Repertório 451 MHz,

Samba e negociação

Luiz Antonio Simas diz que não vê as escolas de samba como instituições de resistência e que elas só existem porque negociam — com o poder público, o mercado, as comunidades, o crime

13fev2026

Está no ar o 183º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Em clima de Carnaval, esta edição traz uma conversa com o  historiador Luiz Antonio Simas sobre a conexão das escolas de samba com a literatura e os diversos setores da sociedade. Simas diz que enxerga as escolas não como instituições de resistência, mas de negociação — com o poder público, o mercado, as comunidades, a contravenção, o crime.

No bate-papo, ele também comenta a escolha da Acadêmicos de Niterói de homenagear, em seu enredo, o presidente Lula — o que Simas considera uma estratégia da escola para chamar atenção para sua estreia no Grupo Especial. O historiador fala ainda sobre a nova edição de Pra tudo começar na quinta-feira (Mórula), em que conta, com o jornalista Fábio Fabato, a história dos enredos e de grandes carnavalescos do Rio.

Professor há mais de trinta anos, Luiz Antonio Simas nasceu em 1967, no Rio de Janeiro. Além de dar aulas de história, é compositor e autor de mais de trinta livros, entre eles Samba de enredo: história e arte (Civilização Brasileira, 2023), com Alberto Mussa, Santos de casa: fé, crenças e festas de cada dia (Bazar do Tempo, 2022) e Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015), escrito em parceria com Nei Lopes.

Folia e trabalho 

A conversa se inicia com o convidado contando suas expectativas para o Carnaval de 2026. Simas afirma que, apesar de viver a folia intensamente, o período é de muito trabalho para ele. Neste ano, o escritor participa de desfiles também em São Paulo, onde a Independente, escola paulistana do grupo de acesso, escolheu como enredo um texto do livro Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros (Mórula, 2013) no qual o historiador reconstrói um mito banto sobre o nascimento do tambor.

O historiador Luiz Antonio Simas (Raphael Barbanjo/Divulgação)

No carnaval carioca, Simas assina sambas-enredo em parceria com compositores de duas escolas. Na Estácio de Sá, a composição conta a história do pai-de-santo Tata Tancredo (1904-1979), o “Papa Negro da Umbanda”, figura ligada à consolidação da festa de réveillon em Copacabana. Já com o Paraíso do Tuiuti, leva à avenida um samba-enredo sobre o culto afro-cubano aos orixás e o Ifá (espécie de oráculo de origem iorubá). 

Simas destaca como o tema é interessante, sobretudo por recolocar o Brasil no contexto afrodiaspórico caribenho. “O Brasil tem uma séria dificuldade de se reconhecer no contexto da América caribenha, da América Latina. O imaginário da América portuguesa é quase de se pensar como um corpo à parte. Então, o enredo do Tuiuti é uma maravilha — e eu tive a alegria de fazer o samba”, diz o professor, que tem composições gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Marcelo D2, Criolo, Maria Rita, Fabiana Cozza e Mônica Salmaso. 

Existência negociada  

No episódio, o historiador afirma que as escolas de samba não perduram por serem instituições de resistência. 

“Eu acho uma ideia um pouco pobre. O próprio conceito de resistência é muito chapado. Tem uma pauta que o outro coloca e você resiste. A resistência das escolas de samba opera no campo sutil da negociação”, diz. “As escolas de samba só existem até hoje porque elas tiveram a capacidade de negociar.”

Simas explica que isso ocorre em diferentes instâncias: com o poder público, pois as escolas dependem de subvenção; com o mercado, que oferece patrocínios e conexão com a indústria do turismo; com as comunidades, que se envolvem no dia a dia das agremiações; e, por fim, com a contravenção e as organizações criminosas, que tradicionalmente se associam às escolas, inclusive em busca de prestígio.

“O Carnaval tem uma complexidade que aponta para problemas sérios do Brasil”, diz. “As escolas de samba são instituições complexas, em que a resistência inclui o campo da negociação em busca de legitimidade.” 

Para Simas, é um equívoco tanto romantizar o carnaval das escolas quanto associá-lo essencialmente ao mundo do crime, apagando as nuances de uma manifestação cultural. A relação de um contraventor com uma agremiação, ele diz, não é a mesma que “da trabalhadora doméstica que é baiana de uma escola de samba há 35 anos”.

Enredos e polêmicas

Também no programa, Simas diz que a crise econômica e política que o Brasil atravessou a partir de 2015 e levou ao impeachment de Dilma Rousseff teve como efeito que os enredos das escolas de samba fossem mais criativos. “Você tinha [antes] marca de leite, marca de iogurte pagando para virar enredo E aí o folião tinha que desfilar de lactobacilos da folia. É uma loucura.” Com menos patrocínios de empresas, as escolas foram forçadas a reinventar suas narrativas, apostando em carnavalescos de maior densidade cultural. 

“Eu não sou contra o enredo patrocinado, até porque você está negociando com o mercado e a indústria do turismo”, ressalva. “Mas eu acho que esse enredo patrocinado tem que ter uma dimensão vinculada também ao que é o Carnaval.”

Questionado sobre a Acadêmicos de Niterói, que desfila em 2026 pela primeira vez entre as escolas da primeira divisão do carnaval carioca, com um enredo sobre a história do presidente Lula, Simas compara a escolha à “estratégia do bandido que entra no saloon do velho oeste e diz: se for para morrer, eu vou morrer atirando”.

“Acho a escolha do enredo muito inteligente. Por quê? Porque a Acadêmicos de Niterói quis criar um ‘fato’ para o Carnaval. Se ela não cria esse fato, a chance de ela desfilar incógnita era grande”, explica. 

No fim da conversa, Simas ainda contesta a ideia de que os blocos carnavalescos que renasceram na Zona Sul e no Centro do Rio restauraram o carnaval de rua carioca. “Sempre teve carnaval na Zona Norte, na Zona Oeste…”. Ele também critica a crença de que a festa no Rio de Janeiro seja a mais representativa do Brasil.

“O Carnaval não é uma [só] festa. É uma data marcada pela enorme pluralidade de festas”, afirma. “E, como carioca, vou dizer: faz mal ao Carnaval brasileiro um certo papel de centralidade do Rio de Janeiro, que é oriundo evidentemente da corte, da [época em que a cidade era] capital federal.”

“O Carnaval é plural e tem sotaques próprios”, conclui Simas, citando a folia de marchinhas em cidades como São Luiz do Paraitinga, no interior paulista, os maracatus e bonecos de Olinda, em Pernambuco, o crescimento da festa em Belo Horizonte, as escolas de samba de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, o carnaval do Pará, o maracatu cearense — diferente do pernambucano — e o carnaval baiano, que tem suas tensões resultantes da grande pluralidade. 

Livros e afins

Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:

  • Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros (Mórula, 2013), de Luiz Antonio Simas

  • O Quilombo dos Palmares (WMF Martins Fontes, 2011), de Edison Carneiro

  • Samba de enredo: história e arte (Civilização Brasileira, 2023), de Luiz Antonio Simas e Alberto Mussa

  •  Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos (Mórula, 2026), de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato

  • A extraordinária Zona Norte (Todavia, 2024), de Alberto Mussa 

  • Maracanã, adeus: onze histórias de futebol (várias edições), de Edilberto Coutinho

Mais na Quatro Cinco Um

Em 2022, Luiz Antonio Simas participou do 59º episódio do 451 MHz com a cantora e compositora Teresa Cristina. No podcast, eles falaram sobre o adiamento do Carnaval do ano de 2022 para abril devido à pandemia de Covid-19 e da perseguição política a festas populares negras no Brasil, entre outros assuntos. Ouça aqui a entrevista completa.

Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, livro de Simas e Fábio Fabato lançado originalmente em 2015, que acaba de ganhar uma reedição especial de dez anos, foi resenhado pelo sambista e historiador Vinícius Natal na edição #102 da revista dos livros, de fevereiro de 2026. 

“A escrita é fluida e assume, desde as primeiras páginas, o propósito de oferecer uma leitura acessível e envolvente, sem comprometimento com o rigor acadêmico mais estrito, como o uso sistemático de citações ou análises aprofundadas de aspectos específicos do tema. Ciente dessa proposta, o leitor pode se deleitar não apenas com o recorte temático dos enredos, mas com a narrativa sobre os profissionais e o contexto em que desenvolveram os desfiles.” Leia na íntegra. 

O melhor da literatura LGBTQIA+

Nesta edição, o pesquisador e escritor Luiz Morando, autor de Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte (O Sexo da Palavra, 2020)indica o livro de contos Os anos de vidro (Nós, 2025), de Mateus Baldi.

“O livro reúne onze narrativas, que abordam temas da vida contemporânea, envolvendo sexualidade, amores improváveis, recusa do binarismo e outros mais. Tenham muita atenção com o conto, do qual eu gostei muito, intitulado ‘Istmo’, em torno da transição de gênero de um jovem adolescente”, diz.

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]