Ulisses e as sereias, pintura de Otto Greiner, ilustra uma passagem da Odisseia, de Homero (Culture Club/Colaborador/Getty Images)

Crítica Literária,

A viagem é longa… mas vale o percurso

Guia para compreender a Odisseia — primeiro no Brasil — serve tanto a especialistas quanto a leitores curiosos

22abr2026 • Atualizado em: 27abr2026

Ninguém ousaria negar o lugar central que a Odisseia de Homero ocupa no cânone literário ocidental, a começar pelo impacto recorrente que a obra teve e continua tendo em diversos campos da literatura — desde épicas gregas, como as Argonáuticas, de Apolônio de Rodes (séc. 3 a.C.), passando pelo mundo romano, como a Eneida, de Virgílio (séc. 1 a.C.), depois indiretamente na Divina comédia, de Dante Alighieri (séc. 14), n’Os Lusíadas, de Camões (séc. 16), até dar em romances modernos, como o Ulysses, de James Joyce (séc. 20), ou em obras contemporâneas, como A odisseia de Penélope, de Margaret Atwood (séc. 21). Isso para ficar em apenas um punhado de obras literárias, sem qualquer pretensão de esmiuçar influências indiretas ou tocar em outras artes, como a pintura, o teatro, o cinema, os quadrinhos e a música. Eu ousaria dizer que a Odisseia ocupa pervasivamente o imaginário coletivo, de modo que mesmo quem não a leu é, de alguma forma, atravessado por ela. 

Então, se vocês por acaso já não sabem por experiência direta, podem acreditar em mim: é das coisas mais fascinantes que alguém pode ler neste mundo. Portanto, que quem não leu trate de ler — e não vai sair arrependido. Como diz Giuliana Ragusa, que escreveu este guia de leitura da Odisseia, “A viagem é longa… mas Ítaca vale o percurso”. 

Belas criaturas

Resumidamente, o poema épico de Homero, organizado em 24 cantos, narra os últimos dias do retorno de Odisseu (ou Ulisses, nome romano do herói) para seu reinado na ilha de Ítaca, depois da Guerra de Troia. A guerra durou dez anos e a volta leva mais quase dez anos — portanto, vinte anos sem a família saber se ele está vivo ou morto, sem ele saber se ainda tem um lugar ao sol na sua própria terra. Odisseu é um personagem quase mágico, mentiroso por definição, sobrevivente por excelência, homem de muitas voltas, muitos recursos, muita lábia. Chega a ser poeta diante da corte dos feácios, quando conta histórias absurdas, como a do ciclope Polifemo, a das sereias, a dos comedores de lótus, a dos companheiros transformados em porcos etc. 

Apesar do lugar canônico, não havia no Brasil nenhum guia da ‘Odisseia’ acessível em português

No entanto, está longe de ser o único centro do poema: igualmente importantes são o seu filho Telêmaco — que sai em viagem pelo mundo grego em busca de informações sobre o pai — e a esposa Penélope — aquela mesma que tece um manto de dia e o destece de noite, que passa os anos tentando se livrar de vários pretendentes que assomam ao palácio em busca de casamento e lugar ao trono. 

São personagens cativantes: Telêmaco é jovem demais para enfrentar a todos sozinho e parte numa viagem, quase um “romance de formação”; Penélope fica trancada no palácio à espera do marido, ali vive o drama da mulher no mundo patriarcal e triunfa pela inteligência; e Odisseu é o herói, malandro, exausto, que vai chegar a qualquer custo e retomar o seu lugar. Três histórias se cruzando no meio da desesperança, narrativas dentro de narrativas, afetos complexos e misturados, e mais uma gama de personagens igualmente interessantes, como Calipso, Circe, Nausícaa, o porqueiro Eumeu, os poetas Fêmio e Demódoco, os pretendentes etc.

Princípio

Não é à toa que muita gente diz que a Odisseia é o primeiro romance da literatura ocidental, mesmo que esteja em verso. É, num mesmo movimento, um rastro arcaico e um objeto moderníssimo. Se pudermos mesmo afirmar que é o primeiro romance, o certo é que já começamos em alto nível. 

Daí sua reiterada continuidade no centro do cânone. Se claramente a obra defende os valores arcaicos da aristocracia monárquica e do patriarcalismo, se retrata uma paisagem social desigual, escravocrata e continuamente violenta, ela é também capaz de abrir espaços para que tudo isso seja revisto criticamente, com uma percepção complexa do mundo, das pessoas e dos deuses. Ler, ou reler, a Odisseia é tudo, menos cair numa repetição batida.

Curiosamente, apesar desse lugar canônico, não havia no Brasil até o momento nenhum guia de leitura acessível em português. Nada que se comparasse, por exemplo, a Roteiro de Macunaíma, de M. Cavalcanti Proença, sobre o romance de Mário de Andrade, ou a Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce, de Caetano W. Galindo. Na verdade, embora haja algumas traduções integrais da Odisseia publicadas no Brasil (pelo menos sete já saíram por editoras nacionais), até hoje faltava um livro paralelo que oferecesse aos leitores interessados um repertório linguístico, cultural, sócio-histórico etc. capaz de amparar a leitura solitária e dar boas balizas a caminhos interpretativos, seja para novatos na literatura antiga, seja para quem está em processo de formação mais avançado, como estudantes de graduação em letras.

Dois guias

Essa lacuna foi finalmente preenchida com a publicação de dois guias de leitura preparados por Giuliana Ragusa: um para a Ilíada, lançado no final de 2024, e este dedicado à Odisseia, que acaba de sair. Com os dois, é possível ter um material de apoio ao mesmo tempo claro e refinado sobre o corpus tradicionalmente atribuído a Homero e datável em torno do século 8 a.C. — os debates sobre datação são longos e complexos; por isso, nem me arrisco a esboçar a questão homérica aqui.

Ragusa é professora livre-docente de língua e literatura grega na USP, onde leciona desde 2004, com uma trajetória sólida no campo dos estudos clássicos, que conta com pesquisas sobre lírica arcaica e uma tradução dos principais fragmentos de Safo de Lesbos, além de duas antologias comentadas sobre poesia grega: Lira grega (Hedra, 2024) e Elegia grega arcaica (Ateliê Editorial, 2021, em parceria com Rafael Brunhara). Também traduziu recentemente, com Bruno Costa, a Antologia de Spoon River (Ex Machina, 2024), do norte-americano Edgar Lee Masters. 

A professora e escritora Giuliana Ragusa (Divulgação)

Nos dois guias de leitura a Homero, publicados pela editora Mnema, Ragusa continua seu trabalho, que toma o melhor da literatura especializada sobre o assunto para produzir um livro que seja acessível aos leigos, sem cair em soluções rasas. Ela mesma conta, logo na primeira página, que foi com base em duas décadas de prática docente que concebeu seu material de leitura.

Para dar conta do desafio, A Odisseia de Homero: guia de leitura apresenta uma introdução de vinte páginas, que retoma vários pontos levantados no volume sobre a Ilíada, elabora uma breve síntese narrativa da Odisseia, estabelece pontos centrais que regem metodologicamente os dois guias e termina com uma comparação entre os dois poemas homéricos, destacando afinidades e também divergências substanciais. 

Em seguida, Ragusa analisa os 24 cantos do poema épico, com um capítulo para cada um deles, sempre na mesma estrutura: em primeiro lugar, um comentário crítico e corrido ao que é narrado em cada canto; depois, um esquema geral, em que propõe uma divisão narratológica; e, por fim, uma leitura passo a passo dessas divisões, indicando os versos, para melhor acesso. Trata-se de uma divisão para fins didáticos, que funciona quase sempre com bastante clareza, embora a fluidez do texto homérico dificulte a decomposição narrativa em cortes exatos. 

Ragusa apresenta duas ou mais possibilidades interpretativas, que podem ou não ser conciliadas

Um detalhe importante: como Ragusa conta os versos segundo a numeração tradicional dos editores especializados, quem estiver lendo a Odisseia em português deveria procurar uma edição brasileira, com tradução verso a verso, que mantenha a mesma numeração, como as de Christian Werner, Trajano Vieira, Carlos Alberto Nunes ou Frederico Lourenço. A de Leonardo Antunes também pode funcionar, porque sistematicamente traduz dois versos em português para um verso grego. 

Em certas passagens, Ragusa translitera e traduz trechos que merecem um comentário no original; em outras, envereda por discussões hermenêuticas e mesmo aporias que o texto continua a nos oferecer depois de mais de dois milênios e meio. Nesses momentos, a estudiosa busca apresentar concisamente duas ou mais possibilidades interpretativas, que podem ou não ser conciliadas.

Ao fim do volume, encontramos um prático glossário de termos conceituais, devidamente transliterados do grego e acompanhados de uma tradução sumária, bem como as referências bibliográficas, que acertam em apresentar uma escolha concisa de títulos, dentro da já incontável bibliografia homérica, que nunca para de crescer.

Trocando em miúdos, os dois guias de leitura apresentados por Ragusa podem muito bem servir de companheiros para leitores bem viajados no mundo homérico. E oferecem, finalmente, um desdobramento dos estudos clássicos para o público amplo de leitores interessados e curiosos, que hoje percebe como as várias traduções que já temos se enriquecerão com um estudo passo a passo.

Quem escreveu esse texto

Guilherme Gontijo Flores

Poeta, tradutor e ensaísta, escreveu Brasa enganosa (Patuá), l’azur blasé (Kotter/Ateliê) e carvão : : capim (Editora 34).