A escritora e tradutora estadunidense Lydia Davis (Theo Cote/Divulgação)

Crítica Literária,

Inspiração, composição e corte

Em ensaios, Lydia Davis decupa seu processo de escrita — das ideias que podem originar uma história a como evitar formas gastas

01jun2026 • Atualizado em: 28maio2026 | Edição #106

Para começar uma resenha é necessário ter prazo. Ou uma frase. Um caminho, um gesto em meio ao dia, uma cena do diário ou quem sabe um texto matriz, do qual se faz colagem, montagem ou análise.

Também são importantes as anotações. Para começar uma resenha preciso ter trechos selecionados, outros que lembrei; trago um livro da estante e tomo três cafés. Escrever é um gesto de observação. 

Hoje de manhã, caminho pela casa me sentindo feliz e fico impressionada com o que estou fazendo. Na verdade fico impressionada com um único gesto que faço por acaso, mas esse gesto me inspira a escrever uma frase descrevendo o que acabei de fazer. 

Para escrever é necessário prestar atenção, e a gente presta atenção quando anota.

do meu caderno:

Fico esperando um e-mail novo e interessante, mas já faz horas que aparece a mesma linha de assunto: “Trator Kubota usado à venda”.

Lydia Davis, em seus ensaios sobre práticas de escrita reunidos na coletânea Um pato amado é assado, nos conta, decupa e analisa seu processo de escrita e formação como escritora. São nove ensaios, muito bem traduzidos por Camila von Holdefer, que soube manter a secura e a precisão das palavras, tão caras à autora. 

A cada ensaio, uma rota bem específica: caminhos de leitura, de formação, de despiste de formas gastas, de ideias, modos de composição de contos, e-mails de origem, modelos usados. A autora discute, por exemplo, o conceito de inspiração: onde, quando e por que começa uma história? (No meio da tarde, em um e-mail estranho, na fala de uma pessoa, em excertos de correspondência alheia, trechos de texto alheio, no catálogo de vendas, ou num conjunto de cartas de alunos da segunda série.) 

Davis nos alerta o tempo inteiro sobre o perigo das frases feitas, das expressões conhecidas

Do meio da tarde ao conto. O que fazer com o eu. O e-mail inspirador. A diferença entre “vento, caçadores, fumaça, exército” e “vento, caçadores, chuva, exército”. Maneiras de enumerar. Instruções para fugir dos lugares-comuns. Exercícios de restrição, colagem, montagem.

Então, trata-se de um livro, em primeiro lugar, muito generoso, de compartilhamento, análise literária cerrada e exercícios práticos. Festa para a escrita, para a professora de escrita criativa, para quem quer escrever, para quem gosta da Lydia Davis, para quem gosta de contos, para quem se indaga sobre como se dão, afinal, os processos de criação. 

Eu ia escrever “os mistérios dos processos de criação”. Mas acabei de ler o livro e Davis nos alerta, o tempo inteiro, sobre o perigo das frases feitas, das expressões conhecidas. Todo o caminho da autora é mostrar gestos de busca e atenção ativas, hábitos de escrita e maneiras de ler que desencadeiem processos de criação singulares. Sem precisar que a chama do gênio inspirado caia sobre sua cabeça, escritora. Interessa à autora o desvio do lugar-comum: “pensamos, primeiro, na forma tradicional, e só depois de modo mais ousado e inventivo”. 

Lâmina

Davis é escritora e tradutora estadunidense. Publicados no Brasil, temos os livros de contos Tipos de perturbação (trad. Branca Vianna, Companhia das Letras, 2013) e Nem vem (trad. Branca Vianna, Companhia das Letras, 2017), e o romance O fim da história (trad. Julián Fuks, José Olympio, 2016). Ela faz seus contos da matéria da vida: suas narrativas nascem de um conjunto de cartas que crianças de uma escola escreveram para o colega doente, de anotações de diários, uma frase ouvida, um trecho de e-mail. Contos curtos, alguns curtíssimos, fragmentários, singulares, quase a faca só lâmina cabralina. 

No segundo ensaio do livro, “Comentário sobre um conto curtíssimo (‘Em uma casa sitiada’)”, a autora conta que, no outono de 1973, aos 26 anos, morando no interior da França, forçava-se a ficar certo número de horas na escrivaninha, escrevendo tudo o que vinha à cabeça.

(Para escrever esta resenha precisei ficar sozinha, ler bastante e, principalmente, sentar e escrever. Durante algum tempo.)

E escrever não é a investigação de dentro de si; pelo contrário, é a descrição do mundo ao redor. Vai olhando e descreve. 

Faz esse exercício, todo dia, por quinze minutos. A mesa, os sons, o vento, a conversa de ontem, o que se comeu, a lista de compras. Tudo isso, se não é história já pronta ou matéria de história, é, no mínimo, escrita — e mesmo as frases do caderno mais banais são relidas e reescritas à exaustão pela escritora. 

A autora nos leva a vagar por seu quarto, diário, páginas de livros, caixa de e-mails, leituras e gestos

Então Davis acordou pela manhã e ficou um tempo deitada na cama. Prestou atenção ao redor e depois escreveu, ou prestou atenção porque escreveu, ou ao mesmo tempo: 

Os tiros dos caçadores hoje de manhã (enquanto ainda estava deitada na cama, tentando organizar os pensamentos): uma explosão, um estalo: depois o eco ou reverberação feito nuvens de fumaça varrendo as colinas e retornando. E tudo fica silencioso e pacífico até que há outro tiro abafado.

Mas isso ainda não é um conto; isso é o trecho de um escrito de um caderno, em que a manhã foi anotada. “Mas o conto ‘A casa sitiada’ brotou da situação e das descrições escritas no caderno.” Então a gente lê a primeira versão do conto: 

Em uma casa citiada viviam um homem e uma mulher, com dois cães e dois gatos. Também havia ratos lá, mas passavam despercebidos. Ao redor da cozinha, o homem e a mulher ouviram pequenas explosões. “O vento”, disse a mulher. “Caçadores”, disse o homem. “Fumaça”, disse a mulher. “ O exército”, disse o homem. A mulher queria ir para casa, mas já estava em casa, ali no meio do país em uma casa sitiada, em uma casa que pertencia a outra pessoa. 

A experiência vivida, anotada no diário; a transformação dessa experiência em uma narrativa breve. Qual é a alquimia? Essa é uma das investigações da autora. Nasceram personagens, nasceu contexto. Mas agora o que é realmente importante manter? 

(Para escrever esta resenha precisei obedecer ao número de caracteres, o que me deu uma restrição espacial, o que me obrigou a um enquadramento do que dizer e o que não dizer, o que possibilitou a escrita e me deu um eixo de revisão.)

Quadro

Julio Cortázar, em “Alguns aspectos do conto”, escreve que o conto parte da noção de limite. Limite físico: conto é o que se lê de uma sentada, explicou Edgar Allan Poe. Deve ser curto, o que leva a uma escolha precisa de tema (e não existe tema ruim, mas existe tema genérico), que pede enquadramento, que pede precisão, que pede economia de linguagem. 

O contista não tem o tempo como aliado e isso obriga a uma escolha narrativa sem desvios. Na imagem célebre: se no romance o escritor ganha por pontos, no conto se ganha por nocaute. 

Volte à primeira versão do conto. Leia logo acima. O que sobra? Por quê? 

Davis nos dá a terceira e última versão, com direito a título e correção de ortografia:

Em uma casa sitiada

Em uma casa sitiada viviam um homem e uma mulher. De onde se encolhiam, na cozinha, o homem e a mulher ouviram pequenas explosões. “O vento”, disse a mulher. “Caçadores”, disse o homem. “A chuva”, disse a mulher. “O exército”, disse o homem. A mulher queria ir pra casa, mas já estava em casa, ali no meio do país em uma casa sitiada. 

Tudo o que sobrava em termos narrativos foi retirado. Os dois cães e os dois gatos talvez existissem na vida real, mas, para a atmosfera ameaçadora que a casa precisava ter, sobravam. Os ratos correndo pela casa se foram também: “tagarelice”, escreve a autora. 

O homem e a mulher na cozinha ganham um gesto na versão final. A autora ilumina o achado que foi o verbo “encolher”: 

A inserção de “onde se encolhiam” acrescenta um drama explícito, ao passo que, se eu tivesse dito simplesmente “da cozinha”, o drama seria menor sobretudo porque cozinha carrega associações acolhedoras (até que alguém tenha que se encolher nela). 

A mudança de “fumaça” para “chuva” substitui algo inaudível por algo audível.

Há também o problema de onde terminar, uma velha questão para quem lida com narrativas. E também tema de discussão de Davis ao longo de seus ensaios. 

“Em uma casa que pertence a outra pessoa” era a frase final na primeira versão. Caiu também. “Essa frase é confusa e acrescenta uma informação nova que não tem nada a ver com o ponto central.” Terminou com “em uma casa sitiada”, que ressoa com o título e chama atenção para o mais importante. 

“Última alteração”, escreve a autora: “na versão final, eu já sabia como se escrevia sitiada”.

Um pato amado é assado foi publicado pela WMF Martins Fontes como parte da excelente coleção Errar melhor, organizada por Joca Reiners Terron. “Ensaios que reproduzem o próprio movimento da escrita, entre o errar (vagar) e o encontro da forma. Singulares pontos de vista sobre o processo de existir e escrever.”

Lydia Davis nos leva a vagar por sua singularidade, seu quarto, diário, páginas de livros, caixa de e-mails, leituras e gestos, até o encontro da forma. A singularidade aqui talvez não esteja nem no processo de existir nem daquele de escrever, mas no encontro da escrita no gesto mais besta de estar na cozinha. Quem sabe assando um pato. Mas não um pato qualquer. Um pato amado é assado. E o texto aconteceu.

Davis nos dá a participar do acontecimento dos seus contos. Linha por linha, acrescidas de indicações de leituras e sugestões de hábitos. Imperdível. 

Quem escreveu esse texto

Luana Chnaiderman

Escritora e professora, é autora de Os animais domésticos e outras receitas (Perspectiva).

Matéria publicada na edição impressa #106 em junho de 2026. Com o título “Inspiração, composição e corte”

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.