Arari, na ilha de Marajó. Ela lembrou que a avó, que inspirou o livro, chamava os primeiros celulares que chegaram à cidade de vaga-lumes, por iluminarem o ambiente quando a energia era interrompida à noite.

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“A capacidade de imaginação é o que nos faz voar”, disse Miranda. “Ver mulheres pretas como referência em nossas vidas nos empodera mais.” Sua mãe, contou a atriz, era uma mulher preta que nunca conseguiu se ver nas histórias que encontrava nos livros, que, segundo ela, sempre retratavam “meninas loiras que brincavam na neve, na lareira”. Sobre Anete e o peixinho Bambo, a autora estreante declarou: “Esse livro foi pensado para a minha mãe”.
Mediadora do debate, a produtora de conteúdo Tatiana Leite leu um trecho inicial de Quem está formando os nossos filhos?, no qual Helou cita pesquisas indicando que crianças e adolescentes passam até sete horas por dia no celular vendo vídeos curtos. Os conteúdos, disse Leite, “fragmentam a atenção, destroem a autoestima e adoecem”.
Autora da lei que limitou o uso de celulares nas escolas de São Paulo, Helou traz no livro medidas que podem ser adotadas por pais e mães em busca de uma realidade menos conectada para os filhos. Uma delas, destacou, é a leitura em voz alta. “Uma geração que lê menos é uma geração que tem menos contato com outras realidades”, completou.
Fake news
Ao falar sobre o papel que a literatura pode ocupar num mundo hiperconectado, Isabella Miranda emocionou a pequena plateia ao relatar sua experiência como autora travesti. “As pessoas não esperam nada de corpos como o meu além de cadeia, manicômio ou caixão”, disse. O lançamento do seu primeiro livro, afirmou, é também uma maneira de exaltar as mulheres que fizeram parte de sua história.
“São mulheres que muita gente só conhece de fake news da [senadora] Damares. O Marajó não é o inferno na Terra, tem pessoas maravilhosas, grandes poetas, como as que homenageio no meu livro.”
O lado positivo da tecnologia também foi tema da conversa. Miranda relembrou como, por meio de um vídeo em que relatava sua transição e que viralizou, pôde estabelecer diálogos com pessoas além de Cachoeira do Arari e do Pará.
Marina Helou lembrou que um dos primeiros efeitos da limitação do uso do celular nas escolas foi o relato de professoras de que o horário do recreio voltou a ter barulho, com jovens menos isolados nas telas. A deputada frisou que o projeto de lei não proíbe totalmente o celular, que pode ser usado para fins pedagógicos.
“Não é uma questão de ser contra a tecnologia, as possibilidades da internet são infinitas”, disse. “Mas há um papel importante da escola que é o desenvolvimento de competências relacionais, de sociabilidade.”
Flip 2026
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho e homenageia a poeta paulista Orides Fontela. Leia mais sobre a Flip 2026.
