Da esquerda para a direita: fac-símiles do poema “Noite” (1910), de “Viagem espiritual” (1909), de “Fonte” (1912) e de trecho do Livro do desassossego (1929) (Biblioteca Nacional de Portugal/Divulgação)

Crítica Literária,

Espelhos fantásticos

Novas antologias extraem do mínimo da poesia e da prosa de Fernando Pessoa o máximo da sua multiplicidade e inventividade

06abr2026

Fernando Pessoa foi um assíduo frequentador do café A Brasileira, que até hoje se encontra nos números 120-122 da rua Garrett, em Lisboa — quem lá chega atrás de uma bica se depara com uma estátua do poeta à entrada. Ele fazia do local no Chiado um escritório improvisado, onde se dedicava a leituras, escrevia e se encontrava com outros escritores. Em um papel timbrado do café, Pessoa confessou, em caligrafia quase ilegível: “Não sei quem sou, que alma tenho”. Prossegue o poeta: 

Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única central realidade que não está em nenhum e está em todos. 

É uma imagem muito adequada para descrever Pessoa, este “sujeito estourado em mil sujeitos, para se tornar um não sujeito”, como apontou a crítica Leyla Perrone-Moisés no clássico ensaio Fernando Pessoa: aquém do eu, além do outro (WMF Martins Fontes, 2001).

Retrato de Fernando Pessoa feito por Vitoriano Braga em 1914 (Folhas de Arte/Divulgação)

Alguns desses “espelhos fantásticos” aparecem reunidos pela primeira vez em duas antologias recém-lançadas pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um. Antologia mínima: poesia e Antologia mínima: prosa foram organizadas por Jerónimo Pizarro, responsável pela maior parte das novas edições e séries de textos de Pessoa publicadas em Portugal desde 2006. O crítico procurou reunir o essencial do autor de Mensagem sem descuidar de iluminar facetas menos lembradas do poeta, como a humorística e a política.

Pizarro elenca alguns desafios que fazem da tarefa de organizar uma antologia pessoana “um trabalho crítico particularmente exigente”. “Parte significativa da produção literária de Pessoa permaneceu inédita durante décadas e continua, em certa medida, em processo de fixação. Além disso, trata-se de um autor que escreveu sob mais de uma centena de nomes — os chamados heterônimos e muitos outros autores fictícios — e em pelo menos três línguas (português, inglês e francês).”

É preciso ainda rever variantes entre edições anteriores, corrigir leituras e estabelecer textos fiáveis a partir de materiais que muitas vezes são fragmentários.

Porta de entrada

Fala-se muito do Pessoa poeta, mas a verdade é que a maior parte do espólio pessoano está em “prosa”, e a organização de Pizarro não selecionou apenas a prosa poética, o que limitaria a antologia a alguns contos e trechos do Livro do desassossego. O autor de Ler Pessoa, guia de leitura publicado pela Tinta-da-China Brasil em 2023, desejou que essa porta de entrada do universo pessoano incluísse ainda escritos sociopolíticos, filosóficos, esotéricos, notas e apontamentos.

Pizarro enxerga uma antologia não apenas como seleção, mas também como interpretação. “Ao longo do tempo, procurei consultar várias antologias existentes, sobretudo aquelas organizadas por poetas e ensaístas relevantes, porque cada uma delas propõe uma leitura singular da obra”, afirma. “Esse diálogo entre diferentes abordagens acaba por enriquecer a nossa própria leitura de Pessoa.”

Fac-símile do poema “Deixo ao cego e ao surdo”, de 1930 (Biblioteca Nacional de Portugal/Divulgação)

Além de fragmentos do Livro do desassossego, aparecem no volume de prosa textos que vão da política ao ocultismo, manifestos e cartas — entre elas, a célebre missiva de 1935 ao amigo Adolfo Casais Monteiro na qual o poeta explica a origem dos seus três heterônimos mais famosos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. “A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que existe em mim.” Ele reconta o episódio ocorrido em 1914, quando, após escrever trinta e tantos poemas a fio, apareceu nele alguém, “a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro”. Manifestado o bucólico Caeiro, que exalta a natureza em versos livres, “tratei logo de lhe descobrir uns discípulos” e surgiram o classicista Reis e o desenfreado e melancólico Campos.

Pizarro procurou iluminar facetas menos lembradas do poeta, como a humorística e a política

Pessoa explicou a diferença entre pseudônimos e heterônimos na “Tábua bibliográfica”, publicada em 1928 na revista Presença. “A obra pseudônima é do autor em sua própria pessoa, no nome que ele assina; a heterônima é do autor fora de sua pessoa, é de uma individualidade completa fabricada por ele, como seriam os dizeres de qualquer personagem de qualquer drama seu.”

O tomo de prosa inclui ainda textos como “O que quer Orpheu?”, espécie de manifesto da revista que em 1915 inaugurou o modernismo em Portugal e deu nome a uma geração de poetas e pintores; e dois fragmentos sobre o Sensacionismo, poética criada por Pessoa que rejeitava a ideia de que a arte deve ser determinada coisa: “Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela”, anotou o poeta, em frases curtas e afirmativas típicas dos manifestos dos “ismos” que pipocavam pela Europa daqueles anos.

A política surge em trechos como o comentário de Pessoa a uma carta de Benito Mussolini publicada pelo jornal britânico The Times e numa crítica à censura do Estado Novo, instaurado em 1933 em Portugal. O ditador António de Oliveira Salazar disse que os escritores portugueses deveriam seguir as “diretrizes” do regime, ao que Pessoa respondeu em um texto escrito em francês, que no livro é seguido de tradução: 

O soneto à rapariga loura deverá servir o Estado Novo; o conto regionalista deverá ter qualquer ligação com os benefícios da Ditadura. Como, todavia, é bastante dificultoso misturar o Estado Corporativo com os cabelos cor de mel da rapariga sonetizada […], estamos logicamente reduzidos a só escrever diretamente sobre os elementos do Estado Novo.

“Parece-me importante reinscrever Pessoa no seu tempo histórico, mostrando que não era apenas um escritor voltado para a interioridade, mas também alguém atento às questões políticas, culturais e ideológicas do seu contexto”, explica Pizarro.

Simpatizante da maçonaria, apesar de negar ser ele mesmo um maçom, Pessoa saiu em defesa da ordem depois que a Assembleia Nacional controlada por Salazar tentou proibir “associações secretas” no país. Mesmo sem fazer menção à maçonaria, todos sabiam ser ela o alvo do projeto de lei. Em um vigoroso artigo publicado na primeira página do Diário de Lisboa de 4 de fevereiro de 1935, Pessoa afirmou “ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica” e citou a vitória dos Aliados na Primeira Guerra Mundial como obra do maçom Eduardo VII, rei da Inglaterra, além da “maior obra da literatura moderna — o Fausto, do maçom Goethe”.

Fac-símile de O que quer Orpheu?”, de 1915 (Biblioteca Nacional de Portugal/Divulgação)

O espírito minimalista que guiou Pizarro não o deixou esquecer a veia humorística do poeta português, que morreu meses depois de escrever o artigo pró-maçonaria, com apenas 47 anos. “Pessoa tinha um sentido de humor bastante apurado, visível não só em textos como a ‘Crónica decorativa’, mas também em muitas cartas e colaborações jornalísticas”, afirma. “Havia, da minha parte, a intenção de dar espaço a essa dimensão menos sublinhada da sua escrita.” O editor, inclusive, pensa em reunir no futuro um conjunto de textos pessoanos de pendor mais explicitamente humorístico.

Na “Crónica decorativa”, de 1914, Pessoa tece uma espirituosa reflexão sobre o Japão a partir do encontro com um professor da Universidade de Tóquio. “Surpreendeu-me a realidade quase evidente da sua presença. Nunca supus que um professor da Universidade de Tóquio fosse uma criatura, ou sequer cousa, real.” O poeta explica que todas as suas ideias sobre o Japão “derivam de um estudo demorado de vários bules e chávenas”. Da louça japonesa emerge um povo e uma cultura em duas dimensões, e do contraste com o falante dr. Boro resulta um texto hilário: “O mais provável, a respeito deste Boro, é que nascesse em Lisboa e se chame José. Do Japão, ele? Nunca”.

Processo de escrita

Assim como ocorre na antologia da prosa, a de poesia é enriquecida por fac-símiles que permitem vislumbrar o processo de escrita de Pessoa e distinguir uma caligrafia que oscila entre uma letra enérgica, febril, e outra inclinada e elegante que quase desaparece em um traço horizontal.

Além dos poemas do próprio Pessoa, de Caeiro, Reis e Campos, aparecem versos dos chamados pré-heterônimos em inglês, como Charles Robert Anon e Alexander Search — Pessoa viveu nove anos da infância em Durban, na África do Sul, e aspirava originalmente a ser um poeta anglófono, conforme conta Richard Zenith em Pessoa: uma biografia (Companhia das Letras, 2022). 

Ter vencido aos quinze anos um prêmio de melhor redação que carregava o nome da rainha Vitória fortaleceu essa ambição, mas havia um fator impossível de ignorar: ele não sabia como sentir intensamente em inglês, suas emoções mais profundas estavam enraizadas na língua de Camões.

‘Os poemas em inglês que Pessoa não publicou em vida continuam um campo para novas descobertas’

A maior parte da antologia de poesia é dedicada a poemas assinados por Pessoa, muitos dos quais vieram a lume há poucos anos, o que reveste a obra de frescor. Versos dos anos de formação em Durban se somam aos do Pessoa de Mensagem, que canta o passado mítico e glorioso de Portugal, ou do poeta que olha para dentro de si em “Autopsicografia”: “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. Não poderia faltar na seleção o incontornável “O guardador de rebanhos”, de Caeiro, as odes de Ricardo Reis e o “Poema em linha reta”, de Álvaro de Campos.

Se “o tempo é o autêntico antólogo de uma obra”, como afirma Pizarro, o futuro nos reserva novas antologias de Pessoa? O organizador diz que sim. “Por um lado, há um conjunto significativo de poemas não datados que ainda não foram plenamente integrados nas edições correntes. Por outro, os poemas em inglês que Pessoa não publicou em vida continuam a ser um campo com margem para novas descobertas e reavaliações. Nesse sentido, a obra pessoana permanece, até hoje, em aberto.”

Quem escreveu esse texto

Guilherme Magalhães

Jornalista e mestrando em literatura brasileira na USP.

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