A linguista argentina Marina Berri (Alejandra López)

Linguagem,

Enquanto houver palavras há esperança

Linguista argentina nos apresenta o alfabeto e as paisagens da língua russa por meio de reflexões, referências literárias e histórias cotidianas

08ago2025

Alfabeto russo, da linguista argentina Marina Berri, é daqueles livros de difícil classificação. Ganhou, por unanimidade, o prêmio de não ficção Latinoamérica Independiente em 2024. Segundo a carta do júri, “a obra propõe uma transição bem-sucedida entre o narrativo, o argumentativo e o poético, ampliando as fronteiras da não ficção contemporânea escrita na América Latina”.

Além de dedicar-se a aprender russo, a viver o russo e a habitar a Rússia sem sair da Argentina, a autora nos leva junto nessa jornada. Com ela, escalamos o alfabeto e passeamos de trenó pelas paisagens da língua. Conhecemos o alfabeto russo através de palavras, duas para cada letra, uma maiúscula e outra minúscula. Para cada palavra, um texto — ora memória, reflexão, análise literária ou narrativa, mas sempre um mergulho nas palavras em toda sua dimensão: traço, som e os múltiplos e pessoalíssimos sentidos que Berri lhes atribui.

As palavras, no alfabeto de Berri, têm lugar, histórias e gosto. São estranhas e muito próximas, fazem parte do cotidiano, da conversa com os filhos, das leituras da vida, do que se busca na internet. As palavras estão nos doces e nas pinturas de Mikhail Roginsky, “suas cores chapadas, que dão a impressão de terem sido pintadas com giz molhado”. O que Roginsky retrata? Prateleiras cheias de garrafas, sapatos, cozinhas soviéticas. “O pote com escovas de dente, o despertador e a frase: ‘enquanto houver objetos simples, ainda há esperança’.”

Vida, livros e objetos simples se entrelaçam e as fronteiras entre linguagem e mundo ficam esfumaçadas. “Penitência”, escreve Berri no verbete nakazánie, “palavra que parece saída de um lugar recôndito, de um passado de chá açucarado e xícaras de plástico. Tem gosto de remédio, de canto, de corredores altos”.
A palavra “penitência” ainda a leva a conversar com os filhos:

Já usei esse termo com Milo? Não.
Lucas diz que não o deixam em penitência.
Milo diz que é porque Lucas não sabe o que significa “penitência”. Penitência é quando te sentam numa cadeira e você não pode fazer nada além de ficar entediado.
Então me lembro de Petróvitch.

E da conversa com os filhos, vamos ao romance de Oleg Zaontchkóvski, que talvez não conheçamos, mas não importa, porque tudo no livro é sobre aproximação. Exceto no conto de Zaontchkóvski, em que Petróvitch — o protagonista — é condenado a ficar no cantinho, porque não gosta de brincar de ciranda nem de jogar bola.

“Vou mudar Milo de escola”, escreve Berri. Então o pensamento e a escrita da autora voltam ao personagem, para quem o jardim da infância era um “calvário cotidiano”, e voltam ao filho, e passeiam pelas freiras e voltam à palavra.

A experiência de leitura de Alfabeto russo é contrária à da penitência, vamos lendo e andando a passos cada vez mais largos, sem chumbo algum, por terras cada vez mais amplas, na enorme expansão que é conhecer a língua russa, e mesmo a Rússia, pelas palavras de Berri.

Abecedário

“Com belas variações”, escreve Marina Berri, “todos os abecedários consistem, de modo geral, numa tabela com letras e desenhos: são os grampos de gelo que usamos para escalar as palavras antes de deslizar sobre elas num trenó.”

Grampos de gelo têm forma, riscos ondulados e retos. Servem para prender o que dissolve e escorrega. Uma vez, sem óculos, as letras no papel me pareceram formigas, cada uma um passo e cada passo um traço; em cada traço, um caminho de ar; nas ondas de ar, um mundo inteiro.

Vida, livros e objetos se entrelaçam e as fronteiras entre linguagem e mundo ficam esfumaçadas

O caminho da autora é procurar apreender aquilo que nas palavras se dissolve, não o seu estado de dicionário, mas a experiência da palavra: as cenas de vida e cultura que uma única palavra traz. É um livro de panorama, e de mergulho também: as maiúsculas trazem nomes próprios, de personagens literários, escritoras e escritores, cidades; as minúsculas nos trazem os pátios dos prédios russos, os xingamentos soviéticos (parasita!), xícaras de chá e comida, como o aspic (stúden) do conto de Tolstáia:

O conto é na verdade uma receita. Uma receita para a felicidade. Mas é também a receita do prato do título. […] O aspic é um aquário tropical: gelatina transparente com frutas dentro, ou no máximo vegetais coloridos num fundo indistinguível.[…] Por outro lado, o stúden russo é um aquário abissal de oceano salgado. Gelatinizado até o ponto da fossilização — a gelatina, só agora paro para pensar, é outra forma de eternidade — deixa ver fios de carne bovina, de cenoura, de algo que suspeito ser gordura fria.

No trenó de Berri cabem romances inteiros, lembranças pela metade, imaginações animadas, sites de fotografia e propagandas antigas. Cada palavra, um trem.

Há, na escalada de Berri, o espanto e o fascínio de quem olha o mundo com olhar estrangeiro, olhar que talvez seja compartilhado, num primeiro momento, somente com seus filhos, crianças de Buenos Aires que, no contraturno da escola argentina, vão à escola russa. Aquele espanto de quem descobre as palavras e, com as palavras, descobre também as coisas do mundo. De outros mundos, distantes e próximos. É um livro de palavras escrito no lugar do afeto e da estranheza.

Berri quer entrar na letra, e encontra, mesmo naquelas sem som, toda uma paisagem narrativa. O sinal duro, por exemplo, é a vigésima oitava letra do alfabeto cirílico. Indica uma pausa antes da sílaba seguinte, e a letra traz a geada, não uma qualquer, mas a do conto “Geada”, de Vladimir Korolenko:

O sinal duro […] me lembra o conto, ou melhor, como a geada é descrita no conto: não só porque, de um modo preciso e metafórico, o sinal é duro e a geada endurece e separa o mundo em blocos, mas também porque no seu traçado consigo ver estilizados os chifres de uma cabra, o papo de um pato, a forma como um homem se contorce antes de morrer congelado e até o buraco, que poderia ser a consciência, mas que também tem um gancho.

Uma letra, para Berri, carrega uma história, a história uma tempestade, a tempestade uma geografia e a geografia o mundo. No mundo, homens separados pela geada enorme saem para procurar mesmo os que já morreram.

Sair de si, deslocar-se, movimentar-se. No verbete iékhat, aliás, a autora nos leva novamente a viajar de trem, quando volta para casa depois de dar aulas e, cansada demais para ler, abre na internet a página A História da Rússia em Fotografias.

Nas fotografias estão todos os ingredientes para uma viagem. Basta olhar e montar. Escolher, claro, um veículo da lista. Escolher um caminho: se você digitar essa palavra, o site mostra caminhos campestres e urbanos, que são ruas, mas em russo também são caminhos. Em geral, os caminhos das fotos não parecem levar a lugar nenhum, pelo contrário, cortam e atravessam aldeias, bosques, trilhas. Estão parados.

Para que os caminhos sejam percorridos, explica Berri, é necessário escolher um veículo, a estação do ano e a paisagem, embora a paisagem “já esteja contida na estrada e na época do ano. Sim, o passageiro é importante, embora não muito. O destino não”.

É isto também o que Berri faz: escolhe as palavras e as ordena segundo o alfabeto, e para cada palavra traça uma paisagem, uma estação, um caminho. Mais que o destino ou o ponto de chegada, mais que os passageiros, o importante é o caminho. O veículo? O veículo são as palavras, levadas pelas letras, levadas pelo ar da experiência e da memória.

Língua estrangeira

Em A obrigação de ser genial (Bazar do Tempo, 2024), a também argentina Betina González escreve que falar uma língua estrangeira é estar em constante deslocamento:

No desejo de outra língua, já existe o desejo de ser outra, de habitar outra linguagem, de encontrar nela uma chave para a porta fechada: a permissão para a invenção. Falar uma língua estrangeira já é ser uma escritora de ficção. É uma locomoção, um deslocamento permanente. Somos sempre outra pessoa em outra língua e isso tem um componente lúdico semelhante ao da ficção.

Nesse mesmo texto, González defende o deslocamento como algo necessário para a escrita literária: mergulhar na linguagem é deslocar-se. Escrever é deslocar-se. Berri nos convida ao deslocamento.

O primeiro verbete é o da palavra alogism, alogismo, “os raciocínios que vão contra a lógica, os fios de pensamento que se emaranham e nos deixam suspensos no vácuo. Mas essa definição enciclopédica fica aquém de Gógol, que martela a lógica de maneiras imprevisíveis. Nos alogismos, “as ideias desencaminhadas se escondem entre as decentes”: “Excelente pessoa, esse Ivan Ivánovitch! Ele gosta muito de melões”, escreve Gógol.

O esperado é que a frase seguinte ao elogio trouxesse alguma espécie de comprovação de como Ivan Ivánovitch é excelente. Ora, podemos também gostar ou não de melões, mas isso diz muito pouco acerca do nosso caráter. O alogismo nos surpreende, desmonta a lógica, aproxima distâncias e isso me parece ser também o caminho tomado pela ensaísta, que se deixa derivar e viajar por associações, lembranças e conhecimentos que cada palavra traz.

Berri se deixa mergulhar até mesmo no traço da letra, e nele encontrar toda uma história

Grampear o gelo é o tipo de missão impossível. O gelo derrete, desmolda e se molda de novo, está lá e logo já não estará. O alfabeto prende a palavra na pedra, podemos guardá-la e trazê-la para perto, mesmo quando não há ninguém falando, antes que ela derreta novamente no mundo dos vivos.

Talvez seja esse o verdadeiro ofício de Berri, ela é como um relojoeiro míope, olhando muito para uma mesma coisa, uma mesma engrenagem. Mas, sem o compromisso de acertar ponteiros, Berri se deixa derivar, associar, mergulhar até mesmo no traço da letra, e nele encontrar toda uma história. Deslocada, nos desloca também, neste livro que é também pop, “descolado”, e que nos deixa um pouco tristes, com saudade dessa Rússia que talvez nem exista.

Esse livro é escrito a partir de um lugar de fascínio, de amor pela cultura russa, mas não ignora todas as sombras da Rússia. É um livro que não cede à cultura do cancelamento tão sentida por muitos de nós que trabalhamos com o russo na Argentina.

Um livro-ponte, e enquanto houver pontes, e também objetos simples, ainda haverá esperança.

Quem escreveu esse texto

Luana Chnaiderman

Escritora e professora, é autora de Os animais domésticos e outras receitas (Perspectiva).

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